Dia Mundial do Meio Ambiente e Oceano 2026
Escrito por Neo Mondo | 5 de junho de 2026
Viver em harmonia com a natureza talvez seja o maior desafio e, ao mesmo tempo, a maior oportunidade de reinventarmos o nosso futuro coletivo - Foto: Ilustrativa/Magnific
EDITORIAL
POR - ALEXANDER TURRA*, CONSELHEIRO E COLUNISTA DO NEO MONDO E CURADOR DESTE ESPECIAL
Não. Essa não é uma mensagem romântica, um lugar-comum. Esse argumento é, na verdade, compreendido por um número crescente de pessoas que buscam materializar o conceito de sustentabilidade. Ele carrega significados potentes, amparados em construções filosóficas e principiológicas, fortemente alicerçadas no avanço do conhecimento científico e no amadurecimento de uma visão de futuro para a humanidade. Algo tão relevante que mobilizou os estados-membros das Nações Unidas a proporem momentos de reflexão para que não esquecêssemos de refletir sobre algo tão relevante, a construção do nosso futuro coletivo.
Nos idos de 1972, quando as Nações Unidas realizaram seu primeiro encontro para endereçar as crises socioambientais que já emergiam e se intensificavam no pós-guerra, a Conferência de Estocolmo sobre o Ambiente Humano decidiu propor 5 de junho como o Dia Mundial do Meio Ambiente. Esta foi a data de criação do que viria a ser o grande articulador da agenda ambiental planetária: o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), cujo equivalente nacional, a Secretaria Especial do Meio Ambiente, foi criado em 1973.
Mas a que isso se refere? Segundo a Política Nacional do Meio Ambiente, promulgada em 1981, meio ambiente é “o conjunto de condições, leis, influências e interações de ordem física, química e biológica, que permite, abriga e rege a vida em todas as suas formas.” Em outras palavras, a interpretação dos legisladores à época era a de que a temática ambiental tem um caráter que não se limita ao componente e ao interesse antropocêntrico. Algo que compreende o valor e, por que não dizer, os direitos de todos os seres vivos. Esse é um dos avanços que, posteriormente, foram consolidados no Quadro de Futuros da Natureza, elaborado pela Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES) em 2022.
A compreensão de que nossa relação com a natureza é definida por valores instrumentais, que consideram os benefícios da natureza para as pessoas, e por valores relacionais, que consideram a natureza como cultura e o ser humano como parte integrante dela, não exclui seus valores intrínsecos, que não dependem de qualquer relação com as pessoas. Ou seja, a natureza, em si, possui direitos de existência que não dependem de sua utilidade para a sociedade. Uma interpretação desse princípio é a de que a sociedade não tem o direito de provocar a extinção de espécies ou de comprometer seus modos de vida.
Avanços como esses representam iniciativas para materializar o conceito de sustentabilidade, consolidado por ocasião da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro em 1992, a Rio-92. Mas algo ainda estava faltando. Um desses elementos faltantes era um quadro lógico que efetivamente traduzisse a relação entre a natureza e a sociedade. Isso foi impulsionado pela Avaliação Ecossistêmica do Milênio, que, em 2005, lançou as bases para o alvorecer do IPBES, movimento que, em paralelo à Plataforma Intergovernamental para as Mudanças do Clima (IPCC), tem buscado aproximar a ciência da tomada de decisão. A Rio-92 também representou o início da elevação (não literal) do nível do oceano na agenda multilateral. Além de um capítulo inteiro dedicado à conscientização sobre a importância e a sustentabilidade dos ambientes costeiros e marinhos na Agenda 21, o dia 8 de junho foi proposto para marcar o Dia Mundial do Oceano.
Apesar de ter sido adotado apenas anos depois, em 2008, esse movimento de destacar a importância do oceano na agenda ambiental global foi fortalecido na Rio+10 (Conferência da ONU sobre Desenvolvimento Sustentável), realizada em 2012, e deu frutos em 2015, com a adoção do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 14 – Vida na água – e, em 2017, com a primeira Conferência da ONU sobre Oceano e a criação da Década das Nações Unidas da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável (2021-2030).
Como resultado desses processos de integração entre ciência e políticas públicas, entre awareness e advocacy, e de amadurecimento das relações diplomáticas sobre o tema, hoje temos os dias 5 e 8 de junho como datas a serem comemoradas, e não mais apenas como momentos para repactuar os avanços que ainda precisam ser conquistados. São oportunidades para uma reflexão holística e sistêmica sobre a plenitude e a relação intrínseca de dependência que temos com a natureza, para construirmos um futuro mais justo.
O portal Neo Mondo considerou esse momento para publicar um especial dedicado e promover reflexões sobre os caminhos e descaminhos que temos percorrido ao longo dessas cinco décadas. Entrevistas com lideranças ambientalistas, como Marina Silva, e com cientistas, como Ima Vieira, entremeadas com textos de opinião de colunistas do Neo Mondo e com matérias sobre temas diversificados, mas convergentes, compõem o Especial Dia do Meio Ambiente e do Oceano.
Mais do que um chamado para pensarmos as nossas origens enquanto sociedade e as oportunidades de caminhos que se apresentam para construirmos nossos futuros, o especial também procura promover o encantamento das leitoras e dos leitores não só com a natureza, em todos os seus compartimentos e formas, inclusive o ambiente marinho, mas também com a reinvenção do que é viver em harmonia com aquilo que realmente importa. É um repensar da nossa relação com a natureza e conosco. Deleitem-se! Inspirem-se! Transformem-se!

Este conteúdo integra o especial “O Planeta Fora de Equilíbrio: Da Terra ao Oceano”, produzido pelo Neo Mondo para aprofundar o debate sobre a crise sistêmica do planeta e suas consequências econômicas, geopolíticas e civilizatórias. Um especial Neo Mondo em parceria com a Amanco Wavin e Redemar Brasil.
Biólogo, educador, pesquisador e comunicador. Professor titular do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo e coordenador da Cátedra Unesco para a Sustentabilidade do Oceano, dedica-se a promover a aproximação entre o oceano e a sociedade. Conselheiro e colunista do portal Neo Mondo.

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