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Escrito por Neo Mondo | 18 de agosto de 2026
Frango vivo em galpão de produção: 37% do peso de cada ave abatida não vira carne, e quase todo esse volume segue para a farinha - Foto: Ilustrativa/Freepik
POR - OSCAR LOPES*, PUBLISHER DO NEO MONDO
Penas concentram 85% de proteína bruta. Ossos guardam colágeno e cálcio. Ultrassom e enzimas já recuperam essas moléculas em laboratório há mais de uma década. O Brasil segue vendendo o material a peso de ração
Uma pena de frango entra no digestor sob pressão de até três quilos-força por centímetro quadrado e sai vinte minutos depois transformada em pó. Quanto maior a pressão interna, menor a hidrólise: parte do nitrogênio se perde no caminho e o teor proteico cai. O produto final tem preço de ração. A queratina que aquela pena carregava, e que responde por 85% do seu peso seco, chega ao fim da linha degradada demais para servir a qualquer outra coisa.
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Multiplique o gesto por 5,706 bilhões de aves abatidas no Brasil em 2025 e aparece o volume que a indústria avícola brasileira move sem olhar. Subprodutos representam cerca de 37% do peso vivo de cada frango na hora do abate. Penas, pés, ossos, pele, cabeça, vísceras, sangue, gordura abdominal. A legislação chama isso de resíduo de abate. Uma revisão publicada em março de 2026 na Ciência Rural, conduzida por pesquisadores da Universidade Federal de Santa Maria com colegas da PUC-PR e do Instituto Federal de Roraima, mapeou o que a ciência já sabe extrair desse volume: colágeno, gelatina, queratina, peptídeos ligantes de cálcio, enzimas industriais, filmes de embalagem.
A distribuição do descarte tem geometria conhecida. Penas somam 7% do peso corporal. Ossos, 15% da carcaça, com cálcio, ácidos graxos e colágeno. Pele, entre 7% e 10% do peso total. Gordura abdominal e da moela, de 2% a 2,5%. Cabeça, 2%. Sangue, 7,5% do peso de aves adultas, praticamente sem uso. Os pés, sozinhos, movimentam 3,9 milhões de toneladas por ano no mundo e figuram entre as fontes de colágeno mais abundantes de qualquer cadeia de proteína animal.
Nada disso se perde no Brasil. O país recicla 100% dos resíduos gerados em abatedouros e no varejo e é o segundo maior coletor mundial de resíduos animais, atrás dos Estados Unidos. Em 2025, o setor produziu mais de 6,17 milhões de toneladas e exportou 926,5 mil. A eficiência logística é indiscutível. A eficiência econômica, não. Em 2023, as exportações brasileiras de farinhas e gorduras animais somaram 574 mil toneladas e renderam US$ 570 milhões, pouco menos de mil dólares por tonelada. O Brasil recolhe tudo e vende commodity.
Convém não exagerar o tamanho da porta que essa constatação abre. O mercado global de colágeno somou US$ 11,4 bilhões em 2025, mas a fonte bovina responde pela maior fatia, 38,4%, e a gelatina concentra 66,4% da receita por tipo de produto. A parcela avícola é minoritária. Aí está a inversão que interessa: ela é minoritária justamente porque nenhuma cadeia se organizou para torná-la maior. Bovinos e suínos abastecem a indústria de colágeno há décadas porque alguém construiu especificação, rastreabilidade e registro sanitário para eles. Frango tem volume, dispersão geográfica e teor de colágeno equivalentes, e continua fora.
As rotas técnicas existem, e nenhuma delas depende de solvente agressivo. Ultrassom a 130 W combinado a redução de 15% de cisteína extrai queratina de penas preservando estrutura química, composição de aminoácidos e estabilidade térmica. O cocultivo de Bacillus licheniformis com Stenotrophomonas maltophilia hidrolisa 70% da queratina em 48 horas e libera peptídeos cuja atividade antioxidante cresce conforme a reação avança. Aspergillus flavus em fermentação submersa degrada nove vezes mais queratina que em estado sólido. Cabeças de frango tratadas por via enzimática em dois estágios rendem gelatina a 22,6% e 29,9%, e o resíduo sólido que sobra ainda vira fertilizante. Mônica Voss, uma das autoras, aposta que penas e pés podem virar fontes de colágeno de alta qualidade para cosméticos e gelatina farmacêutica.
O obstáculo não está no reator. Pés de frango são classificados em três tipos comerciais, e a venda dos de tipo B, com lesões limitadas, só foi autorizada no Brasil pela circular 599/2010 do Ministério da Agricultura, condicionada a exigências higiênico-sanitárias; os de tipo C seguem impróprios para consumo humano e destinados à reciclagem. Quem define hoje o que pode virar ingrediente é o inspetor, não o químico. E o resultado técnico nem sempre coopera: colágeno de pés substituindo metade da gordura em linguiça tipo Frankfurter melhorou emulsão e retenção de água, mas piorou a textura.
Há perdas mais difíceis de justificar. A gordura abdominal e da moela do frango tem cerca de 40% de ácidos graxos poli-insaturados, contra menos de 20% nas gorduras suína e bovina que ela substituiria em produtos cárneos, com predominância de oleico, palmítico e linoleico. É um perfil lipídico superior ao do insumo concorrente, e boa parte segue para a caldeira.
Os pesquisadores encerram pedindo avaliações de ciclo de vida específicas, capazes de comparar retorno econômico e ganho ambiental de cada rota antes de qualquer decisão industrial, e condicionam tudo à colaboração entre universidades, centros de pesquisa e indústria. A avicultura brasileira fechou 2025 com 15,289 milhões de toneladas produzidas e US$ 9,8 bilhões de receita em exportações. Nenhum centavo desse total veio de queratina.
*Com informações da Agência Bori.
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