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Um ímã de mão contra os microplásticos: o pó de tamarindo que 23 mil votos elegeram no Earth Prize 2026

Escrito por Neo Mondo | 18 de agosto de 2026

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Ímã na mão, sementes de tamarindo sobre a bancada e os aglomerados já visíveis na água: a demonstração que levou o Plas-Stick ao título global do The Earth Prize 2026 - Foto: Divulgação

POR - REDAÇÃO NEO MONDO

Vencedor global do The Earth Prize 2026, o Plas-Stick transforma resíduo agrícola em floculante magnético. A química que sustenta a ideia já existe em laboratórios de três continentes. O que falta é validação independente

Em 29 de maio, em Genebra, o The Earth Prize 2026 anunciou seus vencedores globais: Vivaan Chhawchharia, Ariana Agarwal e Avyana Mehta, três estudantes indianos de 16 anos, autores do Plas-Stick, um pó biodegradável e magnético feito de sementes descartadas de tamarindo que remove microplásticos da água. Cerca de 23 mil pessoas votaram para escolher o vencedor global entre sete vencedores regionais que representavam América do Norte, África, Ásia, América Central e do Sul, Oceania e Sudeste Asiático, Europa e Oriente Médio. É a primeira vez que uma equipe indiana leva o título global.

Leia também: Duas semanas para desaparecer: o plástico vegetal que libera enzimas contra microplásticos

O mecanismo é direto. Adicionado à água, o pó atrai e liga as partículas de microplástico, formando aglomerados visíveis que podem então ser retirados com um ímã portátil. O sistema foi desenhado para funcionar sem eletricidade e sem maquinário complexo. Duas semanas antes da votação final, a equipe já havia sido anunciada como vencedora regional da Ásia, com US$ 12,5 mil para desenvolver a ideia, parcela de um fundo compartilhado de US$ 100 mil distribuído entre os premiados.

A origem do projeto é uma cena, não um laboratório. Os estudantes visitaram uma comunidade rural onde a água de beber era armazenada em recipientes plásticos compartilhados, sem sistemas avançados de filtragem. Ver uma criança beber de um desses recipientes expôs ao grupo a exposição diária a microplásticos pela água comum. No mundo, mais de 2,2 bilhões de pessoas não contam com infraestrutura de água potável gerida de forma segura, o que amplia a dependência de água armazenada.

A escolha do tamarindo não é acaso botânico. A semente de Tamarindus indica, normalmente descartada pela indústria de alimentos, concentra um polissacarídeo de alto peso molecular, a galactoxiloglucana. Rica em polissacarídeos, proteínas e polifenóis, a semente exibe boas propriedades de coagulação e floculação, atuando por um mecanismo de ponte: as cadeias ramificadas se estendem pela água como uma rede e capturam partículas de carga negativa, que se aglomeram e ganham massa. Rajani Srinivasan, da Tarleton State University, apresentou em 2022, na reunião da American Chemical Society, testes com extratos de quiabo, feno-grego, cacto, babosa, tamarindo e psyllium como floculantes. A combinação de quiabo com tamarindo teve o melhor resultado em amostras de água doce, e o conjunto de polissacarídeos vegetais funcionou tão bem quanto, ou melhor que, a poliacrilamida convencional, dependendo da combinação e da fonte de água. O grupo publicou a continuação do trabalho na ACS Omega em 2025. Em 2026, o International Journal of Environmental Research trouxe um estudo específico sobre extrato de semente de tamarindo como auxiliar de coagulação para microplásticos de poliamida, combinado a sulfato de alumínio.

A parte magnética é a menos documentada. O anúncio oficial descreve o pó como magnético e biodegradável, mas não detalha como a propriedade é conferida ao material vegetal nem publica taxas de remoção. Números que circulam em redes sociais, como 98% de remoção em três minutos, não constam de nenhum comunicado do The Earth Prize. Vale o mesmo registro para outra distorção: publicações virais afirmaram que cada estudante teria recebido valores muito superiores ao prêmio regional coletivo de US$ 12,5 mil.

O Brasil já pesquisa as duas metades dessa equação, separadamente e com financiamento público. Na USP, o grupo de Henrique Eisi Toma sintetizou nanopartículas magnéticas de óxido de ferro revestidas com polidopamina e funcionalizadas com lipase, monitoradas por microscopia Raman hiperespectral, com os microplásticos removidos junto com as nanopartículas por meio de um ímã. O trabalho, apoiado pela FAPESP, saiu no periódico Micron. No Instituto de Ciência e Tecnologia da Unesp, em São José dos Campos, a pesquisa seguiu a rota vegetal. O extrato salino da semente de moringa, ou acácia-branca, mostrou desempenho semelhante ao do sulfato de alumínio na coagulação que antecede a filtração, com resultado publicado na ACS Omega. A filtração em linha removeu mais de 98% dos microplásticos, o que permite simplificar o desenho das estações de tratamento e economizar energia e espaço. O revés é conhecido: o aumento de matéria orgânica dissolvida, cuja remoção poderia encarecer o processo, embora em pequenas escalas, como propriedades rurais e pequenas comunidades, o método possa ser usado com baixo custo e eficiência, segundo Adriano Gonçalves dos Reis, que coordena o estudo e o projeto de filtração direta apoiado pela FAPESP.

Reis resume o motivo pelo qual essa linha de pesquisa cresceu: "Há um escrutínio regulatório cada vez maior e uma preocupação com a saúde sobre o uso de coagulantes baseados em alumínio e ferro, pelo fato de não serem biodegradáveis, além de deixarem toxicidade residual e apresentarem risco de doenças".

É aí que o Plas-Stick se separa da ciência estabelecida. Não há publicação revisada por pares, nem validação independente em larga escala. Faltam dados sobre tipos e tamanhos de polímero testados, tempo de contato, dose por litro, comportamento em águas com sedimentos, sais ou dureza elevada, e sobre reutilização do material. Remover microplástico também não torna a água potável: microrganismos e compostos químicos exigem outras etapas. E o pó não degrada o plástico, apenas o concentra, o que transfere para o usuário final a responsabilidade de dar destinação aos aglomerados retirados.

O que o projeto tem, e que a maior parte das pesquisas de bancada não tem, é campo. Aplicado em oficinas e demonstrações, o Plas-Stick já alcançou mais de 8 mil estudantes e professores, e a equipe recebeu assessoria do dr. Rajesh Khandelwal para reforçar os testes e o desenvolvimento da tecnologia. Os estudantes trabalharam com pesquisadores do Indian Institute of Technology Guwahati para testar e aprimorar a eficácia da tecnologia. Agora, o grupo pretende ampliar a solução por meio de polos descentralizados de produção e chegar a comunidades rurais da Índia.

Avyana Mehta, Vivaan Chhawchharia e Ariana Agarwal, os três estudantes de 16 anos por trás do Plas-Stick: primeira equipe da Índia a vencer o título global do The Earth Prize - Foto: Divulgação/The Earth Prize

Peter McGarry, fundador da The Earth Foundation, definiu assim a escolha: "A equipe Plas-Stick representa exatamente o tipo de inovação que o The Earth Prize foi criado para elevar: soluções cientificamente embasadas, ambientalmente responsáveis e acessíveis às comunidades que mais precisam delas".

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