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Escrito por Neo Mondo | 12 de agosto de 2026
Longe do mar: professores, educadores e pesquisadores do Rebimar no "Café em Curso", encontro presencial que interrompe a rotina assíncrona da formação online - Foto: Gabriel Marchi
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO
Curso gratuito do Rebimar com a UFPR forma docentes de vários estados e ataca o ponto mais frágil do currículo azul brasileiro: quem ensina
Uma professora de primeiro ano em São José dos Pinhais descobriu que seus alunos não sabiam que o mero vive no litoral do Paraná. Daniela Fernandes dá aulas na Escola Municipal Emílio de Menezes, na Região Metropolitana de Curitiba, longe da faixa de areia. Depois de concluir o curso gratuito de formação de professores do Rebimar, transformou o peixe e os sambaquis paranaenses em conteúdo de alfabetização, de contagem e de artes. O trabalho virou destaque da Mostra Pedagógica da escola. "Trabalhei desde gêneros textuais até números, fazendo com que, brincando, reflitam sobre a importância da biodiversidade, dos ecossistemas e da preservação", conta ela. "O resultado foi incrível."
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A formação por trás desse resultado é oferecida pelo Programa de Recuperação da Biodiversidade Marinha, o Rebimar, iniciativa da Associação MarBrasil patrocinada pelo Programa Petrobras Socioambiental em parceria com a Universidade Federal do Paraná. É online, assíncrona e gratuita. Tem 60 horas, certificação emitida pela UFPR e roda na plataforma do Laboratório Móvel de Educação Científica, o LabMóvel. Duas turmas já se formaram, com 160 professores e educadores ambientais certificados, de vários estados onde a Mata Atlântica está presente. A próxima edição está prevista para o segundo semestre de 2026, com inscrições entre 1º e 30 de setembro pelo site da Associação MarBrasil.
O calendário coincide com uma virada de política pública. Em abril de 2025, o Brasil assinou em Brasília o Protocolo de Intenções que insere a educação sobre o oceano no currículo escolar nacional, tornando-se, segundo a UNESCO, o primeiro país a firmar esse compromisso. O chamado currículo azul será adaptado às realidades regionais e locais. O programa Escola Azul já mobiliza mais de 100 mil estudantes em todas as regiões do país, e o Brasil concentra hoje um quarto das escolas azuis do mundo, que existem em mais de 70 países, com 23 municípios e sete estados dotados de legislação própria sobre cultura oceânica, segundo Ronaldo Christofoletti, coordenador do Maré de Ciência, da Unifesp.
Escrever o oceano no currículo, porém, não coloca o oceano na aula. A literatura científica é direta quanto a isso. Um levantamento publicado na Frontiers in Marine Science mostra que os professores são os árbitros finais de se e como temas marinhos entram na sala, e que a inclusão efetiva depende do domínio que o docente tem sobre o funcionamento do ambiente marinho, o que por sua vez determina o que ele ensina e como ensina. O mesmo estudo registra que alunos de escolas próximas à costa apresentaram nível de cultura oceânica mais alto do que os de escolas afastadas do litoral. Daniela Fernandes ensina justamente numa dessas escolas afastadas.
Há também um problema de repertório. Uma revisão sistemática publicada na Environmental Education Research em 2025 mapeou 122 artigos sobre aprendizagem oceânica na educação formal e concluiu que as experiências continuam estreitas, quase sempre centradas no oceano como ambiente físico, sem oferecer abordagens múltiplas e diversas. O oceano vira aula de geografia, e para por aí.
O curso do Rebimar caminha na direção oposta. A grade percorre fauna marinha e espécies ameaçadas, pesca e ocupação humana do litoral, sambaquis e patrimônio cultural, costões rochosos, lixo no mar e o conceito de Uma Só Saúde. As aulas se estruturam a partir da apostila "Nós e o Mar: A Mata Atlântica e o Oceano" e do guia de atividades "Reflorestando o Mar", distribuídos gratuitamente. Poesia, gráficos, tabelas, maquetes e obras de arte entram como ferramentas. Não é ciência marinha traduzida para crianças. É outra coisa: território, cultura e saúde tratados como um bloco só.
Em Paranaguá, a professora Fabiana Rodrigues aplicou isso com alunos adultos do Colégio Estadual Cidália Gomes. "Eles percebem o lixo do mangue subindo com as chuvas e chegando na porta de casa, sabem o quanto o lixo dificulta a pesca, mas não separavam o reciclável. Então, trabalhamos para que entendam sua própria realidade e responsabilidade como comunidades caiçaras", conta. O material didático também trata de legislação e cidadania.
Valéria Acioli, que leciona Artes em Colombo e em Curitiba, propôs levar o conteúdo a toda a rede estadual. "O curso trouxe outras abordagens, para ir além das práticas tradicionais. É tanta informação sobre mar que, muitas vezes, nem nós professores conhecemos. Saímos daqui com novos temas, um grande vocabulário marítimo e o conhecimento de datas importantes."
Marcos Gernet, professor da Universidade Estadual do Paraná e um dos ministrantes, descreve o efeito como reconhecimento do próprio quintal. "Quando não há percepção de onde se vive, não se pensa no macro. Como você vai cuidar de algo que não sabe o que é? Como vai se sentir pertencente a algo que nem sabe que existe? Essas barreiras é que precisamos continuar quebrando."
O mero que os alunos de São José dos Pinhais descobriram existir mede a distância entre currículo e realidade. A espécie está protegida por lei desde 2002, quando a Portaria IBAMA nº 121 instituiu a primeira moratória de pesca dedicada a um peixe marinho no Brasil, proibindo captura, beneficiamento, transporte e venda. A proibição foi renovada três vezes e vigora de forma indefinida desde a Portaria MMA nº 148, de 2022. Ainda assim, considerando toda a área de distribuição da espécie no país, a redução populacional passou de 80% nos últimos 65 anos. Na lista vermelha brasileira do ICMBio, o mero figura como criticamente em perigo. Um animal de até 2,5 metros e mais de 400 quilos desapareceu do vocabulário de quem vive a menos de cem quilômetros dele.
O Rebimar opera nesse território desde 2009. A Grande Reserva Mata Atlântica soma mais de 2,7 milhões de hectares, dos quais 2,2 milhões são de área marinha, protegidos em 66 unidades de conservação, e reúne pesquisadores da UFPR, do Instituto Federal do Paraná, da Unespar, da Unesp e da USP. Um mapeamento conduzido com o LAGEAMB da UFPR identificou cerca de 49 mil hectares de manguezais no corredor. É esse acervo que a formação docente converte em plano de aula.
Lilyane Fontoura, coordenadora-geral do Rebimar, aponta o alcance obtido pelo formato remoto, com participação de profissionais de todo o Brasil na última turma. "A internet nos dá a possibilidade de ampliar o alcance desta rede de formação. Ofertamos todos os materiais gratuitamente em nosso site, é só baixar e educar."
Emerson Joucoski, coordenador de Educação Ambiental do Rebimar e da pós-graduação em Desenvolvimento Territorial Sustentável da UFPR, acrescenta o argumento que costuma decidir a inscrição de um professor da rede pública: a certificação vale para progressão de carreira. "O material foge do estilo padronizado das escolas e mostra a riqueza de nossa biodiversidade, permitindo aos docentes descobrir novas práticas pedagógicas envolvendo a cultura oceânica."

O Programa Rebimar é um conjunto de ações socioambientais voltadas para a conservação da região litorânea, na Grande Reserva Mata Atlântica. A iniciativa faz parte da Associação MarBrasil, tem patrocínio do Programa Petrobras Socioambiental, e conta com apoio científico da UFPR, ITFPR, UNESPAR, UNESP e USP.
As inscrições da nova turma abrem em 1º de setembro e se encerram em 30 de setembro, pelo formulário disponível no site da Associação MarBrasil e nas redes sociais do programa.
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