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Escrito por Neo Mondo | 5 de novembro de 2026
Ex-veleiro de Amyr Klink, o Paratii 2 ainda com o nome original, diante de uma geleira antártica, mais de duas décadas antes de trocar o oceano Austral pelo Ártico - Foto - Arquivo pessoal
ARTIGO
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Por - Marina Guedes*, especial para o Neo Mondo
Veleiro que pertenceu a Amyr Klink foi comprado por uma fundação suíça e hoje funciona como plataforma de pesquisas oceanográficas costeiras multidisciplinares nas regiões polares e subpolares. Série especial do podcast Maré Sonora, com dez episódios, mergulha no passado e no presente da embarcação
A ideia de apurar o destino do ex-Paratii 2 surgiu no final do ano passado. Thierry Stump, um dos projetistas e o construtor do icônico veleiro que pertenceu a Amyr Klink, enviou uma mensagem ao perfil do Maré Sonora no Instagram, podcast que coordeno desde 2020.
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Stump foi breve. Contou-me que o monocasco tinha sido rebatizado de Forel e transformado em plataforma de pesquisas científicas. Desde então, navegava pelo Ártico. A nova proprietária era uma instituição suíça, a Forel Heritage Association, ou Fundação Herança Forel, em tradução livre.
Como é fácil prever (afinal, a curiosidade jornalística não dorme em serviço), minha reação imediata foi responder-lhe e perguntar se, por acaso, teria o contato de alguém com quem eu pudesse conversar para saber mais. O assunto, pensei, tinha tudo para virar uma série especial do podcast.
Àquela altura, eu nem imaginava que, seis meses depois, exatamente no dia em que o Maré Sonora completava seis primaveras, 27 de maio, estaria a bordo com parte da tripulação da fundação, rumo à Groenlândia, para uma travessia de 16 dias pelo Atlântico Norte. O ponto de partida da expedição foi Lorient, na França.
Longa gestação da grande dama
Por razões práticas, já que Thierry vive no Brasil e eu, na Itália, nossas conversas costumavam ser virtuais, como a maior parte das gravações que produzo para o Maré Sonora. Quando soube que ele planejava viajar à Bélgica em fevereiro, disse que gostaria de encontrá-lo. Seria, enfim, nosso primeiro bate-papo presencial.
O encontro aconteceu sob o frio típico do inverno europeu. Aquela segunda-feira (bem diferente de uma rotineira, devo admitir!) foi aquecida por passeios pelos canais de Gante, na companhia de Thierry e de sua esposa, Sandra. Não faltaram boa gastronomia belga, arte e história. Foi um privilégio aprender tanto com o belga radicado no Brasil, que hoje mora em Ilhabela, de frente para o mar.

Com a riqueza de detalhes que lhe é característica, Thierry contou-me as dificuldades de tirar do papel o sonho de Amyr Klink de ter um barco polar. A gestação da grande dama, analogia justificada pelos quase 30 metros de comprimento, pouco mais de 8 de largura e "singelas" 100 toneladas do veleiro de alumínio, foi longa e trabalhosa: oito anos ao todo, de 1993 a 2001.
Por falta de dinheiro, a maternidade, ou melhor, o estaleiro onde o barco viria ao mundo, ficava longe do mar, em Itapevi, na Grande São Paulo. No início, havia apenas o terreno. O primeiro passo, portanto, foi erguer o estaleiro. Só depois começaram os trabalhos no barco propriamente dito.
Thierry e Amyr fecharam um acordo no fio do bigode: quando a embarcação deixasse o estaleiro, tudo o que ficasse para trás seria de Thierry. O veleiro, obviamente, seria do paulista conhecido, entre outros feitos, pela travessia a remo da Namíbia, na África, ao Brasil, há mais de 40 anos. A epopeia virou filme, lançado recentemente no país.
"Como não tínhamos dinheiro, havia muito tempo para pensarmos. O projeto foi redesenhado inúmeras vezes. Isso foi usado depois, nos outros barcos que fiz. Ajudou-me a crescer no meio náutico. O Paratizão sofreu ao nascer", brincou Thierry, usando o apelido carinhoso do veleiro.
A ideia de um barco polar
Em meados de abril, pouco mais de um mês antes de viajar à França para o início da expedição no Forel, também gravei um bate-papo com Amyr. O objetivo era conhecer detalhes do nascimento de seu maior barco, que tantas vezes navegaria pelo oceano Austral até ser vendido, em 2022.
Assim como Thierry, Amyr participou do Maré Sonora em diferentes ocasiões. Na última, falou do francês Jérôme Poncet, velejador que o inspirou a passar um inverno preso no gelo da península Antártica com o primeiro Paratii. Poncet e a então esposa, Sally, viveram experiência semelhante no fim dos anos 1970, cerca de dez anos antes do brasileiro.
Amyr contou-me que queria um barco mais profissional e inédito. Com Thierry, viajou à França levando um anteprojeto. O barco que inspirou o seu, disse Amyr, foi desenhado pelo renomado escritório francês Bouvet e Petit, de Luc Bouvet e Olivier Petit. Ficou combinado que os franceses assinariam a concepção do design e Thierry faria todo o detalhamento.
"Thierry tinha o sonho de ter um estaleiro, e eu, de não ter que pagar por um. Falei que o montaria, e no dia em que o barco passasse pela porta, tudo que estivesse para trás seria dele. Meu contador, na época, achou que eu era louco. Com o tempo, percebi que foi o melhor negócio que fiz na vida. Assim nasceu o Paratii 2", lembrou Amyr.
Saga até o mar
Uma vez pronto (ou quase, já que ainda faltava instalar os dois mastros, que nem estavam no Brasil), o veleiro precisava chegar ao mar. De Itapevi a Santos, no litoral paulista, foram pouco mais de 100 quilômetros, incluindo a travessia da capital, a maior cidade do país, com o barco sobre (muitas) rodas. A viagem por terra rendeu causos no mínimo engraçados, que Amyr recorda como se tivessem acontecido dias atrás, e não há mais de duas décadas. Foram 29 dias "dormindo" pelas avenidas e avançando em baixa velocidade, período em que o veleiro chegou a servir de abrigo para moradores de rua.
Em Diadema, o barco enroscou em fios clandestinos de alta-tensão instalados (pasmem!) em frente a um prostíbulo, em pleno expediente, de madrugada. "As funcionárias saíram na janela com os seios de fora. Diziam: 'Um barco, me leva junto!' Foi uma odisseia engraçada", descreveu Amyr.

Primeiras navegadas
A primeira longa navegação do Paratii 2 foi a motor, até Palma de Maiorca, na Espanha. Capitão há mais de 30 anos, Marcos Hurodovich trabalhou nas instalações elétricas e hidráulicas e na marcenaria do barco. Ele também comandou o veleiro diversas vezes, inclusive nessa viagem inaugural até a ilha espanhola, onde os dois mastros foram instalados.
"É um barco super bem pensado, seguro, rápido. A própria largura do casco não o deixa capotar. É um tanque de guerra", comparou Marcão, como é conhecido no meio náutico brasileiro.
Outro episódio curioso foi um churrasco na península Antártica, que atraiu a atenção de guias e turistas estrangeiros. Além de Hurodovich, estava lá, como em muitas outras navegações do Paratizão, o médico e velejador Fabio Tozzi. Os dois participaram do quinto episódio da série do Maré Sonora, recheado de boas lembranças.
Da Antártica ao Ártico
Na primeira fase, o Paratii 2 fez inúmeras viagens pela Antártica. Mais de duas décadas depois de nascer, mudou de vocação e passou a navegar no extremo oposto do globo, o Ártico. A Fundação Polar Suíça (Swiss Polar Foundation) comprou o barco e depois transferiu a propriedade à Fundação Herança Forel.
Além do nome, que homenageia o cientista suíço François-Alphonse Forel, criador da limnologia (uma espécie de oceanografia dos lagos), o veleiro ganhou nova missão: servir de plataforma de apoio a pesquisas em regiões polares e subpolares.
Stéphane Aebischer é um dos fundadores e o gerente-geral da entidade. Conversamos pela internet, em inglês, como nas demais entrevistas que fiz com a equipe, já que o francês não está entre as minhas habilidades linguísticas, infelizmente! Do Canadá, Stéphane explicou que o Forel passou por modificações significativas, como a instalação de três laboratórios na popa (parte traseira).
Diferentemente dos navios quebra-gelo, a embarcação construída no Brasil tem calado pequeno, o que permite chegar perto da costa e pesquisar áreas ainda pouco estudadas, foco do trabalho da fundação. Na Groenlândia, por exemplo, a maior parte dos quase 60 mil habitantes vive justamente nessas faixas costeiras.
Além do apoio às pesquisas oceanográficas costeiras multidisciplinares, a instituição se dedica a oferecer qualificação e aperfeiçoamento a profissionais da vela, segundo Aebischer.
Na travessia de Lorient a Kangerlussuaq, estávamos em oito. Os cientistas embarcaram já na Groenlândia, em três etapas que percorreram as costas oeste, sul e leste até meados de setembro. A cada etapa, o Forel recebe até seis tripulantes e seis pesquisadores.
Ainda de acordo com Stéphane, o intercâmbio cultural e científico é outra prioridade do projeto. Neste ano, o barco recebeu visitas e apresentações em três paradas: Nuuk, Ittoqqortoormiit e Narsaq. Na prática, foi a chance de mostrar não só curiosidades da vida a bordo, mas também as pesquisas em andamento. Em troca, a equipe conheceu mais sobre a cultura e a realidade de cada comunidade.
Ciência a bordo
Encontrei os dois primeiros pesquisadores da temporada de 2026 poucos dias antes de desembarcar, ainda em Kangerlussuaq, na costa oeste da ilha. Samuel Toucanne e Brandon Finley atuam no projeto GreenCORE. Nas primeiras horas a bordo, Toucanne, geólogo marinho do Ifremer, o Instituto Francês de Pesquisa para a Exploração do Mar, já comemorava as primeiras coletas. Assim como Finley, da Universidade de Lausanne, ele estava na Groenlândia pela primeira vez.

Segundo Toucanne, o nome GreenCORE junta Greenland (Groenlândia) e core, termo em inglês para as amostras cilíndricas de sedimento, os testemunhos. A bordo, o trabalho incluiu a coleta de sedimentos marinhos ao longo dos fiordes para reconstruir o passado das geleiras e compará-lo ao que ocorre hoje com o aquecimento global.
"Sedimentos marinhos são arquivos do comportamento passado de geleiras e calotas polares, como um livro", comparou Toucanne. Além do GreenCORE, a missão de 2026 reuniu outros seis programas internacionais de pesquisa, todos voltados a entender melhor os efeitos das mudanças climáticas nos fiordes da Groenlândia, em seus ecossistemas, microbiomas e ciclos biogeoquímicos.
A nova família do Forel
Traços do primeiro capítulo da história do Forel continuam presentes e fáceis de notar, como os desenhos da família Klink na base de um dos mastros e na parede de uma das cabines. Fotografias feitas em viagens à Antártica enfeitam a área central da embarcação.
Livros com dedicatórias ao primeiro dono ajudam a compor a biblioteca de bordo. Quem procura com mais atenção encontra objetos do dia a dia, como xícaras com mensagens em português, vestígios dos tempos em que o monocasco ainda se chamava Paratii 2.
A placa de alumínio em que Thierry Stump eternizou sua dedicatória segue firme na parede do salão principal: "Que este lindo albatroz viaje pelos oceanos como eu tantas vezes o imaginei sobre minha prancheta, e vendo-o nascer na Oficina Naval". Durante a travessia, traduzi a mensagem de Thierry para os novos amigos da tripulação.
A família cresceu e hoje inclui a comunidade científica internacional. A cada missão, novos objetos decorativos ajudam a compor a personalidade do barco. Entre velejadores, é comum a crença de que embarcações têm alma. Para quem hoje dá vida ao projeto e leva o Forel a novos horizontes, é unânime a satisfação de participar de uma iniciativa em que a ciência e, por extensão, o planeta são os maiores beneficiados.
Para saber mais
A série especial do Maré Sonora sobre o veleiro Forel está disponível gratuitamente nos principais tocadores de podcast e no canal do programa no YouTube, onde é possível ouvir os episódios com legendas e dublagem automáticas no idioma desejado.
YouTube: https://youtube.com/@podcastmaresonora?si=Gw__NU4B4soQR5A4
Spotify: https://open.spotify.com/show/1YftmqbfsbMmG2K5eLsLV7?si=cb1b758a122645d7
*Marina Guedes - Jornalista freelancer e produz, apresenta e edita o podcast Maré Sonora, criado em 2020, com audiência em 97 países. Escreve para veículos do Brasil, da Itália e da Inglaterra. Morou quatro anos num veleiro no Pacífico Sul e trabalhou dez anos como jornalista na Amazônia. Fez reportagens especiais na Antártica, na Geórgia do Sul, na Ilha da Trindade, em Abrolhos e na Noruega. Vive na Itália.

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