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Escrito por Neo Mondo | 3 de novembro de 2026
Água e luz só chegaram ao terreno anos depois da fundação. Hoje, um jovem atendido recebe o cumprimento de um cavalo no picadeiro coberto da ABRAHIPE, em Cotia - Foto: Divulgação/ABRAHIPE
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO
Fundada em 2006 por Fernanda Garlando dentro do Pequeno Cotolengo Paulista, a ABRAHIPE completa 20 anos em 15 de novembro com cerca de 250 atendidos e oferece equoterapia, terapia com cães e apoio às famílias sem cobrar nada
Em 2006, a ABRAHIPE começou a atender 50 pessoas com deficiência num terreno sem água e sem energia elétrica, dentro do Pequeno Cotolengo Paulista, no km 25,5 da Rodovia Raposo Tavares, em Cotia. Os cavalos eram emprestados ou doados por quem acreditava no projeto. Vinte anos depois, a Associação Brasileira de Hippoterapia e Pet Terapia acompanha cerca de 250 pessoas, sem cobrar nada delas nem das famílias. Desde a fundação, já atendeu mais de 3 mil pessoas com deficiência e cerca de 9 mil familiares. Em 15 de novembro, completa duas décadas.
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Fernanda Garlando fundou a associação e a preside desde o primeiro dia. A aposta parecia estranha em 2006. Pouca gente no Brasil entendia como um cavalo ou um cachorro poderia ajudar no desenvolvimento de uma pessoa com deficiência. A primeira empresa a acreditar na ideia foi a Schering-Plough, que tinha uma fábrica na região. Hoje ela se chama MSD Saúde Animal e continua ao lado da ABRAHIPE.
A Lei 13.830, de 2019, define a equoterapia como método de reabilitação. A prática exige parecer médico, psicológico e fisioterápico, além de uma equipe com médico, veterinário, psicólogo, fisioterapeuta e profissional de equitação. O SUS ainda não paga por ela. O projeto que autoriza a inclusão da equoterapia nas práticas integrativas do sistema passou pela Câmara em maio de 2024 e segue no Senado. Em Cotia, o acesso das famílias à ABRAHIPE começa no CRAS, pelo Cadastro Único.
Com o tempo, a casa deixou de ser só picadeiro e canil. Nos últimos dez anos, ganhou oficinas de música e artes, leitura mediada por cães, um espaço para pessoas com Transtorno do Espectro Autista, salas sensoriais e de atividades de vida diária, além de serviço social e acolhimento psicológico às famílias. Na pandemia, os cavalos passaram a aparecer em videochamadas. Entre o início de 2023 e hoje, o número de atendidos dobrou, de cerca de 120 para 250.

Nesta entrevista ao Neo Mondo, Fernanda conta como a ABRAHIPE saiu de um terreno sem infraestrutura e chegou aos 20 anos.
Em 2006, a senhora fundou uma associação com “hippoterapia” e “pet terapia” no nome, numa época em que a equoterapia ainda não tinha lei federal no Brasil. O que transformou a ideia em instituição? E por que Cotia, dentro do Pequeno Cotolengo Paulista?
A ABRAHIPE nasceu de uma convicção: os animais podiam ser muito mais do que companheiros. Podiam ser pontes para o desenvolvimento, a comunicação, a autonomia e a inclusão de pessoas com deficiência. Em 2006, hippoterapia e pet terapia eram pouco conhecidas no Brasil, e muita gente não entendia como um cavalo ou um cachorro poderia contribuir para isso. Eu acreditava nesse potencial. Via que, muitas vezes, um animal despertava uma reação, um interesse ou uma forma de comunicação que não aparecia de outras maneiras. Desde o início tivemos uma parceira muito especial, a antiga Schering-Plough, hoje MSD Saúde Animal, que está conosco há 20 anos. A empresa tinha uma fábrica na região e enxergou no projeto a chance de unir a saúde animal e a saúde humana. A escolha do Pequeno Cotolengo Paulista também teve um significado especial. Encontramos ali um ambiente cercado pela natureza, ideal para o trabalho com cavalos e cães, e um lugar que já tinha uma história de cuidado com pessoas com deficiência. Os moradores do Cotolengo passaram a fazer parte da nossa trajetória e se tornaram uma família para o projeto. Desde o começo, quisemos atender tanto eles quanto as pessoas com deficiência de Cotia em situação de vulnerabilidade, cujas famílias não podiam pagar por atendimento especializado. O atendimento gratuito nasceu junto com a ABRAHIPE e continua sendo um dos pilares da nossa missão.
Como eram os primeiros atendimentos? Quantas pessoas, quem formava a equipe e o que faltava naquele começo?
Começamos com 50 pessoas com deficiência, numa estrutura muito simples, com poucos recursos e praticamente nenhum investimento no espaço físico. No começo, não tínhamos nem água nem energia elétrica. Os cavalos eram doados ou emprestados por pessoas que acreditavam no nosso trabalho. A equipe era pequena, mas muito comprometida com o propósito de oferecer um atendimento gratuito e de qualidade. Aos poucos, com o apoio de parceiros, fomos transformando o espaço. Hoje temos uma estrutura ampla, arejada e integrada à natureza, com salas preparadas para diferentes atividades, banheiros adaptados, equipamentos e materiais de qualidade. Cada melhoria representa uma nova oportunidade de acolher alguém.
A ABRAHIPE começou com cavalos e cães. Hoje oferece música, artes, leitura com cães, intervenção no Transtorno do Espectro Autista (TEA), acolhimento às famílias e serviço social. Como essas frentes surgiram, e que necessidade cada uma veio atender?
No início, oferecíamos apenas equoterapia e intervenções assistidas por cães, que sempre foram a essência da ABRAHIPE. Com o aumento da procura e a escuta constante das famílias, percebemos que as necessidades eram muito mais amplas. Nos últimos dez anos, incorporamos as oficinas de música e de artes, a leitura mediada por cães e um espaço de intervenção para pessoas com Transtorno do Espectro Autista. Cada oficina surgiu de uma necessidade identificada no dia a dia: oferecer outras formas de expressão, comunicação, socialização e autonomia. Uma atividade foi complementando a outra, o que permitiu um trabalho mais integrado e individualizado. Nesse processo, o Serviço Social e o acolhimento psicológico se tornaram pilares do trabalho. Entendemos que cuidar da pessoa com deficiência também significa acolher a família, conhecer sua realidade e suas dificuldades. Com escuta, orientação e acompanhamento, fortalecemos os vínculos familiares, oferecemos apoio emocional e ajudamos no acesso a direitos e à rede de proteção social, principalmente para as famílias que vivem situações de vulnerabilidade e sobrecarga. Aprendemos que cuidar de uma pessoa com deficiência também é cuidar de quem está ao lado dela todos os dias.
Durante a pandemia, a equipe levou os animais para as atividades remotas, para que as crianças não perdessem o vínculo. Como foi montar isso, e o que esse período ensinou à casa?
Foi um período de muitas incertezas. A equipe precisou se reinventar para que os atendidos não perdessem o vínculo com a ABRAHIPE, com os profissionais e, principalmente, com os animais. Adaptamos as atividades para o formato remoto, com jogos, músicas e propostas lúdicas que lembravam os atendimentos presenciais. Muitas videochamadas eram feitas direto do nosso espaço, com a participação dos cavalos e dos cães. Como muitas famílias tinham dificuldade de acesso à internet, conseguimos doações de pacotes de dados para que elas pudessem participar. Ao mesmo tempo, o Serviço Social intensificou o acompanhamento e mobilizou parceiros para doar cestas básicas e alimentos às famílias que tinham dificuldade até para garantir o essencial. A pandemia nos mostrou que o nosso trabalho vai muito além dos atendimentos.
Em pouco mais de três anos, o número de atendidos dobrou, de cerca de 120 para 250. O que tornou esse crescimento possível, e qual foi o papel dos parceiros?
Essa foi uma das nossas maiores conquistas. Ela veio do fortalecimento da instituição, da ampliação da equipe e da reorganização dos atendimentos, sempre com todos os serviços gratuitos. A MSD Saúde Animal, nossa principal apoiadora desde a fundação, cuida do bem-estar dos animais e apoiou projetos como as salas sensoriais e de atividades de vida diária. A Prefeitura de Cotia, pela Secretaria de Desenvolvimento Social, garante a manutenção e a ampliação das vagas. A Mattel e a BCD Travel completam esse apoio com doações. Sabemos que ainda existe uma grande demanda, e isso nos motiva a continuar avançando.
São mais de 3 mil pessoas atendidas e cerca de 9 mil familiares. Existe uma história que resume o que a ABRAHIPE significa? E alguém que chegou criança, em 2006, continua por perto?
São tantas histórias que é difícil escolher uma. Temos atendidos que chegaram crianças e continuam conosco até hoje, agora adultos. Acompanhamos pessoas que não andavam e hoje caminham. Pessoas que tinham grandes dificuldades motoras e cognitivas e que, com os anos, conquistaram autonomia, desenvolveram habilidades, entraram no mercado de trabalho e construíram as próprias histórias. Elas cresceram conosco e também nos ajudaram a crescer. Por isso valorizamos a continuidade dos atendimentos, não só para estimular novas conquistas, mas também para preservar as habilidades já adquiridas e manter a qualidade de vida. O mais emocionante é olhar para um adulto e lembrar da criança que chegou até nós tantos anos atrás. É ver o orgulho das famílias, que caminham ao nosso lado há tanto tempo que já fazem parte da nossa história. Depois de 20 anos, a maior recompensa não está nos números, mas nas pessoas que vimos crescer.
A ABRAHIPE chega aos 20 anos com a mesma presidente do primeiro dia. O que a senhora quer ver construído nos próximos 20, e quem vai seguir com esse trabalho?
Quando olho para esses 20 anos, vejo uma parte da minha vida, construída com dedicação, dificuldades, conquistas e, principalmente, com pessoas que acreditaram nesse sonho comigo. Para os próximos 20, meu maior desejo é ampliar o atendimento, fortalecer a estrutura e continuar oferecendo serviços gratuitos e de qualidade, sem perder a nossa essência: o acolhimento, o respeito às diferenças e o olhar individual para cada pessoa. Quanto ao futuro da instituição, acredito que o maior legado que posso deixar não é uma estrutura física nem um número de atendimentos, mas uma equipe que compreenda, valorize e leve adiante a nossa missão. Temos profissionais que conhecem as famílias e compartilham os nossos valores. Mais do que preparar uma única pessoa, quero fortalecer uma equipe capaz de manter esse propósito vivo pelas próximas gerações. A ABRAHIPE nasceu de um sonho meu, mas há muito tempo deixou de ser só meu.
Nota do editor
No site da ABRAHIPE, um mapa reúne mais de 3 mil pontos, um para cada pessoa com deficiência atendida desde 2006. Cerca de 250 aparecem em vermelho: são os que seguem em atendimento hoje, de segunda a sexta, das 7h às 17h. Alguns desses pontos vermelhos chegaram crianças, quando o terreno ainda não tinha água nem luz, e continuam lá, agora adultos. Em 15 de novembro, o mapa completa 20 anos.
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