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Escrito por Neo Mondo | 7 de novembro de 2026
WWF-Brasil cobra da COP31 proteção para comunidades costeiras como esta, onde o mar já avança sobre casas, barcos e o caminho de quem vive da pesca - Imagem gerada por IA - Ilustrativa/Neo Mondo
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MOMDO
Às vésperas da conferência de Antália, a organização pede cortes de emissão mais rápidos, proteção às comunidades expostas e dinheiro que chegue a quem precisa. O guia põe o oceano no centro da agenda
O WWF-Brasil lançou o Guia da COP31, um documento de nove páginas que explica em 12 perguntas o que estará em jogo na conferência do clima da ONU. A COP31 acontece em Antália, na Turquia, de segunda-feira (9) até 20 de novembro. Junto com o guia, o WWF e o WWF-Brasil divulgaram nesta sexta-feira (6) o posicionamento da organização para a conferência. Os dois documentos dizem a mesma coisa: os governos precisam provar que a ação climática saiu da fase de negociação e entrou na fase de entrega. Para isso, o WWF cobra cortes de emissão mais rápidos, proteção para as comunidades que já vivem os efeitos do aquecimento e financiamento que chegue a quem mais precisa.
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O guia parte de uma leitura do momento. Segundo o texto, o regime climático global entrou em plena fase de implementação, menos preocupado em negociar novas estruturas e mais em pôr em prática o que já foi acordado. Os números da ONU mostram a distância. O PNUMA publicou em 21 de outubro o Relatório sobre a Lacuna de Emissões 2026, com o título “O Ponto de Retorno”. O relatório projeta aquecimento de 2,8 °C neste século se as políticas atuais continuarem. Mesmo com todas as metas nacionais (NDCs) cumpridas, o termômetro chegaria a 2,6 °C. As NDCs entregues até agora cortam entre 5% e 8% das emissões até 2030, em relação a 2025. O corte necessário seria de 18%. As projeções pioraram em relação ao ano passado, segundo o PNUMA, por causa da saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris e da revisão das emissões históricas.
O WWF não trata o limite de 1,5 °C como intacto. O posicionamento admite que o planeta deve ultrapassá-lo temporariamente e desloca a disputa para outra pergunta: por quanto tempo e quão acima. Pelo cálculo do PNUMA, cada cinco anos de emissões no nível atual empurram o pico de aquecimento cerca de 0,1 °C para cima. O guia aposta na Missão Belém para 1,5 °C, coordenada pelas presidências da COP30 e da COP31. A missão deve publicar às vésperas da conferência um relatório com os gargalos, as necessidades de investimento e as intervenções capazes de destravar as metas nacionais. O WWF-Brasil espera que Antália marque a passagem do diagnóstico para projetos com dinheiro e prazo.
Na mitigação, a conta passa pelos combustíveis fósseis e pelo desmatamento. A COP30, realizada em Belém em novembro de 2025, terminou sem nenhuma menção ao abandono dos fósseis no texto final. A presidência brasileira saiu da conferência com dois roteiros voluntários. Um trata da transição para o abandono dos fósseis e o outro de interromper e reverter o desmatamento até 2030. Em consulta pública, os roteiros receberam 444 contribuições, 267 sobre fósseis e 177 sobre florestas. O guia afirma que o WWF-Brasil apoia fortemente os dois roteiros e quer os resultados refletidos nos textos de decisão. Para as florestas, pede foco em cadeias de suprimento livres de desmatamento e conversão. Alexandre Prado, líder de mudanças climáticas do WWF-Brasil, quer que os documentos virem regra. “Os mapas do caminho para essas duas agendas precisam sair do campo das intenções e se transformar em políticas, investimentos e compromissos verificáveis”, afirma.
Os anfitriões não facilitam o pedido. Murat Kurum, ministro turco do Meio Ambiente e presidente da COP31, disse à Bloomberg em abril que a meta é emissão zero. E completou: “Se for possível chegar lá com combustíveis fósseis, por que não?” Segundo a AFP, a NDC da Turquia não prevê queda das emissões até 2035, apenas um crescimento mais lento. Do lado australiano, Chris Bowen, que conduz as negociações, disse ao Guardian em janeiro que pretende conversar diretamente com produtores como a Arábia Saudita. Uma carta assinada por 94 organizações pediu aos dois que comecem pela própria casa. Austrália e Turquia dependem do carvão para gerar energia, e nenhuma das duas tem plano nacional de saída dos fósseis.
O dinheiro é o ponto em que a conferência tende a emperrar. O guia cobra financiamento público novo, adicional e previsível dos países desenvolvidos, nos termos do Artigo 9 do Acordo de Paris. Pede também que os recursos cheguem diretamente a povos indígenas e comunidades locais. “Não podemos continuar tratando o financiamento climático como uma promessa que se renova a cada conferência”, diz Tatiana Oliveira, líder da estratégia internacional do WWF-Brasil. A meta acordada em Baku, na COP29, prevê US$ 300 bilhões por ano até 2035. O roteiro de Baku a Belém mira US$ 1,3 trilhão anual no mesmo prazo, e o guia espera que Antália apresente a primeira atualização desse roteiro com avanços mensuráveis. Pelas contas da OCDE, os países ricos repassaram US$ 136,7 bilhões aos países em desenvolvimento em 2024.
Na adaptação, a distância é ainda maior. O guia pede uma trajetória confiável para triplicar o financiamento para adaptação até 2035, com metas intermediárias para 2030. O documento cita uma lacuna de US$ 194 bilhões a US$ 366 bilhões por ano, mas essa estimativa do PNUMA já foi revista para cima. O Relatório sobre a Lacuna de Adaptação 2025 calcula que os países em desenvolvimento vão precisar de mais de US$ 310 bilhões por ano até 2035. O financiamento público internacional para adaptação, por sua vez, caiu de US$ 28 bilhões em 2022 para US$ 26 bilhões em 2023. Flávia Martinelli, especialista em mudanças climáticas do WWF-Brasil, quer que Antália defina a força-tarefa que vai cuidar dos mais de 50 indicadores de adaptação aprovados em Belém. “Quem está na linha de frente da crise climática não pode continuar na linha de trás das decisões”, afirma.
O oceano ocupa mais espaço no guia do que qualquer outro tema. Ele absorve cerca de um quarto das emissões de CO₂ e mais de 90% do calor extra retido pelo aquecimento, mas nunca teve presença institucional própria na agenda da Convenção do Clima. O WWF-Brasil não pede um item novo. Quer que a decisão de capa reconheça o papel do oceano e a necessidade de proteger os sumidouros marinhos de carbono. Quer também que ele entre no segundo Balanço Global, que começa em Antália e avalia o período de 2024 a 2028, e que o financiamento para as comunidades costeiras se torne rastreável. O guia aponta o Blue NDC Challenge, coliderado por Brasil e França, como caminho para acelerar as ações oceânicas que já constam nos planos nacionais. Pede ainda que o roteiro dos fósseis trate do fim da expansão de petróleo e gás offshore, tema que o documento considera pouco presente no debate. “Não existe solução climática completa sem o oceano”, diz Marina Corrêa, especialista em oceanos do WWF-Brasil.
A divisão do comando também é inédita, e o guia registra que esta é a primeira presidência compartilhada entre dois países. A Turquia preside a COP e cuida da Agenda de Ação. A Austrália conduz as negociações. Segundo a Carbon Pulse, Simon Stiell, secretário-executivo da Convenção do Clima, já avisou que não espera grandes resultados negociados em Antália. O WWF aposta justamente no que acontece fora da mesa. Mine Doğan, do WWF-Turquia, cobra que Ancara alinhe suas políticas nacionais a 1,5 °C para ganhar credibilidade. Dermot O’Gorman, CEO do WWF-Austrália, pede que as nações do Pacífico fiquem no centro das decisões. Manuel Pulgar-Vidal, líder global de Clima e Energia do WWF e presidente da COP20, foi direto: “Já temos as soluções. O que falta é coragem política.”
O Brasil chega à Turquia com programação própria. Segundo o guia, o Pavilhão do Brasil na Zona Azul selecionou 114 propostas para apresentar experiências, políticas públicas e soluções climáticas. O WWF-Brasil terá em Antália os cinco porta-vozes ouvidos nesta matéria, para as agendas de mitigação, financiamento, adaptação, oceanos e povos tradicionais. Na pré-COP, realizada em outubro em Fiji e Tuvalu, o Pacífico pôs o financiamento e o oceano no topo de suas prioridades. Segundo a UNFCCC, os países da região receberam mais de US$ 16 bilhões em compromissos de financiamento climático desde o Acordo de Paris. Mais de US$ 5 bilhões ainda não foram desembolsados.
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