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Plano Quinquenal: o recado chinês não é só sobre volume

Escrito por Neo Mondo | 6 de novembro de 2026

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Plano chinês aposta em sementes próprias para ampliar a produção doméstica de soja e reduzir as importações até 2030 - Foto: Divulgação

Por - Aline Locks, especial para o Neo Mondo

O que o Brasil pode aprender com o plano do seu maior cliente para aumentar a produção interna e reduzir a dependência de commodities agrícolas importadas

Quando o Conselho de Estado chinês publicou, em junho passado, o documento que detalha a política agrícola do 15º Plano Quinquenal (2026-2030), a leitura imediata do mercado foi de aritmética.

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No documento, a China indica que pretende elevar sua capacidade de produção de grãos de 695 milhões para 725 milhões de toneladas até 2030, um acréscimo de 30 milhões de toneladas. O volume final equivale a mais que o dobro da produção brasileira de grãos, como resumiu Marcos Jank, coordenador do Núcleo Insper Agro Global, em análise publicada pela Folha de S.Paulo.

O número impressiona e preocupa um país que tem nos grãos vendidos à China um dos principais itens de sua pauta exportadora. Mas fixar o olhar apenas no volume é perder o recado principal.

Lido com atenção, o plano revela uma intenção que vai muito além de produzir mais alimentos. Pequim decidiu reduzir vulnerabilidades e construir uma agricultura mais eficiente, mais tecnológica e mais resiliente.

A segurança antes do volume

É essa lógica, a da qualidade do planejamento e não a da quantidade produzida, que merece a reflexão do agro brasileiro.

A aprovação do plano pela Assembleia Popular Nacional, em março, e a tradução operacional feita pelo Ministério da Agricultura chinês em junho deixam claro o enquadramento: a segurança alimentar foi elevada à mesma categoria estratégica da segurança energética e da financeira.

A estratégia integra a doutrina que Pequim chama de “Alimentação Expandida”: produzir proteína e calorias por todas as vias possíveis, da lavoura ao laboratório. Um dos objetivos declarados é reverter um déficit comercial agrícola de US$ 124,5 bilhões, segundo levantamento da Folha.

O ponto de partida é um reconhecimento: a autossuficiência absoluta é impossível. O país tem apenas 8% das terras aráveis do mundo para 15% da população.

O que Pequim busca, então, não é se fechar, mas construir o que o próprio documento chama de “dependência segura”: diversificar fornecedores, substituir o que é substituível e reduzir a exposição a qualquer parceiro único.

Um relatório do Serviço Agrícola Exterior do USDA faz uma leitura direta do plano. O documento o descreve como a passagem de um “período de transição” para uma fase de modernização sistêmica, com a ambição declarada de transformar a China em potência agrícola até 2035 e a meta explícita de diversificar importações e formar empresas domésticas competitivas no mercado internacional.

Produzir mais, portanto, é o efeito. Produzir com menos risco é a causa.

Semente, o novo semicondutor

Pequim trata a agricultura com a mesma seriedade estratégica que dedica aos semicondutores. E o ponto de partida é a tecnologia de sementes.

As metas vêm com números. O país pretende elevar a autossuficiência em recursos genéticos centrais de 81% para 85% até 2030, com investimentos em edição gênica, biomanufatura e variedades geneticamente modificadas locais de milho e soja já aprovadas para comercialização. A projeção é de ganhos de rendimento por hectare entre 6% e 13%.

Para quem acompanha o mercado, o significado é evidente. A China está desenvolvendo, com tecnologia própria, sementes mais adaptadas à produção doméstica de commodities como a soja, justamente o produto do qual o Brasil é o maior fornecedor mundial.

Em entrevista recente, depois de uma de suas muitas viagens à China nos últimos anos, o ex-chefe da Embrapa Soja, Alexandre Nepomuceno, considerou o plano factível graças aos investimentos maciços em ciência e tecnologia.

Segundo ele, os aportes chineses chegam a 2,8% do PIB, enquanto o Brasil investe 1,2%. Hoje, a China é o país que mais publica estudos e artigos na área de genética.

“Até dez anos atrás, se fizesse uma busca no Google Scholar, de cada 10 artigos, 7 eram de autores americanos, europeus, um ou outro chinês. Agora, se fizer esse exercício buscando só CRISPR, por exemplo, que é a tecnologia mais recente de edição gênica, de cada 10 artigos, muito provavelmente 8 serão chineses.”

De acordo com Nepomuceno, a China já superou os Estados Unidos em número de pedidos de patentes na área de genética.

O plano de cultivo divulgado em setembro pelo Ministério da Agricultura chinês prevê consolidar a capacidade de produção de soja, oleaginosas, algodão e cana-de-açúcar, mantendo o “piso de autossuficiência básica em grãos e segurança absoluta em alimentos básicos”.

Se essa engenharia genética doméstica avançar no ritmo planejado, parte da demanda que hoje sustenta o superávit agrícola brasileiro pode simplesmente deixar de existir. Não por decisão comercial, mas por decisão tecnológica.

A projeção central citada pela Folha dá a dimensão do risco: a demanda chinesa por soja importada pode cair 25% até 2030, um corte de 23,5 milhões de toneladas, quase um terço de tudo o que o Brasil exportou para a China em 2024.

Em outra frente, o país tem estimulado a reformulação das rações animais, para reduzir a participação do farelo de soja de 14,5% para menos de 10% até 2030. A maior produtora de suínos do mundo, a Muyuan Foods, já opera com apenas 5,7% de inclusão e economiza 31 kg de grãos por animal.

No longo prazo, o país projeta tornar-se exportador líquido de aves, laticínios, ovos e produtos aquáticos até 2040. Ou seja, o comprador de hoje quer ser o concorrente de amanhã.

O que o Brasil pode, e deve, controlar

O Centro Agrícola Sino-Alemão (DCZ) detalhou o plano em uma tabela que deveria ser leitura obrigatória em Brasília e nas principais fazendas do país: contribuição da ciência e da tecnologia para a agricultura subindo de 64% para 67%; mecanização das principais culturas passando de 76,7% para mais de 80%; frota de mais de 350 mil drones agrícolas; tratores de alta potência, acima de 400 cv; índice de desenvolvimento agrícola verde de 79,5 para 83.

O documento cabe em uma frase: a prioridade não é mais simplesmente “produzir mais”, mas “produzir mais com melhor terra, melhores sementes, melhores máquinas, melhor controle de doenças e logística mais forte”.

É esse o recado. Diante das incertezas climáticas e comerciais, produzir muito continuará sendo importante. Mas produzir bem, de forma consistente e com riscos controlados, poderá fazer toda a diferença entre manter e perder posição no mercado global.

Aqui está a parte que não deve gerar pânico, mas decisão. Nós não controlamos as prioridades dos compradores internacionais. A China pode decidir substituir o farelo de soja por proteínas alternativas, pode aprovar variedades transgênicas locais, pode exigir, amanhã, rastreabilidade total e produtos livres de desmatamento, alinhando-se aos padrões europeus, como aponta a análise da Systemiq sobre a estratégia alimentar chinesa.

Nenhuma entidade, nenhum ministério e nenhum plano nacional brasileiro impede que um comprador redefina suas prioridades. O que podemos controlar é o outro lado da equação: a eficiência, a resiliência e a confiabilidade da nossa produção.

É aí que o planejamento chinês oferece uma referência para pensarmos a segurança produtiva brasileira. A China planeja melhoria de solos, irrigação, mecanização e crédito direcionado. O Brasil, que já é líder mundial em produtividade tropical, tem pela frente a tarefa de transformar essa vantagem natural em vantagem sistêmica, com solo saudável, gestão hídrica, manejo integrado, dados e rastreabilidade.

Assim, a aposta em sistemas mais resilientes deixa de ser pauta de marketing e passa a ser política econômica. Práticas de agricultura regenerativa, como rotação de culturas, cobertura do solo, integração lavoura-pecuária-floresta e manejo do carbono, tornam-se um seguro contra a variabilidade climática e uma credencial diante de mercados que passam a exigir comprovação, não declaração.

O caminho existe e já começou a ser trilhado, mas talvez sem o sentido estratégico que merece. Um relatório da FAIRR observa que, na agricultura regenerativa, “apenas práticas e hectares já não bastam”. Daqui para a frente, o que vale é resultado mensurável.

A pergunta que fica

O 15º Plano Quinquenal chinês não é um ultimato ao Brasil. É, sim, um espelho. Ele mostra o que significa tratar a agricultura como segurança nacional, com metas quantificadas, tecnologia como motor, risco como variável de gestão e resiliência como investimento de Estado.

O Brasil tem terra, clima, ciência e um setor produtivo que se reinventa a cada safra. O que talvez nos falte é justamente o que o plano chinês tem de sobra: senso de urgência.

Fica, então, a reflexão que deveria pautar o debate no agro brasileiro nos próximos cinco anos: estamos apenas nos preparando para atender à demanda mundial ou estamos construindo uma agricultura capaz de continuar competitiva diante das transformações globais?

A resposta não estará apenas nos volumes que produziremos em 2030. Estará também na qualidade, na consistência e na confiabilidade com que os produzirmos.

*Aline Locks - Engenheira ambiental, cofundadora e CEO da Produzindo Certo, empresa que já apoiou a gestão de mais de 9 milhões de hectares no país. Liderou o projeto “Conectar para Transformar”, um dos vencedores do Google Impact Challenge Brazil. Foi listada pela Época Negócios entre os nomes inovadores pelo clima, pela Forbes entre as 100 Mulheres Poderosas e pela Dinheiro Rural entre as líderes do agronegócio de 2021/2022.

foto de aline locks, autora do artigo Plano Quinquenal: o recado chinês não é só sobre volume
Aline Locks - Foto: Divulgação

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