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Escrito por Neo Mondo | 27 de julho de 2026
Manguezais onde a terra encontra o mar: berçários naturais da biodiversidade costeira, esses ecossistemas filtram a água, protegem o litoral contra eventos extremos e armazenam grandes quantidades de carbono, tornando-se aliados silenciosos no enfrentamento das mudanças climáticas - Foto: Ilustrativa/Freepik
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO
Hayhow Daniel Nanoto morreu em um protesto. Ativista equatoriano, integrava os movimentos comunitários que tentavam impedir a destruição dos manguezais de Muisne, no litoral do Equador, engolidos pela expansão da criação de camarão. Sua morte deu à data. Desde 2015, quando a UNESCO instituiu o Dia Mundial de Proteção aos Manguezais, o 26 de julho carrega o nome de um homem que foi assassinado defendendo uma floresta que a maioria das pessoas nunca pisou.
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A UNESCO escolheu bem o símbolo. Os manguezais desaparecem mais rápido que quase qualquer outro tipo de floresta no planeta, e ainda assim ocupam menos de 0,3% da área costeira global. É uma faixa estreita, salgada, lamacenta, onde a água doce dos rios encontra a maré. Ali, num terreno que não é terra firme nem mar aberto, se concentra uma das maiores densidades de carbono de qualquer floresta tropical.
Em maio de 2024, a União Internacional para a Conservação da Natureza publicou a primeira avaliação global de um grupo funcional de ecossistemas inteiro, feita com o padrão da Lista Vermelha de Ecossistemas. O veredito foi divulgado no Dia Internacional da Biodiversidade e mobilizou mais de 250 especialistas de 44 países. Metade dos manguezais do mundo corre risco de colapso. Quase 20% estão em risco alto, classificados como Em Perigo ou Criticamente Em Perigo. A mudança do clima ameaça sozinha um terço deles.
Os números que a IUCN colocou ao lado desse diagnóstico ajudam a entender o tamanho da perda. Sem esforços adicionais de conservação, até 2050 cerca de 7.065 km² a mais de manguezais serão perdidos e 23.672 km² ficarão submersos pela elevação do nível do mar. Junto some 1,8 bilhão de toneladas de carbono liberadas — 16% de todo o carbono hoje estocado nesses ecossistemas —, um custo social estimado em 336 bilhões de dólares. Some ainda a proteção de 2,1 milhões de pessoas expostas a enchentes costeiras. O manguezal é uma barreira. Quando ele cai, a água chega mais longe.
A comparação com outras florestas é o que torna o dado difícil de ignorar. Globalmente, os manguezais armazenam entre 4,4 e 11,7 petagramas de carbono, quase tudo abaixo do solo, e enterram cerca de 26 teragramas por ano em sedimento de decomposição lenta. É a chamada dinâmica do carbono azul: matéria orgânica que se acumula no lodo encharcado, sem oxigênio, e ali permanece por séculos. Um estudo publicado na IOPscience em 2024 mostrou que, nas últimas duas décadas, os estoques globais de carbono do mangue caíram 158,4 milhões de toneladas por conta de mudanças na cobertura do solo. Quando o mangue é cortado ou aterrado, o carbono guardado no sedimento oxida e volta para a atmosfera como CO₂.
O Brasil está no centro dessa conta. Tem a segunda maior área de manguezais do planeta, atrás apenas da Indonésia, e abriga o maior trecho contínuo do mundo — o cinturão da costa amazônica, entre Amapá, Pará e Maranhão. Em março de 2026, o Ibama e o Ministério do Meio Ambiente atualizaram o Mapeamento dos Manguezais Brasileiros, feito com imagens do satélite Sentinel-2. O levantamento identificou 1.229.644 hectares distribuídos em 11.142 fragmentos ao longo da costa. O Maranhão sozinho concentra mais de 512 mil hectares. Amapá, Pará e Maranhão reúnem cerca de 78% da cobertura nacional. Do total, 82% estão dentro de Unidades de Conservação.
A proteção legal existe, mas convive com a perda. O ICMBio registra 120 unidades de conservação com manguezais em seu interior, cobrindo 1,2 milhão de hectares — 87% do ecossistema no país. Ainda assim, o Brasil já destruiu cerca de 25% de seus manguezais ao longo do último século. Urbanização, poluição por lixo e esgoto, uso irregular do solo. As pressões continuam. Em 2024, pesquisadores da Unicamp desenvolveram uma metodologia baseada em imagens de satélite para monitorar mangues afetados por derramamentos de petróleo, acompanhando à distância a recuperação de grandes áreas.
O ProManguezal, programa nacional de conservação e uso sustentável, prevê recuperar 17 mil hectares até 2030. É uma fração diante do que se perdeu. A avaliação da IUCN insiste num ponto técnico que costuma escapar do debate: manter o fluxo de sedimentos e deixar espaço para o mangue avançar terra adentro é o que permite ao ecossistema acompanhar a subida do mar. Onde a costa está cercada por estrada, cidade ou fazenda, o mangue não tem para onde recuar. Fica espremido entre o asfalto e a maré que sobe, e afunda.
Os manguezais de Muisne, que Nanoto defendeu, foram sendo convertidos década após década pela indústria do camarão que devastou grandes áreas de mangue na América Latina. Ele morreu tentando reverter isso. Uma década depois, a Lista Vermelha da IUCN colocou em números o que ele já sabia.
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