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Escrito por Neo Mondo | 12 de junho de 2026
Relato confiável não nasce no relatório. Nasce da capacidade de transformar dados dispersos em evidências verificáveis, auditáveis e úteis para a tomada de decisão - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Neo Mondo
Produzido pelo NM Studio em parceria com a Workiva Inc. e o Grupo Report


Sessenta por cento das companhias abertas brasileiras publicam relatórios de sustentabilidade. Menos de um terço tem seus dados verificados externamente. Essa lacuna tem nome: é a distância entre o que se declara e o que se pode comprovar
O número vem do *ESG Disclosure Yearbook Brasil 2024*, elaborado pela agência Bells & Bayes Rating Analytics a partir da análise de 191 empresas listadas no segmento Novo Mercado da B3 — o de governança mais exigente da bolsa brasileira. Das organizações que publicaram relatórios de sustentabilidade, apenas 29% tiveram seus dados auditados ou assegurados externamente. "Investidores consideram cada vez mais as informações ESG na alocação de capital. A falta de verificação externa pode permitir relatos imprecisos e greenwashing, especialmente com o aumento do escrutínio sobre este tipo de informação", afirmou Wesley Mendes, principal autor do anuário.
Dados confiáveis são o ponto de partida real para entender o que está em jogo para as companhias abertas no que tange às informações financeiras relacionadas à sustentabilidade. Com a Resolução CVM 244, publicada em maio de 2026, o reporte sob os padrões IFRS S1 e S2 não se tornou obrigatório para as companhias abertas: passou a seguir o modelo "pratique ou explique" — quem optar por não reportar deverá justificar publicamente essa decisão ao mercado, a partir de 2027. Para as companhias que optarem por reportar esses dados, porém, a régua qualitativa permanece alta: esses documentos devem ser objeto de asseguração razoável por auditor externo — uma exigência qualitativamente distinta da asseguração limitada praticada até então. Não se trata de mais uma coluna a preencher. Trata-se de submeter toda a cadeia de produção da informação — coleta, consolidação, validação e interpretação — ao mesmo escrutínio que governa as demonstrações financeiras.
É aqui que o desafio de infraestrutura se torna incontornável. O Brasil não carece de empresas dispostas a reportar. Carece de empresas capazes de reportar com rastreabilidade. Pesquisas acadêmicas recentes demonstram uma grande desconexão entre relatórios ESG e balanços financeiros, como se a sustentabilidade fosse algo não relacionado aos aspectos financeiros da empresa. Grande parte das informações divulgadas nesses relatórios não atende às necessidades do mercado de capitais, e há uma percepção disseminada de alto grau de greenwashing. O ISSB foi criado precisamente para corrigir essa distorção — e o Brasil foi o primeiro país do mundo a adotar oficialmente suas normas, posição que lhe rendeu reconhecimento da ONU e inclusão no relatório de perfis jurisdicionais da IFRS Foundation.
É nesse contexto — não como resposta a um mandato, mas como resposta a uma falha estrutural de mercado — que o Grupo Report e a Workiva Inc. (NYSE: WK) anunciam sua parceria no Brasil. O Grupo Report traz o conhecimento regulatório local, a metodologia de implementação e a capacidade consultiva em estratégia, relato, clima e educação corporativa. A Workiva entra com a plataforma global que integra dados, garante rastreabilidade e habilita a asseguração. Juntas, as empresas se propõem a cobrir o espaço entre a obrigação e a competência — entre o que a CVM exige e o que as organizações brasileiras conseguem, hoje, entregar.

Gilberto Longo, diretor de negócios da Report, localiza a disfunção com precisão cirúrgica: "Percebemos no mercado dificuldade de lidar com uma grande massa de informação, quantitativa e qualitativa, sobre os riscos relacionados ao clima. As empresas de capital aberto já têm, em sua maioria, a cultura de divulgar e relatar, mas ainda têm problemas na gestão da informação e na produção de insights a partir dos dados. Os indicadores existem, mas estão desagregados; servem à prestação de contas, mas ainda não servem para tomar decisões."
A frase captura algo que os comunicados institucionais raramente nomeiam com essa nitidez: o problema não é ausência de dados. É ausência de arquitetura. Dados desagregados são ruído com aparência de informação. E ruído auditado é, na melhor hipótese, ruído certificado.
João Souza, executivo de vendas da Workiva, entra no argumento por um ângulo diferente — e a tensão entre as duas perspectivas é produtiva. Para Souza, o problema central não é técnico. É estratégico: "Muitas empresas têm tratado o tema como uma questão regulatória, deixando passar uma oportunidade ímpar de alinhar as novas obrigatoriedades de reporte a uma visão de longo prazo. Reportar riscos e oportunidades relacionados à sustentabilidade tornou-se uma oportunidade para organizações líderes em seus setores, permitindo diferenciar empresas com processos robustos e maduros de governança sobre informações financeiras relacionadas à sustentabilidade."

A divergência entre os dois executivos não é superficial. Longo diagnostica uma falha de processo; Souza diagnostica uma falha de ambição. Um afirma que as empresas precisam de melhor infraestrutura para fazer o que já tentam fazer. O outro afirma que as empresas estão tentando fazer a coisa errada — ou, pelo menos, uma versão muito reduzida da coisa certa. O paradoxo é que ambos têm razão, e é justamente essa dupla dimensão — técnica e estratégica, operacional e decisória — que a parceria precisa endereçar simultaneamente.
Ao conectar sustentabilidade à geração de valor, as IFRS S1 e S2 não apenas ampliam a visão de riscos e oportunidades: consolidam a sustentabilidade como parte integrante da estratégia corporativa, da gestão de riscos e da governança financeira. O CFO precisa ser capaz de traduzir riscos físicos — como desastres naturais que afetam a cadeia de suprimentos — e riscos de transição — como novas regulações de carbono — em efeitos monetários diretos sobre fluxo de caixa, EBITDA e custo de capital. Isso pressupõe que a informação climática e a informação financeira habitem o mesmo sistema, obedeçam aos mesmos controles e respondam às mesmas exigências de verificação. É exatamente essa integração que plataformas como a Workiva foram desenhadas para viabilizar.
A pressão não vem apenas de Brasília. Há um alinhamento entre os padrões europeus ESRS e as normas IFRS S1 e S2, já que a CSRD considerou as discussões no âmbito do ISSB para promover interoperabilidade global. As companhias abertas que reportarem no padrão ISSB já estarão muito próximas da conformidade com as exigências da CSRD — o que significa que o relatório produzido para a CVM pode, com a infraestrutura correta, habilitar acesso a mercados e cadeias de suprimentos europeias que já exigem esse nível de transparência de seus fornecedores e parceiros. A CSRD afeta também as empresas brasileiras com operações ou clientes na União Europeia — e a diretiva exige que as organizações estabeleçam processos de due diligence e identifiquem e mitiguem riscos dentro de sua cadeia de suprimentos, o que inclui fornecedores brasileiros de multinacionais europeias.
Globalmente, mais de trinta jurisdições caminham em direção à adoção mandatória dos padrões IFRS de sustentabilidade, com aceleração esperada entre 2026 e 2027. A empresa brasileira que não construir essa infraestrutura para o mercado doméstico estará, na prática, se desqualificando progressivamente para operar em cadeias globais que já a exigem como pré-requisito de fornecimento.
O Grupo Report estruturou o que chama de Trilha IFRS — uma metodologia que inverte a lógica habitual de preparação para o reporte. Em vez de começar pelo relatório e retroagir para os dados, a trilha começa pela determinação da materialidade financeira, passa pelo diagnóstico de aderência e pela valoração de riscos e oportunidades, e só então chega à produção do documento final. Longo estima em três a quatro meses o ciclo necessário para essa fase estruturante, seguido de aproximadamente três meses adicionais para a elaboração de um primeiro relatório auditável — uma linha do tempo que, para quem começa agora, não é folgada.
Sobre a tecnologia que sustenta esse percurso, Souza desfaz uma suposição recorrente: a de que a adoção de plataformas de gestão de dados precisa aguardar a maturidade dos processos. "A implementação da Workiva pode acontecer em paralelo, sem prejudicar os prazos das fases iniciais do processo de reporte — diagnósticos, análises de lacunas — trazendo benefícios de colaboração e consistência dos dados já no primeiro ciclo de reporte." A plataforma, nessa leitura, não é o prêmio da maturidade: é parte do processo de maturação.
A Workiva foi classificada como provedora número um no ISG Buyers Guide™ 2025 para gestão de sustentabilidade, posição que se consolida em um mercado onde a proliferação de exigências simultâneas — IFRS, CSRD, CDP, índices de bolsa — cria demanda por sistemas que gerenciem múltiplos frameworks sem duplicar estruturas de coleta ou fragmentar a cadeia de responsabilidades. A plataforma é compatível nativamente com o IFRS S2, integrando as recomendações da TCFD e a estrutura setorial dos padrões SASB, e opera com integração direta ao CDP — permitindo que dados coletados uma vez respondam a múltiplos destinatários regulatórios.
Souza levanta, ainda, um ponto que dificilmente aparece nos comunicados sobre reporte ESG: a dimensão das mudanças climáticas como vetor de externalidades que nenhum relatório, por mais bem estruturado que seja, resolve sozinho. "Existe uma série de externalidades positivas e negativas que surgem com as mudanças climáticas e que devem ser trabalhadas no c-level para promover a adaptação necessária das companhias a esse novo contexto." A observação desloca o reporte do lugar onde costuma ser tratado — o departamento de sustentabilidade, a equipe de comunicação — e o instala onde ele de fato produz efeito: na agenda de risco do conselho, na modelagem financeira do CFO, na decisão de investimento do CEO.
Os relatórios de sustentabilidade sob os padrões ISSB estarão sujeitos a asseguração razoável — prática ainda pouco disseminada no mercado brasileiro, que requer aprimoramento significativo de políticas, controles internos e processos integrados. Para as empresas que chegam ao prazo de 2026 sem essa arquitetura construída, a equação não é mais apenas regulatória: é de credibilidade. O relatório produzido sem infraestrutura adequada não é apenas difícil de auditar. É, antes de ser auditado, difícil de confiar.
O que a parceria entre Report e Workiva endereça, em última análise, não é a distância entre dado bruto e relatório formatado. É a distância entre uma empresa que declara e uma que comprova. Entre uma que reporta para cumprir e uma que reporta para decidir. Nesse segundo caso, o relatório para a CVM deixa de ser o destino. Passa a ser, apenas, a evidência mais visível de um processo que, este sim, produz vantagem — junto a investidores, a mercados de capital internacionais e a cadeias de fornecimento que já escolhem seus parceiros com base na qualidade do que eles conseguem provar sobre si mesmos.
O Brasil já sabe o que precisa fazer. O problema é a velocidade