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O oceano como saída para a fome energética da inteligência artificial

Escrito por Neo Mondo | 15 de junho de 2026

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Oceano como infraestrutura: o protótipo Ocean-2 da Panthalassa em operação no Pacífico — dentro da esfera de aço, chips de IA resfriados pela água do mar processam dados enviados por satélite para clientes em terra - Foto: Divulgação

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

Quando o servidor é o mar: a startup que quer levar data centers para o alto-mar como alternativa aos servidores em órbita

Em algum ponto do Pacífico Norte, no segundo semestre de 2026, uma estrutura de aço com 85 metros de comprimento deverá começar a afundar devagar — não por acidente, mas por design. O aparato, desenvolvido pela startup americana Panthalassa, vai se posicionar verticalmente na coluna d'água, deixar a superfície oceânica trabalhar sobre sua geometria interna e, com a energia mecânica gerada pelo sobe e desce das ondas, alimentar chips de inteligência artificial resfriados pela própria água do mar. Os dados processados seguirão, via satélite de baixa órbita, para clientes em qualquer ponto do globo. Nenhum cabo, nenhuma subestação, nenhuma licença ambiental em terra. Apenas o oceano fazendo o que faz há bilhões de anos.

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A imagem é ao mesmo tempo sedutora e perturbadora. Sedutora porque responde a uma das pressões mais concretas do capitalismo digital contemporâneo: a equação entre demanda computacional e infraestrutura energética está quebrando em tempo real. Perturbadora porque o oceano, onde a startup quer instalar sua solução, não é um espaço vazio à espera de uso industrial. É o sistema de suporte de vida do planeta.

A Panthalassa, fundada em 2016 e cujo nome evoca o superoceno que cercava a Pangeia há trezentos milhões de anos, levantou até agora 210 milhões de dólares. A rodada Série B de 140 milhões, concluída em maio de 2026 e liderada por Peter Thiel, colocou a empresa no grupo seleto das startups de infraestrutura avaliadas em um bilhão de dólares. O round contou também com participação de John Doerr e do Time Ventures, o fundo de Marc Benioff. O dinheiro vai financiar a conclusão de uma unidade de manufatura perto de Portland, Oregon, e a implantação dos primeiros nós Ocean-3 no Pacífico. A equipe inclui ex-engenheiros da SpaceX e da Tesla.

O problema que a empresa pretende resolver é estrutural. A Agência Internacional de Energia (AIE) estima que o consumo elétrico global de data centers atingiu 415 terawatts-hora em 2024, cerca de 1,5% da eletricidade consumida no mundo, e deve quase triplicar até 2030, superando 945 terawatts-hora. A inteligência artificial é o motor dessa expansão. As grandes empresas de tecnologia devem investir coletivamente 765 bilhões de dólares em data centers de IA apenas em 2026. Esse crescimento vem com um custo hídrico igualmente vertiginoso: a AIE calculou que os data centers consumiram 560 bilhões de litros de água em 2023, volume que pode dobrar até o fim da década. Um único data center de grande escala pode consumir o equivalente à demanda diária de uma cidade de cinquenta mil habitantes.

O modelo da Panthalassa tenta cortar esse nó pelo oceano. Cada nó é uma estrutura tubular que sobe e desce com as ondas, forçando água a um reservatório pressurizado que aciona uma turbina. A eletricidade gerada alimenta os chips instalados dentro de um compartimento hermeticamente fechado, resfriado passivamente pela temperatura da água ao redor. A empresa projeta que cada nó possa gerar até um megawatt de potência. Agrupados em formações, os nós formariam um data center flutuante sem geração de carbono e sem dependência das redes elétricas costeiras. A comunicação com o continente se daria por satélites de órbita baixa.

A proposta não é inteiramente nova. A Microsoft testou servidores submersos no Mar da Escócia entre 2015 e 2018, no Projeto Natick, e relatou taxa de falhas menor do que em instalações terrestres comparáveis. O projeto foi encerrado em 2024. A China inaugurou recentemente o que descreve como o primeiro data center submarino comercial do mundo, com capacidade de 24 megawatts, instalado a dez metros abaixo da superfície, e promete redução de 20% no consumo energético frente a instalações equivalentes em terra. A NetworkOcean, startup californiana fundada em 2023, segue trajetória similar com foco em computação de borda.

O que distingue a Panthalassa do campo é a aposta em autogeração energética por ondas no alto-mar, longe da costa, em regiões de maior densidade de energia mecânica. A abordagem resolve dois dos maiores gargalos dos data centers terrestres ao mesmo tempo: energia e resfriamento. Garth Sheldon-Coulson, cofundador e CEO, afirmou publicamente que vê no oceano "a fonte de energia mais barata" disponível. A escala possível é de fato impressionante: a superfície oceânica é a maior área contínua do planeta, e a energia cinética de suas ondas é permanente, previsível e até aqui quase intocada pela indústria.

O que torna este momento singular é o contexto competitivo em que a Panthalassa emerge. Enquanto a startup aposta no oceano como plataforma de computação, Elon Musk foi na direção oposta: em janeiro de 2026, a SpaceX protocolou pedido na Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos para lançar até um milhão de satélites com data centers embarcados, alimentados por energia solar em órbita heliossincrônica. A startup Starcloud, apoiada pela Nvidia, captou 170 milhões de dólares a uma avaliação de 1,1 bilhão e já lançou o primeiro satélite com GPU de alta performance a bordo. Google tem o Projeto Suncatcher. Jeff Bezos prevê data centers orbitais em escala de gigawatts em dez anos.

Entre data centers no espaço e data centers no oceano, o que se disputa não é apenas um mercado de infraestrutura. É o modelo de como a humanidade vai pagar a conta energética da inteligência artificial, e quem vai estabelecer os termos dessa transação. A proposta orbital tem o apelo de uma fonte quase inesgotável de energia solar, livre de regulação territorial e afastada das resistências populares que acompanham qualquer grande instalação em terra. Tem também custos de lançamento proibitivos, latência de comunicação problemática para muitos casos de uso e a complexidade geopolítica de uma camada crítica de infraestrutura flutuando no espaço a uma velocidade de 28 mil quilômetros por hora.

A solução oceânica tem seus próprios limites, e seria impreciso ignorá-los sob o entusiasmo do financiamento recente. A velocidade de transmissão de dados via satélite permanece inferior à fibra ótica terrestre, o que restringe os casos de uso para modelos já treinados rodando inferências, não para o treinamento em si. Manutenção em alto-mar é cara, logisticamente complexa e limitada por condições meteorológicas. A história da energia das ondas como setor é, em grande medida, uma narrativa de promessas não cumpridas: startups finlandesas e americanas dedicadas à tecnologia faliram ou encerraram operações nos últimos anos, incluindo a AW-Energy e a AquaHarmonics, ambas encerradas em 2025.

E há a questão que o entusiasmo de Vale do Silício tende a obscurecer: o que acontece com o ecossistema marinho quando a infraestrutura computacional começa a se instalar no oceano em escala? Autoridades e pesquisadores já apontaram que a dissipação localizada de calor pelos sistemas de resfriamento pode alterar a temperatura da água em raio suficiente para favorecer a proliferação de algas tóxicas, perturbar cadeias alimentares e reduzir os níveis de oxigênio dissolvido, com efeitos sobre peixes, crustáceos e outras espécies. O professor Md Jahidul Islam, da Universidade da Flórida, autor de estudo sobre os riscos da infraestrutura submarina, observou que "as principais vantagens de um data center subaquático são o resfriamento gratuito e o isolamento de ambientes variáveis em terra" — mas reconhece que os riscos de escalonamento do sistema permanecem mal compreendidos.

A governança da questão é ainda mais nebulosa. Em janeiro de 2026, entrou em vigor o Acordo BBNJ, o tratado da ONU sobre biodiversidade marinha em áreas além das jurisdições nacionais. O acordo representa um marco regulatório para o uso do alto-mar, mas seus mecanismos de avaliação de impacto para instalações industriais de grande porte em águas internacionais ainda precisam ser operacionalizados. Instalações fora da zona econômica exclusiva de qualquer país operam, hoje, num vácuo regulatório que o direito internacional está apenas começando a preencher. A chegada de data centers a esse espaço, em escala comercial, vai testar a velocidade e a seriedade com que os Estados-membros levam a sério o que assinaram.

A narrativa que a Panthalassa vende aos investidores, e que a Forbes e outros veículos repercutiram com entusiasmo, é a de uma alternativa verde à crise energética da IA. Não há emissões, diz a empresa. Não há consumo de água potável. Não há concorrência com populações humanas pela terra ou pela eletricidade da rede. É tudo tecnicamente verdadeiro, e é insuficiente como avaliação. O oceano não é um espaço neutro. É o maior reservatório de carbono do planeta, o regulador primário do clima, o berço de mais da metade da produção global de oxigênio. Tratá-lo como plataforma de infraestrutura industrial sem governança robusta, avaliação de ciclo de vida e monitoramento ecológico rigoroso seria repetir, em escala oceânica, os erros que a expansão desenfreada de data centers terrestres cometeu com os recursos hídricos continentais.

O que há de genuinamente novo neste momento não é apenas a Panthalassa. É o reconhecimento crescente de que a indústria digital está diante de uma impossibilidade física. Não há rede elétrica terrestre que acompanhe a taxa de crescimento da demanda computacional da IA sem exigir sacrifícios inaceitáveis de carbono, água e soberania energética de nações inteiras. A saída para o espaço ou para o oceano não é ficção científica corporativa: é a admissão de que a expansão da inteligência artificial chegou ao limite das fronteiras convencionais da infraestrutura humana.

O oceano sempre foi um espelho do que a civilização está disposta a fazer em busca de recursos quando a terra já não é suficiente. A pesca industrial, a mineração de fundo oceânico, o descarte de CO₂ — cada uma dessas histórias começou com uma tecnologia promissora, um aporte de capital e a convicção de que o tamanho do oceano absorveria o que a terra não podia mais suportar. Algumas dessas apostas foram bem calibradas. Outras não.

A Panthalassa pode ser a empresa que finalmente faz a energia das ondas funcionar em escala. Pode ser a prova de que é possível instalar infraestrutura computacional no oceano com baixo custo ambiental. Pode, também, ser o primeiro capítulo de uma história que ainda não tem fim escrito. O oceano nunca foi indiferente ao que colocamos dentro dele. E os processos que movem suas ondas são os mesmos que regulam o clima do qual depende tudo o mais.

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