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Escrito por Neo Mondo | 15 de junho de 2026
Eliminar quem vê não torna invisível o que existe. Dom Phillips na Amazônia, o bioma que investigava quando foi assassinado no Vale do Javari, em junho de 2022 - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Neo Mondo
POR - LORENA NOGAROLI*, ESPECIALPARA NEO MONDO
Por muito tempo, acreditamos que os grandes problemas ambientais seriam enfrentados em laboratórios, conferências climáticas e gabinetes governamentais. A ciência produziria diagnósticos, os governos formulariam políticas e a sociedade, informada, tomaria decisões mais conscientes.
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Mas há um elo essencial nessa cadeia: o jornalismo. Sem profissionais capazes de investigar, verificar, contextualizar e traduzir temas complexos, a informação ambiental se fragmenta ou desaparece. E, quando isso acontece, abrem-se espaços para a desinformação, os interesses ocultos e a impunidade.
Por isso, os ataques ao jornalismo ambiental não podem ser tratados como um problema corporativo da imprensa. São uma ameaça ao direito coletivo de compreender os riscos que moldam o presente e o futuro.
Os números são alarmantes. Um relatório da Unesco mostra que, entre 2009 e 2023, pelo menos 749 jornalistas, grupos de jornalistas e veículos que cobriam temas ambientais sofreram ataques em 89 países. Nesse período, 44 jornalistas ambientais foram assassinados, mas apenas cinco casos resultaram em condenações. A impunidade supera 80%.
A situação vem se agravando. Entre 2019 e 2023, os ataques cresceram 42% em relação ao período anterior. A mensagem é clara: quem investiga desmatamento, mineração ilegal, grilagem, crimes ambientais ou corrupção ligada à exploração de recursos naturais enfrenta interesses dispostos a silenciá-lo.
Esse silenciamento raramente começa pela violência extrema. Ele costuma se manifestar por meio de processos judiciais abusivos, campanhas de difamação, assédio digital, intimidação de fontes, restrições de acesso a áreas de interesse público e ameaças a familiares. O objetivo é produzir medo.
E o medo censura sem precisar de censura formal. Quando um repórter deixa de investigar, uma fonte decide permanecer em silêncio ou uma redação evita determinado tema para escapar de represálias, a sociedade perde acesso a informações de interesse público.
O paradoxo é evidente: a pressão sobre jornalistas ambientais cresce justamente quando o mundo mais precisa de informação qualificada sobre mudanças climáticas, crises hídricas, perda de biodiversidade, conflitos territoriais e transição energética.
A Repórteres Sem Fronteiras identificou dez grandes obstáculos ao jornalismo ambiental, entre eles violência física, assédio judicial, censura digital, prisões arbitrárias, ameaças a fontes e ataques a redações. Em muitos casos, os profissionais cobrem os desastres de dentro — expostos às mesmas condições que documentam.
No Brasil, o assassinato de Dom Phillips, em 2022, tornou-se símbolo desse quadro. Sua morte expôs uma realidade desconfortável: investigar crimes ambientais frequentemente significa confrontar economias ilegais, redes criminosas e estruturas locais de poder. Dom Phillips foi morto porque buscava tornar visível aquilo que alguns preferiam manter oculto. Essa é a essência do problema.
As questões ambientais deixaram de ser apenas debates sobre conservação da natureza. Hoje envolvem bilhões de dólares, cadeias globais de produção, mineração, energia, infraestrutura, agronegócio e disputas geopolíticas. Onde há grandes interesses econômicos, há pressão sobre quem fiscaliza.
Por isso, proteger jornalistas ambientais não é uma pauta corporativa nem ideológica. É uma questão democrática. Sociedades incapazes de proteger quem produz informação dificilmente conseguirão proteger seus rios, florestas, recursos naturais ou comunidades vulneráveis.
Quando um jornalista é silenciado, não perde apenas um profissional. Perde a sociedade. E, diante de uma crise ambiental sem precedentes, eliminar o mensageiro não elimina o problema. Apenas nos impede de enxergá-lo.
*Lorena Nogaroli é fundadora da Central Press Brazil, head of PR da Central Press UK , Diretora Editorial e de Novos Negócios do Neo Mondo.

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