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O rio que a cidade enterrou voltou para cobrar a conta

Escrito por Neo Mondo | 28 de abril de 2026

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Rio Guaíba: Porto Alegre inundada depois de cheia histórica - Foto: Renan Mattos/Reuters

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

Em maio de 2024, o Rio Grande do Sul viveu aquilo que a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) classificou, no relatório As Enchentes no Rio Grande do Sul – Lições, Desafios e Caminhos para um Futuro Resiliente, publicado em 2025, como o maior desastre natural da história do estado. Choveu mais de trezentos milímetros em quatro dias em vários municípios gaúchos — o equivalente a dois meses de precipitação. O rio Guaíba transbordou cinquenta e nove centímetros acima do pico registrado em 1941. Cerca de 2,3 milhões de pessoas foram afetadas em 471 municípios. Ao menos 184 mortes foram confirmadas. O mesmo estudo da ANA projeta que eventos dessa magnitude podem se tornar cinco vezes mais frequentes nas próximas décadas, como efeito combinado das mudanças climáticas com o El Niño e padrões de urbanização que nunca foram desenhados para conviver com a água.

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A tragédia no Rio Grande do Sul não foi uma anomalia isolada. Foi a versão mais extrema de um padrão que se repete, em escalas distintas, em praticamente todas as grandes cidades brasileiras: Recife, Petrópolis, São Paulo, Belo Horizonte, Fortaleza. O que se estabelece como catástrofe climática é, em larga medida, a conta de décadas de uma opção deliberada de enterrar rios, selar solos com asfalto e concreto, e tratar o ciclo hidrológico como obstáculo ao progresso urbano. Essa conta começa a ser paga com precisão crescente — e a frequência dos avisos não dá sinais de recuo.

"A água não desaparece", afirma a paisagista urbana Cecília Herzog, consultora internacional em projetos de Soluções Baseadas na Natureza (SBN) e membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN). "Com a chuva, ela sempre vai correr para os pontos mais baixos e, em algum momento, pode inundar essas áreas, principalmente nas regiões mais planas ou de baixada." A frase tem a aparência de uma obviedade. Mas funciona como diagnóstico: o que o planejamento urbano brasileiro tratou por décadas como problema de engenharia hidráulica — desviar, canalizar, tampar — é, na raiz, um problema de relação entre cidade e natureza. E mudar essa relação exige ir além dos tubulões.

O conceito de Soluções Baseadas na Natureza — que propõe utilizar serviços ecossistêmicos para enfrentar pressões humanas — foi consolidado formalmente pelo Banco Mundial e pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) a partir do final dos anos 2000. Mas o Brasil tem exemplos anteriores que, sem usar o rótulo, anteciparam a lógica. Um dos mais citados é o Parque Barigui, em Curitiba: inaugurado em 1972, durante a gestão do então prefeito Jaime Lerner, em uma área de várzea constantemente inundada pelo rio que dá nome ao parque, o espaço de 140 hectares foi concebido simultaneamente como equipamento de drenagem e de lazer. A represa construída sobre o Barigui não apenas formou o lago que se tornou cartão-postal da cidade — ela passou a funcionar como bacia de contenção das cheias que antes se espalhavam pela malha urbana.

O modelo curitibano foi expandido ao longo das décadas seguintes: parques lineares ao longo de rios, criados a partir de 2003, e novos parques alagáveis, como o Bacacheri e o Atuba, reforçam uma rede de contenção que atravessa as principais bacias hidrográficas da cidade. Pesquisas desenvolvidas pelo Movimento Viva Água, na Bacia do Rio Miringuava, na Grande Curitiba, documentaram uma diferença expressiva entre áreas degradadas e áreas florestadas: sem cobertura de vegetação nativa, a disponibilidade hídrica pode cair até 52% nos períodos de seca; onde a floresta persiste, a redução varia entre 6% e 11%. A vegetação, em outras palavras, não apenas absorve a água do excesso — ela a guarda para a escassez.

Há, porém, um limite nessa narrativa de sucesso. O pesquisador Eloy Casagrande, doutor em engenharia de recursos minerais e meio ambiente pela Universidade de Nottingham, alertou, após as enchentes gaúchas de 2024, que os parques curitibanos foram projetados com base em dados pluviométricos de vinte anos atrás. O volume e a intensidade das chuvas mudaram. As projeções do Plano de Avaliação de Riscos Climáticos de Curitiba, publicado em 2020 pela prefeitura, indicam que regiões próximas dos rios Barigui, Iguaçu e Belém poderão sofrer enchentes significativamente maiores que as atuais até o fim do século. Até 2099, as temperaturas máximas da capital paranaense poderão ultrapassar os quarenta graus Celsius. A infraestrutura verde pioneira de Curitiba precisa, ela mesma, ser revisada à luz de um clima que já não obedece às médias históricas.

Da mesma geração do Barigui é o Parque Portugal, na Lagoa do Taquaral, em Campinas. O lago artificial que define o parque funciona como grande bacia de retenção, absorvendo o excesso de água pluvial e atenuando as cheias na cidade. Campinas foi além: possui um plano diretor que contempla especificamente a ampliação de infraestruturas baseadas na natureza, com projetos de parques lineares ao longo de rios destinados também a reduzir a vulnerabilidade de áreas socialmente expostas. O vínculo entre adaptação climática e equidade territorial começa a ser reconhecido como estrutural — não como adição marginal aos projetos de drenagem.

São Paulo, metrópole que ao longo do século XX canalizou e enterrou centenas de rios e córregos sob o argumento do desenvolvimento, oferece o caso mais simbólico da virada em curso. O córrego do Bixiga — que corre sob uma das regiões mais densas e historicamente disputadas da cidade — deverá ter parte de seu curso reaberta no futuro Parque Municipal do Bixiga, espaço com pouco mais de um hectare aprovado pela Câmara Municipal em 2024 após mais de quarenta anos de embate entre movimentos sociais ligados ao Teatro Oficina e proprietários privados que pretendiam construir um condomínio no terreno. Em janeiro de 2025, a prefeitura lançou concurso público nacional para o projeto do parque, com resultado esperado para maio do mesmo ano. A renaturalização do córrego, a preservação das nascentes e a criação de espaços públicos de convivência compõem um programa que conecta restauração ecológica, memória urbana e direito à cidade.

"Se isso é possível em um lugar tão urbanizado quanto o centro de São Paulo, acredito que também seja possível em muitos outros locais do país", afirma Cecília Herzog. A frase ressoa como argumento contra o determinismo do concreto: a escala da intervenção, por menor que seja, pode romper a lógica da impermeabilização e reintroduzir funções ecológicas que a cidade suprimiu. O córrego do Bixiga — que corria livre antes de ser enterrado no início do século XX — pode voltar a infiltrar água no solo, a retardar o escoamento, a regular a temperatura do ar ao redor. Não como peça decorativa, mas como infraestrutura funcional.

Juliana Baladelli Ribeiro, gerente de projetos da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, enquadra a renaturalização em um sistema mais amplo de requalificação da paisagem urbana. Telhados verdes, jardins de chuva, valetas vegetadas, bacias de retenção, arborização de ruas — cada elemento retém temporariamente a água, favorece sua infiltração ou estimula a evapotranspiração pelas plantas. Em conjunto, reduzem os picos de vazão que sobrecarregam os sistemas de drenagem e atenuam as ilhas de calor que tornam as cidades progressivamente inabitáveis nas ondas de temperatura extrema. "Será necessário compor um sistema de requalificação da paisagem urbana", resume Juliana. "A ideia é devolver à cidade áreas com solo vivo e vegetação nativa, capazes de desempenhar funções ecológicas importantes que hoje estão prejudicadas."

A publicação Cidades do Futuro – As Soluções Baseadas na Natureza ajudando a enfrentar a emergência climática, lançada pela Fundação Grupo Boticário em 2024, mapeia quinze tipologias de SBN em uso no Brasil e no mundo — de parques lineares a alagados construídos para tratamento de efluentes, de biovaletas a parques de bolso. O documento é tanto inventário quanto argumento: as soluções existem, foram testadas, funcionam. O que falta, na maioria dos municípios brasileiros, não é a tecnologia. É a decisão política de reorganizar o espaço urbano a partir de outra gramática — a da água como parceira do tecido urbano, não como adversária a ser contida.

O relatório da ANA sobre o Rio Grande do Sul é explícito nesse ponto: 35% a 40% dos afetados na região metropolitana de Porto Alegre viviam em áreas com sistemas de proteção inadequados. A tragédia não atingiu a todos com a mesma força. As enchentes tendem a se concentrar exatamente onde a ausência de infraestrutura verde coincide com a maior vulnerabilidade socioeconômica — as várzeas ocupadas pela pobreza, os fundos de vale sem parques, os córregos que nunca foram renaturalizados porque o custo político de fazê-lo nunca pareceu suficientemente rentável.

"A adaptação às mudanças climáticas é sempre um desafio local, que precisa ser enfrentado em cada território", observa Cecília Herzog. A frase aponta para a contradição que organiza esse debate no Brasil: as soluções precisam ser construídas município a município, mas a aceleração das mudanças climáticas opera em escala planetária e em ritmo que não aguarda o tempo lento das decisões municipais. O que os exemplos de Curitiba, Campinas e São Paulo demonstram é que a renaturalização não é romantismo ecológico nem nostalgia de cidade do interior. É, antes de tudo, engenharia — mais sofisticada, mais eficiente e mais duradoura do que o concreto com que o século XX tentou conter o inevitável.

Depois que o rio Guaíba desceu, em Porto Alegre, restaram a lama, os móveis empilhados nas calçadas e a pergunta que o relatório da ANA formulou de maneira direta: o que se vai reconstruir no mesmo lugar, da mesma forma, para que a próxima enchente — mais intensa, mais provável — encontre tudo exatamente onde deixou? A resposta a essa pergunta não será encontrada nos manuais de hidráulica convencional. Ela está nos rios que ainda não foram enterrados — e nos que já foram e que, cada vez mais, reclamam seu leito de volta.

Para saber mais:

O e-book “Cidades do Futuro - As Soluções Baseadas na Natureza ajudando a enfrentar a emergência climática” apresenta 15 tipologias de SBN mais usadas no Brasil, com exemplos de projetos já implementados e casos de sucesso em diferentes regiões do país e do mundo.

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