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Escrito por Neo Mondo | 22 de março de 2026
Foto: Ilustrativa/Divulgação
Por - Leonardo Goés Silva*, Ana carolina Argolo*, Cristiane Collet Battiston* e Larissa Oliveira Rêgo*
A crise hídrica e a falta de saneamento no Brasil não afetam a todos da mesma forma. Ambas têm cor, endereço e, sobretudo, gênero
O estudo mais recente da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), no acompanhamento do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 6 (ODS 6) da ONU, mostra que o país avançou, mas ainda convive com desigualdades profundas no acesso à água e ao saneamento.
Para o Dia Mundial da Água de 2026, a ONU propôs olhar para essa realidade com mais atenção e elegeu o tema “Água e Gênero”. O propósito é resumido pelo mote da campanha: “Onde a água flui, a equidade floresce”. Em outras palavras, garantir acesso à água potável e ao saneamento básico não é apenas uma questão de infraestrutura, mas de justiça social.

Esse desafio está no centro da Agenda 2030 da ONU, que reúne compromissos globais para o desenvolvimento sustentável. Um deles, o ODS 6, trata de assegurar água potável e saneamento para todos, com qualidade, segurança e de forma sustentável.
O Brasil chega à metade desse caminho com avanços importantes, mas ainda insuficientes. Os dados mais recentes mostram que, em 2023, 98,1% da população brasileira tinha acesso à água potável segura. Esse índice, no entanto, esconde desigualdades relevantes: em áreas rurais, o acesso cai para 88% e atinge números ainda menores nas regiões Norte (79,4%) e Nordeste (81,9%). As diferenças também aparecem no recorte racial, com menores níveis de acesso entre a população não branca.
No saneamento, o desafio é ainda mais evidente. Em 2023, apenas 59,9% da população contava com esgotamento sanitário seguro. Na Região Norte, esse percentual é de apenas 39,6%. Além disso, o Brasil trata apenas 57,6% do esgoto gerado. Na prática, isso significa que quase metade dos resíduos ainda é descartada sem tratamento adequado, com impactos diretos sobre a saúde, o meio ambiente e a segurança hídrica do país.
Mais do que uma questão de cobertura, o problema está em quem ainda fica para trás. Populações em áreas rurais, periferias urbanas e territórios historicamente excluídos concentram os maiores déficits de acesso à água, ao saneamento e à higiene.

É nesse contexto de desigualdade que o recorte de gênero ganha centralidade. Embora os indicadores possam sugerir equilíbrio entre brasileiros e brasileiras, os impactos da ausência desses serviços recaem de forma desproporcional sobre mulheres e meninas. Sem água na torneira, são elas as principais responsáveis pela coleta de água e pelos cuidados com a casa e com a família — tarefas que se tornam mais difíceis, demoradas e exaustivas quando faltam serviços adequados. Sobrecarregadas, ainda são expostas a graves riscos sanitários e de violência nesse contexto de vulnerabilidade.
A falta de acesso torna a equidade de gênero uma meta inatingível, pois afeta diretamente a saúde, a dignidade e as oportunidades dessas mulheres, ampliando a carga de trabalho não remunerado e limitando o acesso delas à educação e à geração de renda. Sem água e sem saneamento, a desigualdade se perpetua.
Esse quadro ganha contornos de emergência sob o impacto da mudança do clima, já que o aquecimento global torna eventos extremos, como secas e inundações, mais frequentes e mais intensos. No Brasil, esse processo já é observado na prática, pressionando o abastecimento, a produção de alimentos e a resiliência das cidades.
Estudos da ANA indicam tendência de secas mais prolongadas nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, enquanto o Sul e o Sudeste enfrentam episódios de inundações cada vez mais severos. Apenas em 2024, as enchentes afetaram diretamente cerca de 12 milhões de pessoas no país, enquanto a seca severa atingiu outros 10 milhões de brasileiros.

As projeções apontam para um cenário ainda mais desafiador, com maior irregularidade das chuvas, redução da disponibilidade hídrica em diversas regiões e aumento da pressão sobre os recursos existentes. Em um contexto como esse, os impactos tendem a recair com mais força sobre quem já vive em condições mais vulneráveis.
Diante dessa realidade, não há mais espaço para tratar água, saneamento, clima e justiça social como agendas separadas. Garantir acesso seguro à água e ao esgotamento sanitário, fortalecer a gestão dos recursos hídricos e avançar na adaptação à mudança do clima são ações que precisam caminhar juntas. Para assegurar maior segurança jurídica e atrair investimentos para o setor, a ANA já editou 13 normas de referência para o saneamento básico, promovendo a participação de empresas, governos e sociedade na construção de soluções que viabilizem a universalização até 2033.
Mais do que isso, é fundamental direcionar políticas públicas para quem mais precisa, enfrentando as desigualdades que ainda marcam o país. A água não é apenas um recurso natural — é um elemento central para a dignidade, a saúde e o desenvolvimento social e sustentável.
Isso também exige reconhecer que soluções mais eficazes passam pela inclusão. Nesse sentido, a participação de mulheres e de grupos historicamente sub-representados nos espaços de decisão contribui para políticas mais justas, eficientes e conectadas com a realidade.
Nesse sentido, o Brasil já começa a dar sinais importantes. A própria ANA vive um momento simbólico, com uma Diretoria Colegiada majoritariamente feminina e presença crescente de mulheres em posições técnicas e de liderança. Esse movimento institucional reverbera na ampliação de mulheres liderando comitês de bacias estaduais, órgãos gestores de recursos hídricos e agências de bacia. Ainda assim, esse avanço precisa ser ampliado, especialmente para assegurar uma representação mais equilibrada e diversa em todos os níveis de decisão e gestão dos recursos hídricos.

O país reúne conhecimento técnico, instituições consolidadas e dados cada vez mais robustos. O desafio agora é transformar diagnóstico em ação, com a urgência que o momento exige e priorizando as pessoas que mais precisam. Porque garantir água para todos e todas não é apenas cumprir uma meta internacional. É criar as condições para um futuro mais saudável, mais resiliente e mais igualitário. E, em sintonia com a mensagem da ONU neste Dia Mundial da Água, é também afirmar que onde a água chega, a igualdade se fortalece.
*Leonardo Góes Silva
Engenheiro agrônomo formado pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), com mestrado em Ciências Agrárias e MBA em Concessões e PPPs pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Foi perito federal territorial do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) por mais de duas décadas e ocupou cargos estratégicos em órgãos públicos ligados à agenda hídrica e de infraestrutura. É diretor-presidente interino da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA).
*Ana Carolina Argolo
Geóloga formada pela Universidade de Brasília (UnB), com pós-graduação em Gestão e Tecnologias Ambientais pela Universidade de São Paulo (USP) e em Geoprocessamento Ambiental pela UnB. Atuou no setor privado em consultoria ambiental e foi diretora do Departamento de Desenvolvimento Sustentável na Mineração do Ministério de Minas e Energia. É diretora-presidente interina da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA).
*Cristiane Collet Battiston
Engenheira civil formada pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE), com mestrado e doutorado em Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Analista de infraestrutura desde 2009, atuou no Governo do Distrito Federal, em ministérios e na Casa Civil da Presidência da República. É diretora da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA).
*Larissa Oliveira Rêgo
Advogada formada pela Universidade Potiguar, mestranda em Políticas Públicas e Governo pela Fundação Getulio Vargas (FGV). Atuou em ministérios e no Sindicato Nacional dos Servidores das Agências Reguladoras (SINAGÊNCIAS), com destaque para a direção de políticas de regularização fundiária no MAPA. Atualmente dirige o Departamento de Irrigação do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional e é diretora da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA).
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