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Escrito por Neo Mondo | 16 de junho de 2026
Amazônia: Operação Estiagem 2023, realizada de forma emergencial pela Marinha do Brasil para atenuar os efeitos da seca no Amazonas - Foto: Divulgação
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO
Em 2023 e 2024, a Amazônia secou de um modo que os registros satellitários não haviam documentado com tal intensidade. Rios que servem de estrada, fonte e despensa para populações ribeirinhas recuaram a marcas que pesquisadores do MapBiomas descreveram como extremas. O Rio Negro atingiu mínimas históricas. As sub-bacias do Tapajós, que haviam escapado relativamente ilesas em 2023, foram alcançadas pela estiagem no ano seguinte. Em 2024, sete dos doze meses ficaram abaixo da média histórica de superfície de água no bioma, e quase dois terços das 47 sub-bacias registraram perdas em relação à série iniciada em 1985.
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Em 2025, a superfície de água na Amazônia se recuperou. O bioma encerrou o ano com 2,6% acima da média histórica — revertendo, em dez dos doze meses, o que dois anos consecutivos de seca severa haviam subtraído. O Pará registrou o maior ganho absoluto do país: 142 mil hectares além de sua média histórica. O Amazonas acumulou 87 mil hectares adicionais. Segundo o MapBiomas, iniciativa multi-institucional que monitora transformações na cobertura e uso da terra no Brasil, a recuperação está associada ao aumento de precipitação em relação ao ano anterior. Pesquisadores da equipe da Amazônia do MapBiomas e do Imazon reconhecem o sinal positivo, mas apontam que eventos climáticos extremos estão cada vez mais frequentes na região e que os sinais de instabilidade no regime hídrico — influenciados tanto pelas mudanças climáticas quanto pelas transformações no uso da terra — tornam o quadro de longo prazo ainda preocupante.
A ressalva não é retórica. Mesmo com a recuperação, 20 das 47 sub-bacias amazônicas — 37% do total — permaneceram abaixo da média histórica em 2025. As comunidades que dependem desses corredores hídricos, ao menos metade delas localizadas a menos de 50 quilômetros dos 12 principais rios do bioma, viveram 2025 de forma fragmentada: em parte do território, a água voltou; em outra, a estiagem persistiu.
A natureza episódica dessa melhora é o que torna os dados de 2025 difíceis de consumir como boa notícia sem qualificação. O Brasil encerrou o ano com 18,2 milhões de hectares de superfície de água — 5,3% a mais do que os 17,2 milhões registrados em 2024, mas ainda abaixo da média histórica de 18,5 milhões. A análise por décadas do MapBiomas é mais reveladora do que qualquer variação anual isolada: entre 1985 e 1994, a média foi de 19,86 milhões de hectares; entre 2015 e 2024, caiu para 17,28 milhões. A diferença acumulada entre a primeira e a última década chega a 2,6 milhões de hectares. "Ao longo das últimas quatro décadas, observa-se uma tendência de redução da superfície de água no Brasil", afirmou o coordenador técnico do MapBiomas Água em nota divulgada pela iniciativa. "Como se trata de um parâmetro naturalmente dinâmico, não podemos olhar apenas para o dado de 2025 de forma isolada."
A dinâmica entre corpos hídricos naturais e antrópicos aprofunda essa leitura. Enquanto os reservatórios artificiais ganharam 1,7 milhão de hectares entre 1985 e 2025, crescimento de 69%, os corpos hídricos naturais perderam 3,2 milhões de hectares no mesmo período, redução de 19%. O Brasil construiu barragens e reservatórios enquanto seus rios e lagos encolhiam. No Cerrado, 55,1% da superfície de água em 2025 estava concentrada em hidrelétricas — o bioma onde a engenharia hídrica mais substituiu a hidrologia original. Na Caatinga, 78% dos corpos hídricos são antrópicos, a maior proporção entre todos os biomas.
A situação mais severa, porém, não está na Amazônia nem no Cerrado. O Pantanal encerrou 2025 com superfície de água de 679 mil hectares — 56% abaixo de sua média histórica de 1,56 milhão de hectares. Foi o único bioma em que todos os doze meses do ano ficaram abaixo da média. Houve, em comparação com 2024, uma recuperação de 34%: no ano anterior, o bioma havia registrado apenas 506 mil hectares, mínima absoluta da série. Mas esse crescimento relativo parte de uma base tão deprimida que o Pantanal permanece aquém de qualquer parâmetro histórico de referência. Pesquisadores da equipe do Pantanal do MapBiomas apontam que a dinâmica hídrica do bioma se alterou estruturalmente: a década de 1980 foi marcada por grandes inundações, mas desde 2019 a região enfrenta secas prolongadas, e os períodos alternados de seco e úmido — essenciais à manutenção da biodiversidade — deixaram de funcionar com regularidade.
Os efeitos territoriais são precisos. Corumbá, no Mato Grosso do Sul, perdeu 474 mil hectares de superfície de água em relação à média histórica em 2025. Cáceres, no Mato Grosso, perdeu 189 mil hectares. Os dois municípios estão inseridos na Região Hidrográfica do Paraguai, que perdeu 53,8% da sua superfície de água em relação à média histórica — 877 mil hectares subtraídos de uma planície que é a maior área úmida contínua do planeta. Em 2024, o Rio Paraguai havia chegado à sua mínima histórica em 124 anos de medições no posto de Ladário, com 62 centímetros negativos em relação à cota de referência. Em 2025, as chuvas de abril trouxeram anomalia positiva de 89 milímetros na bacia, mas o bioma encerrou o ano ainda incapaz de sustentar os ciclos de cheia que definem sua biodiversidade.
Esse contraste entre a Amazônia que se repõe e o Pantanal que não consegue recuperar o regime hídrico anterior a 2018 revela algo sobre a natureza das crises hídricas em curso no Brasil. Na Amazônia, a oscilação ainda responde, em parte, à variabilidade climática interanual — anos secos seguidos de anos mais úmidos. No Pantanal, a estrutura do ciclo parece ter se alterado de modo mais persistente. Desde a última grande cheia, em 2018, os períodos de seca tornaram-se a norma. O MapBiomas registrou que oito dos dez anos mais secos da série histórica ocorreram na última década. Essa proporção não descreve variabilidade. Descreve uma trajetória.
No conjunto dos municípios brasileiros, 45% — 2.511 ao todo — encerraram 2025 com superfície de água abaixo da média histórica. A maioria está concentrada nos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. O Pará, por sua vez, liderou os ganhos, beneficiado pelo aumento de precipitação na Amazônia Oriental. Goiás registrou o segundo maior ganho — 91 mil hectares acima da média. A distribuição geográfica desses resultados não é uniforme nem previsível: o mesmo ano que devolveu água à Amazônia manteve o Pantanal no menor patamar entre os biomas brasileiros.
A série histórica do MapBiomas, acumulada em quatro décadas, descreve um território que redistribuiu sua água de forma profundamente assimétrica. A Amazônia concentra 61,4% de toda a superfície de água do Brasil, abriga 10 milhões de hectares de água natural e tem 92,7% dos seus corpos hídricos classificados como naturais. A Mata Atlântica percorreu o caminho oposto: 61,5% de sua superfície de água está em corpos antrópicos. A Caatinga, com 32 milhões de habitantes e menos de 1 milhão de hectares de água superficial, sobrevive majoritariamente de reservatórios construídos. Esse não é o mapa de um país com 12% da água doce do planeta. É o registro de como esse recurso foi ocupado, represado, drenado e perdido ao longo de quatro décadas de transformação do uso da terra.
A recuperação da Amazônia em 2025 é real. E não basta para reverter o que quatro décadas de série histórica já registraram.
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