Dia Internacional da Biodiversidade 2026

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Dia internacional da
Biodiversidade 2026

O que 28 anos de presença no mesmo lugar ensinam sobre a vida

Escrito por Neo Mondo | 22 de maio de 2026

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Presença que resiste ao tempo. Em cada árvore monitorada, em cada dado registrado ao longo de décadas, a ciência constrói a memória necessária para compreender e proteger a biodiversidade brasileira - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Neo Mondo

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

Em 1997, quando o CNPq lançou o Programa de Pesquisas Ecológicas de Longa Duração, o Brasil não tinha uma rede sistemática de monitoramento contínuo dos seus ecossistemas. Tinha pesquisadores espalhados pelo território, cada um medindo o que podia, com o financiamento que conseguia, pelos anos que a bolsa durava. O que faltava não era ciência — era continuidade. E continuidade, na ecologia, não é um detalhe metodológico. É a condição para que qualquer coisa seja visível.

Uma seca que dura três anos parece catástrofe num recorte anual. Numa série de trinta anos, é um evento dentro de um padrão. A extinção local de uma espécie parece acidente num levantamento pontual. Numa série de duas décadas, é sinal. A regeneração de uma floresta após perturbação parece milagre numa fotografia. Numa série temporal longa, é processo — com ritmo, com obstáculos, com condições que a ciência pode identificar e a política pública pode replicar. Sem dados de longa duração, a biodiversidade não tem história. Tem apenas o presente — e o presente, sozinho, não ensina nada sobre o que está mudando, nem sobre o que pode ser salvo.

O PELD foi criado para construir essa história. Vinte e oito anos depois, ele é uma das infraestruturas científicas mais longevas e abrangentes do hemisfério sul: 55 sítios de pesquisa distribuídos em todos os biomas brasileiros — Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica, Caatinga, Pampa, Pantanal e zona costeira e marinha —, 2.500 pesquisadores ativos, séries temporais que documentaram desde a expansão do desmatamento amazônico nos anos 2000 até as secas históricas do Rio Negro, as enchentes do Rio Grande do Sul e o branqueamento de corais no litoral brasileiro. É também o nó brasileiro da rede ILTER — que conecta 40 países e mais de 750 sítios de monitoramento ecológico ao redor do mundo —, posicionando o Brasil como produtor e não apenas consumidor de ciência global sobre biodiversidade.

Fabíola Siqueira de Lacerda é a gestora desse programa no CNPq. Não é a pesquisadora de campo — esse papel pertence aos 2.500 cientistas que habitam os sítios. É a pessoa que garante que o programa existe amanhã, que o financiamento chega, que as redes se articulam, que os dados se integram e que o Estado brasileiro mantém viva uma infraestrutura que, se for interrompida, não se reconstrói simplesmente com um novo edital.

Neste Dia Internacional da Biodiversidade, ela fala sobre o que significa, dentro do Estado, ser guardiã do tempo longo — num país que ainda não aprendeu, de todo, a tomar decisões nessa escala.

O tema do Dia Internacional da Biodiversidade 2026 é "Agir localmente para um impacto global". O PELD existe há 28 anos fazendo exatamente isso: uma das maiores redes de monitoramento ecológico de longa duração do hemisfério sul. Cinquenta e cinco pontos de observação contínua, dados que remontam a quase três décadas, séries temporais que documentaram eventos importantes como a tragédia de Mariana, o maior derramamento de óleo no litoral brasileiro até as enchentes do Rio Grande do Sul. O que esse acúmulo representa para o Brasil como país — e por que ele ainda não é suficientemente conhecido fora da comunidade científica?

Para o Brasil, esse acúmulo representa, acima de tudo, soberania e inteligência estratégica socioambiental. Num país de dimensões continentais e megadiverso, que tem na biodiversidade e nos serviços ecossistêmicos um dos seus maiores ativos, não se faz política pública eficiente com suposições — faz-se com dados sólidos, elaborados a partir de evidências validadas cientificamente.

O PELD teve início em 1997. Na primeira chamada, em 1999, foram aprovados três sítios. No ciclo em curso, iniciado no final de 2024, chegamos a 55. Os coordenadores reunidos na XIV Reunião de Acompanhamento e Avaliação, realizada em Brasília neste mês, percebem o programa como um sistema nacional de inteligência ambiental e territorial. Quando olhamos para as séries temporais que documentaram a tragédia de Mariana, o maior derramamento de óleo cru no litoral brasileiro ou as enchentes no Rio Grande do Sul, o que temos não são apenas registros do passado — são ocorrências que orientam ações de mitigação no futuro. Esse acúmulo permite diferenciar variação natural de ruptura causada por ação humana ou por mudança climática. É sobre isso que se constroem políticas públicas efetivas.

Quanto ao reconhecimento fora da academia, o PELD compreende que comunicação é parte integrante da gestão. Desde 2016, diversas ações foram incorporadas nessa direção. Desde 2020, contamos com o PeldCom — projeto voltado à comunicação pública da ciência —, que apoia os pesquisadores dos sítios na divulgação dos seus resultados junto às comunidades locais, à mídia digital e à imprensa. O PELD é um patrimônio de todos os brasileiros. Uma de suas missões é que o conhecimento gerado chegue com clareza à sociedade e resulte em políticas socioambientais efetivas.

Monitoramento de longo prazo é, por definição, incompatível com a lógica dos ciclos políticos e orçamentários de curto prazo. O PELD sobreviveu a oito mudanças de presidentes do Brasil, a cortes profundos na ciência brasileira, a crises de financiamento que interromperam outros programas igualmente relevantes. O que garantiu a continuidade de um programa que depende, por natureza, de não ser interrompido — e qual é, hoje, a maior vulnerabilidade estrutural do PELD em termos de sustentabilidade institucional e financeira?

São vários os fatores que contribuíram para a resiliência do PELD. Seu modelo de governança — com um Comitê Gestor voltado à gestão estratégica nacional e um Comitê Científico dedicado ao acompanhamento e avaliação dos projetos — é um dos seus diferenciais estruturais. A isso se somam as ações contínuas de fomento do CNPq desde a criação do programa, a dedicação dos servidores ligados à sua gestão ao longo dos anos e as parcerias com instituições federais e estaduais. A cooperação com o CONFAP e as Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa, ativa desde 2012, foi decisiva. O MCTI e a CAPES também aportaram recursos em ciclos específicos.

Mas o PELD não é apenas um conjunto de chamadas públicas. É uma comunidade — cerca de 2.500 pesquisadores, técnicos, estudantes e colaboradores que atuam em parceria com o Comitê Científico e a equipe técnica do CNPq. Essa comunidade é, ela mesma, um fator de resiliência.

Quanto à vulnerabilidade, o monitoramento de longa duração exige investimento perene. O cenário ideal seria um recurso federal assegurado de forma regular e previsível. Nossa luta é para que o PELD seja tratado como política de Estado — e uma medida concreta nessa direção seria sua inserção no Plano Plurianual do Governo Federal.

O Acordo de Kunming-Montreal estabeleceu 17 metas globais para deter e reverter a perda de biodiversidade até 2030. A implementação dessas metas depende de dados — dados precisos, comparáveis, de séries temporais longas o suficiente para distinguir tendência de ruído. O PELD é, hoje, uma das infraestruturas científicas mais bem posicionadas do Brasil para subsidiar essa implementação. Como essa conexão entre o programa e os compromissos internacionais do Brasil está sendo operacionalizada — e onde ela ainda existe mais no papel do que na prática?

Os dados gerados pelo PELD influenciam diretamente o alcance de múltiplos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Três merecem destaque: as séries históricas contribuem para a Ação Contra a Mudança Global do Clima — ODS 13 —, permitindo prever os efeitos de secas severas, incêndios florestais e eventos extremos sobre a biodiversidade e subsidiar políticas de adaptação. O monitoramento de ecossistemas costeiros, oceânicos, fluviais e estuarinos — com dados sobre temperatura dos oceanos, branqueamento de corais, acidificação e contaminação por óleo — alimenta diretamente a Vida na Água — ODS 14. E o registro dos efeitos do desmatamento, dos incêndios e das mudanças no uso do solo sobre fauna e flora terrestres orienta estratégias para reduzir a perda de biodiversidade terrestre — ODS 15.

A integração desses dados com os gestores públicos, porém, exige ferramentas que ainda estão sendo construídas: sistemas interoperáveis, diálogo interinstitucional fortalecido e recursos humanos dedicados a tratar, gerir e fazer circular o conhecimento produzido. É onde a conexão entre o PELD e os compromissos internacionais do Brasil ainda existe mais no papel do que na prática.

A formação de recursos humanos em ecologia e biodiversidade é uma das funções explícitas do PELD — e uma das mais estratégicas. Cada sítio de pesquisa é também um polo de formação de pós-graduandos, de iniciação científica, de desenvolvimento de expertise que não se reconstrói rapidamente quando se perde. O Brasil tem 2.500 pesquisadores ativos nessa rede. O que esse número representa em termos de capacidade científica instalada — e o que acontece com essa capacidade quando o financiamento oscila ou quando uma geração de pesquisadores se aposenta sem sucessão garantida?

O Brasil levou décadas e investiu volumes expressivos para formar esse conjunto de especialistas. Além das 55 instituições executoras onde estão vinculados os coordenadores, o PELD conta hoje com 347 instituições colaboradoras brasileiras e 100 internacionais — o que dá a medida do seu alcance e capilaridade.

Um dado que revela a profundidade dessa formação: inúmeros coordenadores de sítios PELD que estão há mais tempo no programa foram membros de equipes em ciclos anteriores e, em vários casos, bolsistas do PELD durante toda a sua trajetória acadêmica. Isso reforça a necessidade de assegurar recursos robustos para bolsas — em nível federal e estadual — a cada ciclo, porque é disso que depende a formação do pessoal qualificado para atender as demandas específicas de cada sítio.

A ciência ecológica depende de campo. Tem-se com supervisores e bolsistas presente no território, coletando e validando dados. Essas gerações formadas pelo PELD estão hoje distribuídas pelos diferentes biomas brasileiros, transformando contextos e apontando caminhos para os desafios contemporâneos da biodiversidade.

O CNPq apoia a biodiversidade como prioridade científica — mas o orçamento de ciência no Brasil ainda é estruturalmente insuficiente para o porte do desafio. Num Dia Internacional da Biodiversidade cujo tema convoca ação local para impacto global, qual é a mensagem que o PELD — com 28 anos de dados, 55 sítios, 2.500 pesquisadores e presença em todos os biomas do país — tem condição de enviar aos formuladores de política pública, aos financiadores privados e aos tomadores de decisão que ainda tratam monitoramento ecológico como custo, e não como infraestrutura crítica do Estado brasileiro?

O PELD pode ser compreendido como uma agenda estratégica de soberania nacional. Seu investimento fortalece a segurança hídrica, climática, energética, alimentar, territorial e genética do Brasil — reduzindo custos futuros decorrentes de emergências climáticas, degradação ambiental e perdas na agropecuária. Os dados gerados pelo programa podem ajudar a prever desastres e colapsos ecológicos, apontar caminhos para evitá-los e contribuir para um desenvolvimento econômico sustentável de base sólida.

Deixo aqui as palavras dos próprios coordenadores dos projetos, reunidos este mês em Brasília, porque elas dizem com precisão o que precisa ser dito: apoiar o PELD não é apenas financiar a ciência — é investir no desenvolvimento, na estabilidade econômica, na segurança nacional, na conservação da biodiversidade e no futuro do Brasil.

foto de Fabíola, entrevistada, remete a matéria O que 28 anos de presença no mesmo lugar ensinam sobre a vida
Fabíola Siqueira de Lacerda - Foto: Divulgação

Existe uma assimetria que define a posição do PELD no sistema de ciência brasileiro — e que esta entrevista documenta com precisão incômoda. O programa produz o tipo de conhecimento de que o país mais precisa para tomar decisões sobre biodiversidade: séries temporais longas, dados comparáveis entre biomas, evidência acumulada que distingue tendência de ruído e permite à política pública agir antes que o limiar de irreversibilidade seja cruzado. E opera, estruturalmente, sob a lógica de financiamento que mais prejudica exatamente esse tipo de conhecimento: ciclos curtos, descontinuidades orçamentárias, dependência de editais que abrem e fecham sem garantia de continuidade.

É uma contradição que não é exclusiva do Brasil. Programas de pesquisa ecológica de longa duração ao redor do mundo enfrentam versões do mesmo problema: a ciência que mais demora para produzir resultados é a que os ciclos políticos menos conseguem sustentar. O que diferencia o PELD — e o que torna os seus 28 anos uma conquista que vai além do mérito científico — é que ele sobreviveu a essa contradição. Não sem custo, não sem interrupções, não sem perdas de séries que começaram e não chegaram ao ponto em que os dados se tornam irreversíveis na sua importância. Mas sobreviveu.

O que o Dia Internacional da Biodiversidade 2026 convoca, com seu tema sobre ação local e impacto global, é também isso: o reconhecimento de que a ciência que documenta a vida no território é, ela mesma, uma forma de ação. Cada sítio do PELD é um lugar onde alguém decidiu ficar — medir, registrar, voltar no ano seguinte e no ano depois — porque entendeu que a biodiversidade não se protege sem ser primeiro compreendida, e que compreendê-la exige o único recurso que nenhum edital consegue comprar de volta quando se perde: o tempo que já passou.

Os 28 anos do PELD são, nesse sentido, um argumento. Não sobre o passado — sobre o que o Brasil precisa decidir agora, enquanto ainda tem o que medir.

Este conteúdo integra o especial A Teia da Vida: Biodiversidade, Risco e o Futuro do Planeta, produzido pelo Neo Mondo para aprofundar o debate sobre a biodiversidade como um dos principais desafios ambientais, econômicos e civilizatórios do século XXI. Um especial Neo Mondo em parceria com a Seguros Unimed.

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