Dia Internacional da Biodiversidade 2026
Escrito por Neo Mondo | 22 de maio de 2026
Cuidar do planeta começa por reconhecer que cada rio, floresta e oceano faz parte da mesma teia de vida que sustenta o nosso futuro - Foto: Ilustrativa/Magnific
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO
Existe uma frase que o setor financeiro repete há décadas como se fosse uma verdade imutável: risco é o que pode ser mensurado, precificado e transferido. O que não aparece nos modelos não existe como variável de decisão. Durante muito tempo, a biodiversidade não aparecia nos modelos. As florestas que regulavam o clima, os polinizadores que sustentavam a agricultura, os manguezais que protegiam as costas de tempestades, os solos vivos que filtravam a água que chegava às torneiras — tudo isso operava fora da planilha. Gratuito, invisível e, por isso, descartável.
O Global Risks Report 2025 do Fórum Econômico Mundial colocou a perda de biodiversidade e o colapso de ecossistemas entre os principais riscos sistêmicos do horizonte de dez anos. O UNEP estimou em 700 bilhões de dólares anuais a lacuna de financiamento necessária para proteger e restaurar o que resta. O setor segurador — que durante décadas precificou furacões, secas e inundações como eventos isolados — começa a reconhecer que esses eventos têm um substrato: a degradação dos sistemas naturais que regulavam sua frequência e sua intensidade. Quando a natureza colapsa, o sinistro que chega à seguradora não tem mais a forma de um evento. Tem a forma de uma tendência.
Helton Freitas chegou a essa conclusão antes de ela se tornar consenso no setor. Em 2019, quando a agenda de biodiversidade ainda era tratada como pauta ambiental periférica nos corredores do mercado financeiro brasileiro, a Seguros Unimed firmou parceria com a Fundação Biodiversitas e se tornou a primeira empresa do país a apoiar um sítio da Aliança Brasileira para Extinção Zero — a Estação Biológica de Canudos, na Caatinga baiana, onde a arara-azul-de-lear encontrou abrigo e a ciência encontrou décadas de dados sobre o que significa preservar uma espécie à beira do desaparecimento. Na COP30, em Belém, a companhia foi além: anunciou um programa de compensação de carbono via patrocínio de Reservas Particulares do Patrimônio Natural, com monitoramento por satélite da startup 6Bios e auditoria independente da KPMG — um modelo construído para ser replicável, não para ser exclusivo.

Presidente da Seguros Unimed há anos, Helton Freitas comanda uma instituição que gerencia R$ 7 bilhões em ativos do Sistema Unimed, atende seis milhões de clientes e está presente em 84% do território nacional. É uma seguradora cooperativista especializada em saúde humana que, por escolha estratégica e por coerência com o princípio cooperativista de interesse pela comunidade, decidiu que o perímetro do seu cuidado é mais largo do que o perímetro das suas apólices.
Nesta entrevista ao Neo Mondo, ele explica por que.
Dr. Helton, uma seguradora existe para proteger o que tem valor e pode ser perdido. A biodiversidade está sendo perdida numa escala que o relatório global do IPBES de 2019 cifrou em um milhão de espécies ameaçadas — e cujos serviços ecossistêmicos a ciência estimou em mais de 140 trilhões de dólares anuais para a economia global. O que levou a Seguros Unimed, em 2019, a enxergar a conservação da biodiversidade não como filantropia, mas como extensão do seu próprio propósito?
Para a Seguros Unimed, enxergar a conservação como extensão do nosso propósito faz parte da compreensão de que proteger a vida, em todas as suas formas, está na nossa essência. Em 2019, quando iniciamos o apoio contínuo à Fundação Biodiversitas na conservação de áreas protegidas e no Programa Permanente de Proteção da Arara-azul-de-Lear, sabíamos que estávamos gerindo riscos estruturais. Como seguradora, entendemos que não há como gerenciar a saúde humana sem considerar a interdependência com a saúde animal, o clima e o meio ambiente. Investir na integridade ecológica de longo prazo significa preservar a base que sustenta a própria vida e a economia. Trata-se de mitigar, de forma preventiva, a probabilidade de eventos extremos que impactam diretamente a lógica de risco do setor no longo prazo.
Esse compromisso foi reforçado na Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025 (COP30), em Belém, onde fomos a primeira empresa a assinar o acordo para o Programa de Patrocínio e Monitoramento de RPPNs, criado para compensar mais de 500 toneladas de CO₂ geradas pelas nossas operações, fortalecendo a atuação em iniciativas que unem responsabilidade ambiental e desenvolvimento da sociedade. Liderar é ter visão estratégica, coragem para enfrentar desafios e compromisso permanente com o desenvolvimento humano e social.
A Seguros Unimed foi a primeira empresa brasileira a apoiar um sítio da Aliança Brasileira para Extinção Zero — a Estação Biológica de Canudos, na Caatinga baiana, habitat central da arara-azul-de-lear. Na COP30, em Belém, a companhia anunciou o Programa de Patrocínio e Monitoramento de RPPNs, com compensação de mais de 500 toneladas de CO₂ anuais, verificação independente da 6Bios e auditoria da KPMG. Ao estruturar um programa auditável, replicável e aberto a outras empresas, a Seguros Unimed deixou de ser apenas patrocinadora e passou a modelar um instrumento de mercado. O que esse movimento revela sobre onde o setor financeiro cooperativista pode — e precisa — estar na agenda de biodiversidade?
Esse movimento revela que o setor cooperativista pode, e precisa, ser protagonista e articulador de ecossistemas colaborativos inovadores. Ao unirmos a plataforma tecnológica da 6BIOS (com métricas auditáveis e rastreabilidade em tempo real), a expertise técnica da Fundação Biodiversitas e a verificação independente de uma certificadora internacional com auditoria da KPMG, nós transformamos o patrocínio tradicional em um modelo aberto, transparente e escalável. O cooperativismo nos impulsiona a ir além da métrica tradicional e a construir soluções coletivas. Desta forma, mostramos que o setor não deve apenas reagir aos riscos ou ajustar preços, mas sim liderar a criação de mecanismos viáveis para que outras empresas, governos e instituições adotem a agenda de biodiversidade com total credibilidade.
O setor segurador global está, pela primeira vez, colocando perda de biodiversidade e colapso de ecossistemas entre os principais riscos de longo prazo nos seus modelos de subscrição. O Global Risks Report 2025 do Fórum Econômico Mundial os classificou entre as ameaças mais críticas do horizonte de dez anos. Para uma seguradora especializada em saúde humana, qual é a conexão real — não retórica — entre a degradação dos ecossistemas e os riscos que a Seguros Unimed subscreve todos os dias?
A conexão é direta e faz parte do nosso cotidiano operacional. Operamos fortemente com produtos de Saúde, Odonto, Patrimonial e Vida, segmentos que são profundamente impactados pela degradação ambiental e pelas mudanças climáticas. A ciência e a nossa própria experiência estratégica já demonstram que fenômenos como o desmatamento e a perda de biodiversidade afetam diretamente a saúde humana. Para nós, preservar o habitat e as espécies é a forma mais direta de atuar na prevenção e na redução dos riscos sistêmicos que subscrevemos diariamente.
O cooperativismo tem, entre seus princípios fundadores, o interesse pela comunidade — a premissa de que a organização cooperativa existe para além dos seus associados imediatos e deve gerar valor para o território em que opera. As quatro RPPNs apoiadas pela Seguros Unimed estão em biomas sob pressão direta — Caatinga e Mata Atlântica — e suas populações do entorno dependem dos serviços ecossistêmicos dessas reservas para sobreviver. Como o princípio cooperativista informa a decisão de conservar a biodiversidade de uma forma que a lógica do retorno financeiro convencional, sozinha, não produziria?
A lógica financeira tradicional do mercado é, historicamente, pressionada por resultados de curto prazo, o que muitas vezes impede a incorporação de estratégias socioambientais que exigem horizontes de décadas.
O cooperativismo rompe essa barreira por meio do seu 7º princípio: o interesse pela comunidade e pelo entorno, o que nos permite expandir a lente sobre o que gera valor. Enquanto o mercado financeiro tradicional ainda busca precificar ativos cuja integridade ecológica se dá no longo prazo, nós já investimos consistentemente nessa preservação há mais de uma década.
O princípio cooperativista nos orienta a colocar o compromisso com o desenvolvimento sustentável no mesmo patamar de importância do próprio negócio, sabendo que o verdadeiro retorno é coletivo e social.
O UNEP estimou em 700 bilhões de dólares anuais a necessidade global de financiamento para proteger e restaurar ecossistemas — uma lacuna que bancos, seguradoras e investidores institucionais precisarão ajudar a fechar. Instrumentos como créditos de biodiversidade, títulos de natureza e seguros paramétricos para ecossistemas estão emergindo globalmente. O Programa de Patrocínio e Monitoramento de RPPNs da Seguros Unimed foi desenhado para ser replicável. O que falta no mercado brasileiro para que esse modelo deixe de ser pioneiro e se torne padrão?
Falta ao mercado tradicional, majoritariamente, uma mudança de perspectiva em relação ao imediatismo financeiro. O principal obstáculo ainda é a busca por resultados de ciclos muito curtos. Para que modelos como o nosso Programa de RPPNs se tornem padrão, o setor precisa amadurecer suas análises e posicionamentos, cruzando dados ambientais e de georreferenciamento de médio e longo prazo com as suas precificações tradicionais.
A nossa parceria com a 6BIOS e a Biodiversitas prova que o ferramental tecnológico e a governança para dar escala com credibilidade já existem. O mercado brasileiro precisa agora equilibrar a sustentabilidade financeira com a responsabilidade social, entendendo de uma vez por todas que a conservação da natureza é o lastro que sustenta o próprio futuro da economia.
A Seguros Unimed gerencia, por meio da InvestCoop Asset Management, R$ 8 bilhões em ativos do Sistema Unimed. A integração de riscos de natureza e biodiversidade nas decisões de alocação de ativos — o que a TNFD sistematizou como framework de divulgação para mais de 620 organizações globais — é o próximo passo lógico para uma instituição que já opera com conservação de ecossistemas no lado da despesa. Esse mesmo raciocínio já chegou ao lado dos investimentos?
Sim, esse raciocínio é um desdobramento lógico e natural da nossa evolução em ESG. Não faria sentido atuar na vanguarda da gestão de riscos ambientais do lado do provimento e da subscrição se os nossos critérios de alocação de ativos financeiros seguissem uma lógica descolada dessa realidade. A nossa essência cooperativista e os nossos princípios ESG guiam transversalmente a companhia.
Entendemos que o verdadeiro retorno de um ativo está diretamente ligado à sua sustentabilidade e ao seu impacto no entorno. A sustentabilidade deixou de ser uma opção e passou a ser uma exigência onde o risco climático e o cuidado ambiental fazem parte dos balanços das empresas. É exatamente nesse contexto que o ISSB (International Sustainability Standards Board) cria regras globais para as empresas informarem ao mercado como o meio ambiente afeta seus negócios e como elas afetam o meio ambiente. Em paralelo, o IASB (International Accounting Standards Board) apoia esse processo garantindo que os impactos financeiros dessa relação apareçam claramente nos balanços contábeis.
Portanto, olhar para o mercado de ativos ambientais e internalizar os riscos de natureza na alocação de recursos é parte da nossa estratégia para induzir uma economia de baixo carbono, garantindo que nossos investimentos financeiros protejam o futuro, assim como nossas apólices e programas de conservação.
Em 2026, saúde humana e saúde dos ecossistemas são reconhecidas como faces do mesmo sistema — pela ciência, pela Convenção sobre Diversidade Biológica e por uma geração crescente de gestores de risco. Uma seguradora especializada em saúde que protege quatro reservas na Caatinga e na Mata Atlântica, audita a compensação de carbono por satélite e anuncia esse compromisso na conferência climática mais importante do mundo está dizendo, com atos, que o perímetro do cuidado é mais largo do que o perímetro da apólice. Qual é o próximo limite que a Seguros Unimed pretende atravessar?
O próximo limite é consolidar e expandir esse ecossistema colaborativo que inauguramos, transformando a conservação em uma rede nacional escalável e de adesão em massa por outras corporações e governos. A parceria da Seguros Unimed e Biodiversitas, que começou com a proteção da área de Canudos, atualmente em processo de se tornar uma RPPN, se expandiu para outras três áreas, já consideradas RPPNs: a Mata do Passarinho, localizada entre Minas Gerais e Bahia, a Mata do Sossego, também no estado mineiro, e o Ninho da Tartaruga, em Tombos (MG), ganhou uma importância ainda maior no final de 2025, com o lançamento do programa na COP30, patrocinando reservas estratégicas nestas regiões.
O próximo passo é avançar ainda mais nas análises prospectivas de médio prazo e modelos preditivos, refinando o uso de dados de georreferenciamento e variáveis climáticas exógenas na própria essência dos produtos do setor segurador. Queremos provar em larga escala que o setor de seguros não serve apenas para indenizar perdas pós-evento, mas sim para financiar soluções, atuar preventivamente e transformar a realidade do país. Protegendo, portanto, além da saúde, vida e patrimônio dos brasileiros, o nosso patrimônio natural.
Há uma palavra que atravessa a história da Seguros Unimed e que aparece, de formas diferentes, em quase tudo que Helton Freitas diz sobre biodiversidade: cuidado. É uma palavra que o sistema cooperativista herdou da medicina — o cuidado com o paciente, com o corpo, com a vida que se apresenta vulnerável e pede proteção. A Unimed nasceu desse princípio. A Seguros Unimed nasceu do mesmo princípio, aplicado à proteção financeira. O que os últimos sete anos de parceria com a Biodiversitas, com a Estação Biológica de Canudos e com o Programa de RPPNs sugerem é que esse princípio encontrou, no ecossistema, uma escala que vai além do indivíduo.
Cuidar de uma arara-azul-de-lear na Caatinga baiana é cuidar do licuri que ela dispersa, da vegetação que o licuri sustenta, do solo que a vegetação protege, da água que o solo retém, da chuva que a cobertura vegetal chama, das comunidades que dependem dessa chuva para sobreviver. É uma cadeia que a medicina conhece bem — o corpo humano também funciona assim, em interdependências que só ficam visíveis quando uma delas falha.
O que o Dia Internacional da Biodiversidade 2026 convoca, com seu tema sobre ação local e impacto global, é exatamente esse reconhecimento: que os sistemas que sustentam a vida — tanto os biológicos quanto os sociais — são estruturas de cuidado mútuo. Quando uma seguradora cooperativista entra numa reserva da Caatinga e decide que aquilo também é seu negócio, ela não está fazendo filantropia. Está praticando, com consistência rara no setor financeiro brasileiro, o que sempre esteve escrito no seu propósito: colaborar para transformar o futuro em algo mais saudável.
A pergunta que fica — e que esta entrevista abre sem fechar — é quantas outras instituições financeiras precisarão esperar até que a perda de biodiversidade apareça nos seus modelos de risco para fazer o que a Seguros Unimed fez em 2019, quando esse risco ainda não tinha nome no mercado.
Este conteúdo integra o especial A Teia da Vida: Biodiversidade, Risco e o Futuro do Planeta, produzido pelo Neo Mondo para aprofundar o debate sobre a biodiversidade como um dos principais desafios ambientais, econômicos e civilizatórios do século XXI. Um especial Neo Mondo em parceria com a Seguros Unimed.

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