Dia Internacional da Biodiversidade 2026

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Dia internacional da
Biodiversidade 2026

Biodiversidade, informação e soberania

Escrito por Neo Mondo | 22 de maio de 2026

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Biodiversidade em rede. Rios, florestas e espécies formam uma arquitetura viva que sustenta o clima, a água, os alimentos e o futuro das sociedades humanas - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Neo Mondo

POR - THOMAS M. LEWINSOHN*

Em 1986, há exatos quarenta anos, um grupo de cientistas se reuniu em Washington, nos Estados Unidos, para debater e lançar publicamente um novo conceito: biodiversidade. A ideia não era inteiramente nova, mas o nome era quase desconhecido. Cientistas frequentemente criam termos para designar novos conceitos. A maior parte desaparece, ou circula apenas em grupos restritos de especialistas. Mas esse pegou, e como pegou! Passados somente seis anos, na Rio-92 se elaborava a Convenção de Diversidade Biológica, uma convenção da ONU firmada por quase todos os países (menos, até hoje, os Estados Unidos). Após quatro décadas, a maioria das pessoas letradas está familiarizada com o nome biodiversidade e tem alguma ideia do que representa.

Mas que ideia é essa? A definição formal na Convenção é abrangente: além da diversidade de espécies, que nos é mais familiar, ela agrega a diversidade genética e a diversidade dos ecossistemas. Compreender esse conceito em termos práticos não é simples nem mesmo para cientistas, que dirá para  políticos, empreendedores e atores sociais que precisam formular políticas públicas e iniciativas para conservar, manejar e utilizar a biodiversidade de modo sustentável.

A biodiversidade tem muitos componentes e dimensões. Tendemos a pensar primeiro em espécies ameaçadas que atraem a atenção e o engajamento massivo, especialmente aquelas universalmente amadas, tais como aves e mamíferos (os “fofídeos”), orquídeas. A riqueza, ou seja, a quantidade de espécies desses grupos que ocorre em um país, faz parte de sua identidade nacional. Ou deveria fazer, mas no Brasil essa informação é bem pouco difundida.

Para uma ideia completa da biodiversidade, além dos vertebrados e plantas com flor, precisamos atentar a duas outras categorias de seres vivos: primeiro, os micro-organismos; segundo, o extenso conjunto de organismos pequenos porém não microscópicos, invertebrados, plantas sem flor, algas. Esses grupos abrangem mais de 99% da diversidade na Terra, e representam um enorme desafio, especialmente no Brasil e outros países tropicais, onde estimamos que ao menos das 85% de suas espécies ainda não foram reconhecidas e descritas pela ciência; boa parte não terá sido sequer coletada.

Uma maneira de agilizar a catalogação da biodiversidade desconhecida é empregar métodos moleculares para reconhecer espécies com base em sequências distintas de seu material genético.  Esses métodos têm sido muito úteis para insetos e outros grupos com numerosas espécies difíceis de distinguir, mas são indispensáveis nos micro-organismos, em que a catalogação convencional, que exige nomear e caracterizar as espécies uma a uma, é quase impossível de realizar.

A informação de biodiversidade, porém, requer bem mais que a listagem de todos os organismos que vivem em uma região ou país. Digamos que sua descrição, ou perfil genético, seja o CPF de cada espécie residente no Brasil; precisamos saber onde elas vivem e o que fazem. Para saber onde ocorrem diferentes espécies, necessitamos coletas padronizadas em localidades e ecossistemas que cubram amplamente o território nacional. Aqui esbarramos em lacunas gigantescas de informação. Há centenas de milhares de quilômetros quadrados do Brasil que nunca foram amostrados para plantas e vertebrados, que dirá para os outros grupos indicados acima. Novos métodos de mapeamento e análise geográfica, inclusive apoiados por I.A., são capazes de organizar a informação já disponível e de formular esquemas efetivos de amostragem das lacunas mais críticas. Mas, em última instância, precisamos sustentar e expandir os programas de expedições para reconhecimento e amostragem biológica nessas lacunas — algumas muito remotas, mas outras surpreendentemente próximas até de centros urbanos.

Para completar o quadro de informação de biodiversidade, além de inventariar as espécies de nosso país e as regiões e ecossistemas em que vivem, precisamos considerar sua diversidade funcional. Isto significa compreender como as espécies atuam nos processos que mantêm os ecossistemas funcionando e aptos a responder a alterações do ambiente, como as mudanças climáticas. A diversidade funcional é essencial para a melhor compreensão dos serviços ecossistêmicos que a biodiversidade presta para as demandas essenciais de nossa existência e qualidade de vida.

Na Era da Informação em que nos encontramos, a informação sobre a biodiversidade é um recurso crítico, de importância estratégica equivalente à de informações econômicas, demográficas e sociais do país e de suas regiões. Ela direciona planos e políticas de manejo, conservação e uso de recursos ambientais, segurança alimentar, saúde humana e ambiental, entre tantas esferas importantes da vida pública. Está também na base de relações geopolíticas e compromissos internacionais, desde a cadeia produtiva de alimentos exportados, até a redução de emissões de carbono.

Como se poderia esperar, a onda geral de globalização também alcançou as informações ambientais e biológicas. Grandes bases de dados, como o GBIF (Sistema Global de Informação sobre Biodiversidade) reúnem informações de todo o planeta. Cientistas e bases brasileiras, como o SiBBr (Sistema de Informação sobre a Biodiversidade Brasileira) e a BPBES (Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos) são importantes contribuintes para as bases globais. Sendo de acesso aberto, análises desses dados deveriam ser compartilhadas equitativamente entre os pesquisadores do mundo. Na prática, a maioria das publicações prestigiadas que emprega esses dados é liderada por cientistas da Europa e América do Norte. Brasileiras e brasileiros, assim como outros cientistas do Sul Global, figuram tipicamente como coautores. A ciência da biodiversidade, assim, continua reproduzindo o modelo neocolonial de produção, em que cientistas da periferia contribuem com matérias primas — os dados primários, e importam manufaturados — as análises e artigos de grande impacto, pautados pela mídia e que ressoam em arenas políticas e corporativas.

Superar esse ciclo não é uma mera questão de amor-próprio e afirmação de identidade. A formulação de questões sobre a biodiversidade, e os modos de produzir respostas, são muito influenciadas pela consciência de contexto. Cientistas brasileiros têm conhecimento da história ambiental e sociopolítica do país, suas regiões e biomas. Também estão cientes das limitações intrínsecas em nossa informação. Em vez de copiar modelos e análises provenientes de países temperados, buscam desenvolver ferramentas práticas e análises robustas com dados incompletos e heterogêneos.

Nestas tarefas, não estamos isolados. A biodiversidade é um bem global, mas as diferenças geográficas são um de seus componentes mais importantes. Espécies e comunidades ecológicas atravessam fronteiras. Todos os biomas brasileiros, com exceção da caatinga, se estendem por países vizinhos. Precisamos, portanto, compartilhar informações relevantes, por exemplo, para avaliar o risco de extinção de espécies; ou então, para determinar os direitos legais de produtos derivados do conhecimento partilhado por povos tradicionais de mais de um país. Além do mais, temos passados coloniais e neocoloniais semelhantes. Temos também comunidades científicas competentes e engajadas que padecem de dificuldades e incertezas parecidas.

Uma via alternativa se desenha com a formação de redes científicas regionais. Em 2025, foi fundada a RELatE, Rede Latino-americana de Ecologia, que congrega sociedades e comunidades científicas organizadas de todo o continente, incluindo o Caribe. Essa rede é um novo canal para promover o acesso a informações, o planejamento de pesquisas comparativas, a formação conjunta de pesquisadoras e pesquisadores, a incorporação de conhecimentos tradicionais, o desenvolvimento de infraestruturas compartilhadas — uma agenda extensa e com muitas ramificações. Dessa maneira, esperamos ampliar a qualidade e alcance do conhecimento de biodiversidade; mais que isso, esperamos impulsionar políticas baseadas em evidências que melhorem substancialmente a qualidade ambiental, de vida e bem-estar e, em especial, elaborar maneiras de fazer frente às mudanças globais que atingem a todos.

Este conteúdo integra o especial A Teia da Vida: Biodiversidade, Risco e o Futuro do Planeta, produzido pelo Neo Mondo para aprofundar o debate sobre a biodiversidade como um dos principais desafios ambientais, econômicos e civilizatórios do século XXI. Um especial Neo Mondo em parceria com a Seguros Unimed.

foto de thomas lewinsohn, autor do artigo BIODIVERSIDADE, INFORMAÇÃO E SOBERANIA
Thomas Lewinsohn - Foto: Divulgação

Thomas Lewinsohn é Doutor em Ciências, Professor Emérito da Unicamp e Pesquisador Sênior do CNPq. Coordenou o projeto do “Estado de Conhecimento da Biodiversidade Brasileira” para o Ministério do Meio Ambiente (1998 a 2006), foi o primeiro presidente da ABECO (Associação Brasileira de Ciência Ecológica e Conservação) e integra o Comitê Fundador da Rede Latino-americana de Ecologia.

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