Dia Internacional da Biodiversidade 2026
Escrito por Neo Mondo | 22 de maio de 2026
Natureza e sobrevivência. Erica Pacífico segura um filhote de arara-azul-de-lear com cerca de dois dias de vida, em uma espécie onde a disputa por alimento começa ainda no ninho - Foto: João Marcos Rosa
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO
Em 1992, quando a Convenção sobre Diversidade Biológica foi adotada no Rio de Janeiro, o mundo reconheceu formalmente o que a ciência já sabia: a perda de biodiversidade não era um efeito colateral do desenvolvimento — era uma crise em curso, com consequências que nenhum sistema econômico ou político havia aprendido a precificar. Trinta e quatro anos depois, o balanço é constrangedor. A biodiversidade global continua em declínio. As metas não foram cumpridas. E o tema do Dia Internacional da Biodiversidade 2026 — "Agir localmente para um impacto global" — soa, ao mesmo tempo, como reconhecimento e como confissão: o que as grandes arquiteturas de governança não conseguiram fazer, talvez precise começar no chão, por pessoas específicas, em lugares específicos, com espécies específicas.
Érica Pacífico é uma dessas pessoas. Bióloga da conservação, doutora pela Universidade Pablo de Olavide, em Sevilha, pós-doutoranda e professora colaboradora no Instituto de Biologia da Unicamp, ela lidera desde 2008 o Grupo de Pesquisa e Conservação da Arara-azul-de-lear — espécie endêmica da Caatinga que, quando ela chegou ao campo pela primeira vez, contava com menos de 200 indivíduos livres na natureza. O censo de 2024 registra cerca de 2.500. É um dos casos mais documentados de recuperação de espécie ameaçada no Brasil — e, por isso mesmo, um dos mais úteis para entender o que a conservação de biodiversidade exige quando sai do papel das convenções internacionais e enfrenta a realidade de um bioma, de uma comunidade, de uma relação ecológica que está se desfazendo.
Nesta entrevista ao Neo Mondo, Érica Pacífico fala sobre o que o trabalho de campo de longa duração revela sobre a crise de biodiversidade que os relatórios globais não conseguem capturar — e sobre o que falta para que agir localmente deixe de ser exceção e se torne estrutura.
O tema do Dia Internacional da Biodiversidade 2026 é "Agir localmente para um impacto global". Você passou quase duas décadas em campo no Raso da Catarina — uma região que a maioria dos brasileiros não consegue localizar no mapa — para salvar uma espécie que, quando você começou, em 2008, tinha cerca de 800 indivíduos livres na natureza. A arara-azul-de-lear conta hoje com mais do dobro desse número — um dos casos de recuperação de espécie ameaçada mais documentados do Brasil. O que esse caso ensina sobre o que significa, de fato, agir localmente — e por que esse tipo de ação ainda não é a norma?
A expressão "agir localmente, pensar globalmente" surgiu nos anos 1990 para articular como atitudes e estratégias de pequena escala podem reverter processos de degradação com consequências planetárias — a ideia de que cada pessoa, cada grupo, cada projeto, tem uma parte a cumprir na sustentabilidade do planeta. No caso da arara-azul-de-lear, isso se traduz de forma muito concreta: estamos trabalhando com uma espécie de ocorrência restrita, endêmica da Caatinga, que não existe em nenhum outro lugar do mundo. A ação local de conservar essa espécie impacta diretamente os números globais da crise de biodiversidade. Estamos vivendo a sexta extinção em massa — e isso significa que a ação contínua para salvar uma única espécie num território restrito altera o status de conservação das espécies ameaçadas no planeta. Cada espécie salva é uma mudança real nesses números.
A dependência alimentar da arara-azul-de-lear em relação à palmeira licuri — da qual pode consumir mais de 100 cocos por dia — cria uma vulnerabilidade estrutural dupla: a arara depende do licuri, e o licuri está em declínio acelerado em partes do Raso da Catarina, com regeneração natural quase inexistente em algumas áreas. Qual é o estado real dos licurizais hoje, e o que significa, do ponto de vista ecológico, uma arara cujo alimento primário está sumindo antes de ela?
A perda da palmeira licuri não afeta apenas a fonte de alimento da arara-azul-de-lear. Ela desfaz toda uma cadeia de relações mutualísticas que sustentam aquele ecossistema. Os insetos sociais, como as abelhas nativas, polinizam a palmeira. Os roedores que se alimentam dos coquinhos caídos no chão atuam como dispersores de sementes de curta distância. E a própria arara-azul-de-lear exerce o papel de dispersora de longa distância — levando sementes para além das áreas imediatas de alimentação. Se perdemos as araras, comprometemos a capacidade de expansão e reprodução do licuri. Se perdemos o licuri, comprometemos a sobrevivência das araras. É uma cadeia de dependências recíprocas: a ausência de um acelera o desaparecimento do outro, e o ecossistema inteiro perde sua capacidade de se regenerar.
Dezenove anos de monitoramento mostraram que um dos principais problemas de conservação da arara-azul-de-lear é o estado do território onde ela vive e se alimenta — o grau de pressão humana, a invasão por espécies exóticas, a degradação do habitat. Uma das estratégias mais eficazes para mitigar a extinção da espécie sempre foi reduzir a mortalidade direta: impedir a captura de filhotes nos ninhos, conter o abate. Mas há uma ação igualmente importante que até hoje vem sendo negligenciada: proteger as áreas de alimentação. Os licurizais estão espalhados por zonas rurais, em áreas desprotegidas e sujeitas ao desmatamento. Se esse alimento desaparecer, a população que construímos ao longo de anos de trabalho não terá como se sustentar. É preciso pensar em estratégias de política pública que fortaleçam esse território e promovam o uso sustentável pelos sertanejos que vivem nele — porque a coexistência entre as pessoas e as araras é condição, não consequência, da conservação.
A Caatinga é o único bioma exclusivamente brasileiro — e um dos menos protegidos em termos proporcionais, com menos de 10% de sua área em unidades de conservação de proteção integral. O que dezenove anos de monitoramento de longa duração de uma espécie nesse bioma revelam sobre o estado da Caatinga que os índices globais de biodiversidade não conseguem capturar — e por que o bioma mais brasileiro de todos segue sendo tratado como território de segunda categoria nas políticas de conservação do país?
A Caatinga concentra diversas espécies endêmicas e ameaçadas de extinção. É um ambiente que precisa ser protegido para que a gente não perca organismos que não existem em nenhum outro lugar do planeta — várias espécies de plantas e animais, como o soldadinho-do-araripe, o mandacaru, o umbuzeiro e outras que só vivem ali. A criação de unidades de conservação na Caatinga é fundamental, mas não basta o significado cartográfico. O que faz diferença são os planos de manejo desses territórios protegidos — processos que incluam as comunidades que vivem nesses lugares e que integrem conservação da biodiversidade com uso sustentável dos recursos. O mais importante para atingir a meta de proteger 30% das áreas terrestres do planeta é pensar nos planos de manejo e nas formas de uso do território que acomodem as comunidades tradicionais, o uso sustentável dos recursos e as estratégias de proteção da biodiversidade ao mesmo tempo. São processos de longo prazo que exigem planejamento, atenção específica e vontade política.
O Acordo de Kunming-Montreal estabeleceu a meta 30x30 — proteger 30% das áreas terrestres e marinhas do planeta até 2030. No Brasil, o debate sobre essa meta quase sempre se concentra na Amazônia e, em menor grau, no Cerrado. A Caatinga aparece pouco. Ao mesmo tempo, o programa de reintrodução da arara-azul-de-lear no Parque Nacional do Boqueirão da Onça partiu de uma situação extrema: a população local estava funcionalmente extinta — restavam apenas dois indivíduos que haviam cessado a reprodução, tornando a extinção definitiva uma questão de tempo na ausência de qualquer intervenção de manejo. Hoje, filhotes nascidos de indivíduos da primeira leva de soltura já foram registrados em liberdade. O que esse resultado diz sobre o papel das áreas protegidas na reversão da perda de biodiversidade? E o que falta para que a meta 30x30 tenha significado real — não apenas cartográfico?
A criação de unidades de conservação na Caatinga é fundamental para garantir a proteção da biodiversidade — mas não como ato cartográfico. O que transforma uma área protegida em instrumento real de conservação são os planos de manejo: o planejamento do território que inclui as pessoas que moram nesses lugares, que define o melhor uso dos recursos e que incorpora estratégias específicas de proteção da biodiversidade local. Para que a meta 30x30 tenha significado real, o mais importante é pensar em formas de uso do território que acomodem as comunidades tradicionais, o uso sustentável dos recursos e a conservação da biodiversidade de forma integrada. Não são objetivos incompatíveis — mas exigem processos de longo prazo, atenção específica e comprometimento que vão muito além do perímetro desenhado no mapa.
Você desenvolve pesquisa em etnozoologia e trabalha com comunidades locais como parte estrutural do programa de conservação — não como apêndice de comunicação, mas como fonte de dados e como parceiras de monitoramento. O que essas comunidades sabem sobre a arara-azul-de-lear que a ciência ainda não sabe? E o que a ciência precisou aprender a perguntar para acessar esse conhecimento?
No caso da arara-azul-de-lear, os moradores locais são parceiros do monitoramento das populações — não apenas do acompanhamento da sobrevivência das araras, mas também dos impactos que as ameaçam na região. A eletroplessão em redes de energia elétrica é, sem sombra de dúvida, a ameaça número um da espécie hoje. E essas redes estão nas zonas rurais onde vivem as comunidades que têm as araras se alimentando no seu quintal, como parte da paisagem do seu cotidiano — da mesma forma que qualquer pessoa num centro urbano vê periquitos nas árvores. Eles são os moradores daquele território. Quem vive ali enxerga o que os pesquisadores de passagem não enxergam.
A ideia é que essas comunidades estejam cada vez mais próximas e mais conscientes da singularidade dessa espécie — de que ela é endêmica, de que só existe ali —, para que possam colaborar na construção das estratégias que melhorem a coexistência entre as pessoas e as araras. Por mais que tenhamos monitorado as populações por dezenove anos, desenvolvido pesquisas e fundamentado estratégias de conservação, quem está na ponta — monitorando, cuidando e convivendo com os animais no dia a dia — é a comunidade local. Sem essa parceria, o trabalho de campo não se sustenta.
O financiamento da conservação da biodiversidade no Brasil é estruturalmente insuficiente e instável. O Acordo de Kunming-Montreal prevê um aporte global de pelo menos 200 bilhões de dólares anuais em estratégias que beneficiem a biodiversidade até 2030. Na prática, projetos como o seu dependem de uma costura permanente entre fontes públicas, privadas e internacionais — FAPESP, CAPES, ICMBio, Loro Parque Fundación, Fundação Biodiversitas, Voltalia Energia do Brasil, ENEL Green Power, Fundação Grupo O Boticário de Proteção à Natureza e o CNPq, entre outros. E há um capítulo que merece destaque à parte: o Judith Hart Fund, fundo criado a partir da herança integral deixada por Judith Hart após sua morte, inteiramente destinada à proteção da arara-azul-de-lear na Toca Velha — hoje sede da Estação Biológica de Canudos —, tornando-a pioneira e símbolo de um modelo de filantropia de conservação ainda raro no Brasil. O que essa arquitetura de financiamento — frágil em alguns pontos, extraordinária em outros — revela sobre os limites e as possibilidades do financiamento privado e internacional na conservação de espécies endêmicas brasileiras?
A história da arara-azul-de-lear mostra que diversas fontes de fomento públicas foram determinantes para a conservação da espécie ao longo do tempo. E hoje vemos parceiros corporativos como a Seguros Unimed, a ENEL Green Power e a Voltalia Energia do Brasil demonstrando responsabilidade concreta com a conservação da arara e com o território que ocupam. É muito significativo ver essa postura das organizações privadas — e ela revela algo importante: empresas com maior capacidade de captação de recursos podem e devem aportar parte desses recursos na conservação da biodiversidade. Isso importa especialmente quando a escala do projeto exige uma infraestrutura que o financiamento de agências de pesquisa, por si só, não sustenta.
O projeto de reintrodução no Parque Nacional do Boqueirão da Onça é um exemplo preciso: a infraestrutura necessária para a soltura não se viabiliza com recursos limitados. A escala do financiamento muda quando entram empresas e corporações — e isso permite projetos grandes, de longa duração, com continuidade real. A pesquisa aplicada com a arara-azul-de-lear passou por diversas fases. Cada uma exigiu fontes e parceiros diferentes. O que a trajetória desse projeto demonstra é que a conservação de espécies endêmicas no Brasil depende de uma arquitetura de financiamento diversificada, que combine ciência pública, filantropia privada e responsabilidade corporativa — porque nenhuma dessas fontes, isolada, tem a escala ou a perenidade que o trabalho exige.
Em 2026, a biodiversidade deixou definitivamente de ser tema exclusivo da biologia para se tornar questão de risco econômico, segurança alimentar e estabilidade geopolítica. A TNFD exige que empresas e investidores mapeiem sua dependência de ecossistemas. O Banco Central do Brasil já iniciou avaliações de risco socioambiental no sistema financeiro. E a arara-azul-de-lear — uma ave que só existe num corredor de caatinga no norte da Bahia — foi o elemento que trouxe diretores de uma das maiores seguradoras do Brasil para o campo, às 4h30 da manhã, a fim de entender o que está em jogo. O que esse encontro entre a finança e a natureza viva significa para você — e o que a biologia da conservação ainda precisa aprender a dizer para que essa conversa se torne estrutural, não eventual?
A biologia da conservação é uma disciplina multidisciplinar e transdisciplinar por definição — ela mobiliza diversos setores da sociedade para agir em favor da conservação. Essa visita de diretores ao sertão da Bahia para conhecer a realidade da espécie é exatamente isso: a biologia da conservação acontecendo de fato, atingindo escalas da sociedade que vão além da academia e dos diretamente envolvidos com o meio ambiente. É o que se quer — que pessoas capazes de manejar recursos se interessem como cidadãos pela conservação da biodiversidade.
É um exemplo de que os trabalhos de conservação da arara-azul-de-lear estão alcançando camadas da sociedade que nunca imaginaram estar num lugar tão distante e tão difícil de chegar. Isso se deve, em grande parte, à comunicação. Quanto mais os resultados da pesquisa e da conservação chegam a pessoas que não são especialistas, mais gente se sensibiliza, se interessa em conhecer a realidade e compreende que é preciso investir na conservação da biodiversidade brasileira. A comunicação científica não é um acessório do trabalho de conservação. É parte estrutural dele.
Quando a entrevista termina, o tema do Dia Internacional da Biodiversidade 2026 — "Agir localmente para um impacto global" — ressoa de outra forma. Não como slogan, mas como diagnóstico. O que Érica Pacífico descreve ao longo desta conversa não é um caso de sucesso isolado. É a demonstração de que a recuperação de biodiversidade é possível quando três condições se combinam: presença científica de longo prazo, governança territorial com as comunidades locais e financiamento que não desaparece no primeiro ciclo eleitoral.
Essas três condições são, simultaneamente, o que o Acordo de Kunming-Montreal propõe em escala global e o que mais falta na prática cotidiana da conservação brasileira. A distância entre o acordo e a ação — para usar a linguagem da própria CDB — não é técnica. É política. É orçamentária. É a distância entre assinar um compromisso e estar presente, às quatro da manhã, no lugar onde a biodiversidade ainda existe e ainda pode ser salva.
A arara-azul-de-lear voltou. O licuri que a sustenta está envelhecendo sem se renovar. A Caatinga que abriga os dois continua sendo o bioma menos protegido do Brasil em termos proporcionais. A natureza não emite comunicados de crise. Ela simplesmente para de funcionar — e a conta, como Érica Pacífico sabe melhor do que quase ninguém, aparece muito depois, quando reverter já custa muito mais do que prevenir.
Este conteúdo integra o especial A Teia da Vida: Biodiversidade, Risco e o Futuro do Planeta, produzido pelo Neo Mondo para aprofundar o debate sobre a biodiversidade como um dos principais desafios ambientais, econômicos e civilizatórios do século XXI. Um especial Neo Mondo em parceria com a Seguros Unimed.

A biodiversidade é o maior ativo estratégico nacional
Índice + As Vozes da Biodiversidade