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A pele como ecossistema: o que a crise da biodiversidade revela sobre a nossa maior barreira imunológica

Escrito por Neo Mondo | 22 de maio de 2026

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Pele e biodiversidade compartilham a mesma história. A saúde da nossa microbiota cutânea começa nos solos, nas florestas, na água e nos ecossistemas que ainda preservam a diversidade invisível da vida - Foto: Ilustrativa/Magnific

POR - DRA. MARCELA BARALDI*, COLUNISTA DO NEO MONDO

Em 2006, pesquisadores do Skin Microbiome Consortium identificaram mais de mil espécies bacterianas distintas habitando a superfície do corpo humano. Dois terços delas ainda não tinham nome. Hoje, duas décadas depois, sabe-se que esse universo invisível — chamado microbioma cutâneo — não é apenas uma comunidade de microrganismos tolerados pela pele. É parte constitutiva da sua função imunológica, da sua capacidade de reparação e da sua resistência a processos inflamatórios. E está encolhendo.

Não por acaso. A perda de biodiversidade microbiana na pele humana acompanha, com precisão perturbadora, a perda de biodiversidade nos ecossistemas que nos cercam. O solo empobrecido pelo uso massivo de pesticidas, os corpos d'água contaminados por resíduos industriais, as florestas fragmentadas que deixam de liberar no ar a sua nuvem complexa de compostos orgânicos voláteis — tudo isso altera o reservatório microbiano ambiental do qual o microbioma humano se alimenta desde o nascimento. A pele não é impermeável à crise ecológica. Ela é o seu registro mais imediato e mais íntimo.

A dermatologia começou tarde a fazer essa conexão. Durante décadas, doenças como dermatite atópica, rosácea e psoríase foram tratadas como disfunções individuais — genéticas, hormonais, alérgicas — sem que a medicina se perguntasse o que havia mudado no ambiente que explicasse o aumento expressivo da sua prevalência nas últimas três décadas. Os dados são difíceis de ignorar: a prevalência global de dermatite atópica cresceu entre 2% e 3% ao ano desde os anos 1990, com as maiores taxas de aceleração em regiões de urbanização acelerada e declínio de cobertura vegetal. A hipótese da higiene, formulada pelo epidemiologista David Strachan em 1989, apontou na direção certa — menos exposição microbiana na infância, maior vulnerabilidade imunológica — mas subestimou a escala do problema. Não se trata de higiene individual. Trata-se de empobrecimento ecológico sistêmico.

O mecanismo é progressivamente mais compreendido. O microbioma cutâneo humano não se forma no vácuo: ele é colonizado, modulado e renovado ao longo da vida por microrganismos provenientes do ambiente — do solo que tocamos, do ar que respiramos, da água que nos banha, das superfícies com as quais convivemos. Quando esses reservatórios ambientais perdem diversidade — o que acontece de forma acelerada em ecossistemas degradados —, o microbioma da pele empobrece junto. E um microbioma cutâneo empobrecido é um microbioma menos capaz de competir com patógenos oportunistas, de regular a resposta inflamatória e de manter a integridade da barreira epidérmica.

Pesquisas recentes do Instituto Finlandês de Saúde e Bem-Estar, publicadas entre 2020 e 2023, documentaram esse processo em populações de agricultores que mantêm biodiversidade vegetal alta em suas propriedades: seus microbiomas cutâneos apresentaram sistematicamente maior riqueza de espécies e menor incidência de condições inflamatórias crônicas do que populações urbanas equivalentes em renda e acesso a serviços de saúde. O diferencial não era genético. Era ecológico.

É nesse ponto que a cosmética entra — e onde a maior parte da indústria continua a errar. O mercado de ecobeauty cresceu de forma explosiva na última década, mas cresceu largamente como fenômeno estético e de marketing, não como resposta científica a um problema ecológico real. Produtos que se apresentam como "naturais", "verdes" ou "sustentáveis" frequentemente extrativam bioativos de ecossistemas frágeis sem nenhum compromisso com a repartição de benefícios prevista pelo Protocolo de Nagoya — e sem qualquer evidência clínica de que sua ação sobre o microbioma cutâneo é positiva ou sequer neutra. A natureza como ingrediente, não como sistema: é a lógica que a crise de biodiversidade deveria ter tornado obsoleta, mas que persiste como modelo dominante.

A nova fronteira da cosmética de base científica vai em outra direção. A biotecnologia de fermentação permite replicar bioativos de origem vegetal sem extração direta de espécies ameaçadas. Formulações desenvolvidas a partir de pesquisa microbiômica — algumas já disponíveis no mercado brasileiro, outras ainda em fase clínica — buscam não esterilizar ou simplificar o microbioma cutâneo, mas apoiar sua diversidade. A distinção é terapêutica: entre uma cosmética que promete uma pele sem micróbios e uma cosmética que promete uma pele com o microbioma certo. A primeira nega a biologia. A segunda a respeita.

Essa distinção tem nome na literatura científica: cosmética pró-microbioma. E ela exige, para ser feita com seriedade, que a indústria aceite uma premissa incômoda: que a saúde da pele não pode ser dissociada da saúde dos ecossistemas que sustentam o reservatório microbiano da espécie humana. Que formular um produto para a pele sem considerar de onde vêm seus ingredientes, como foram obtidos e qual é o seu impacto sobre a biodiversidade local não é apenas uma questão ética ou de compliance. É uma questão de eficácia.

A pele é o maior órgão do corpo humano. É também o único que existe na interface entre o organismo e o mundo — exposto, permeável, em diálogo permanente com o ambiente. Tratar a crise de biodiversidade como um problema externo, distante, pertinente a florestas e oceanos, mas não ao corpo, é uma forma de dissociação que a biologia não autoriza. O que estamos perdendo nos ecossistemas, estamos perdendo também em nós. E o que conseguirmos preservar lá fora — a diversidade dos solos, das florestas, dos corpos d'água — é também o que sustentará a complexidade microbiana que a nossa pele precisa para funcionar.

Esta é a conexão que a dermatologia precisa levar ao consultório, ao desenvolvimento de produto, à política regulatória e à conversa pública sobre biodiversidade. Não como metáfora. Como fisiologia.

Este conteúdo integra o especial A Teia da Vida: Biodiversidade, Risco e o Futuro do Planeta, produzido pelo Neo Mondo para aprofundar o debate sobre a biodiversidade como um dos principais desafios ambientais, econômicos e civilizatórios do século XXI. Um especial Neo Mondo em parceria com a Seguros Unimed.

foto da dra marcela baraldi, autora do artigo A pele como ecossistema: o que a crise da biodiversidade revela sobre a nossa maior barreira imunológica
Dra. Marcela Baraldi – Foto: Arquivo pessoal

*Dra. Marcela Baraldi é médica dermatologista, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia, com atuação no corpo clínico do Hospital Israelita Albert Einstein e em consultório particular. Atualmente, cursa MBA em Estratégia e Gestão de Negócios pela Fundação Getulio Vargas. É colunista do portal Neo Mondo. CRM: 151733 | RQE: 66127.

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