Dia Internacional da Biodiversidade 2026
Escrito por Neo Mondo | 22 de maio de 2026
Fragmentação da responsabilidade. O lixo muda de lugar, mas os impactos permanecem no mesmo planeta - Foto: Ilustrativa/Magnific
POR - CARLOS ALFREDO JOLY*
As primeiras décadas do século XXI deixaram claro que as crises ambientais não ocorrem de forma isolada. A perda de biodiversidade, as mudanças climáticas, a desertificação e a degradação dos oceanos fazem parte de um mesmo sistema de pressões que se reforçam mutuamente.
Essa conexão é especialmente evidente no Brasil, país que abriga uma das maiores biodiversidades do planeta, grandes estoques de carbono, cerca de 5,7 milhões de km² de Amazônia Azul e algumas das fronteiras socioambientais mais dinâmicas do mundo.
Ao mesmo tempo em que o conhecimento científico sobre ecossistemas, clima e soluções sustentáveis avança rapidamente, as políticas públicas e os mecanismos de governança continuam fragmentados. O resultado é uma distância crescente entre o que já sabemos e o que efetivamente colocamos em prática.
Para enfrentar esses desafios, é necessário adotar uma visão integrada, capaz de conectar ambientes terrestres, costeiros e marinhos, bem como de aproximar políticas ambientais, econômicas e sociais. Florestas, solos, rios e oceanos formam um único continuum socioecológico. Reconhecer essa interdependência não é apenas uma exigência científica, mas também uma necessidade econômica, social e política.
A Amazônia é reconhecida como um dos principais reguladores do clima global. Mas seu funcionamento não pode ser compreendido apenas olhando para a floresta. A região depende de uma interação permanente entre a terra, a atmosfera e o oceano.
Pesquisas recentes mostram que a Amazônia já sofre os impactos combinados do desmatamento, das queimadas e das mudanças climáticas. Essas pressões reduzem a biodiversidade, alteram o regime de chuvas e aumentam a frequência de eventos extremos.
O ciclo hidrológico amazônico está diretamente ligado ao Oceano Atlântico. A umidade do oceano alimenta as chuvas sobre a floresta, enquanto a própria vegetação devolve água à atmosfera por evapotranspiração. Alterações nesse equilíbrio — seja pelo aquecimento dos oceanos ou pela destruição da floresta — podem gerar efeitos em cascata em toda a região.
Os rios também desempenham um papel central nessa conexão. Eles transportam sedimentos, nutrientes e poluentes das áreas continentais até os estuários e os ecossistemas costeiros. Assim, mudanças no uso da terra, como desmatamento, mineração, urbanização e expansão agrícola, afetam diretamente a saúde dos ambientes marinhos.
O excesso de nutrientes pode provocar eutrofização e a redução da concentração de oxigênio na água, enquanto sedimentos em excesso diminuem a transparência e prejudicam os recifes de coral. Poluentes como agroquímicos, metais pesados, esgoto e microplásticos podem acumular-se na cadeia alimentar, comprometendo a biodiversidade e a pesca.
Grandes barragens, como as de Tucuruí e Belo Monte, também alteram profundamente a dinâmica dos rios. Elas modificam o fluxo de água, retêm sedimentos e afetam estuários e manguezais. Essas mudanças podem intensificar a intrusão de água salgada e alterar fenômenos naturais, como a pororoca.
Embora esses processos dependam de múltiplos fatores ambientais, os impactos de Belo Monte sobre a biodiversidade e o modo de vida das populações da Volta Grande do Xingu já são amplamente reconhecidos.
Enxergar a Amazônia como um sistema integrado entre terra, atmosfera e oceano muda a forma de pensar a governança ambiental e reforça a necessidade de políticas conectadas entre os ambientes terrestres e marinhos.
2 - Biodiversidade além da terra firme
A biodiversidade brasileira vai muito além das florestas, campos e cerrados. Os ecossistemas marinhos e costeiros — como manguezais, recifes de coral, bancos de plantas e algas marinhas e habitats demersais — também são extremamente ricos e estão sob forte pressão.
Corais ao longo da costa brasileira vêm sofrendo com o aumento da temperatura dos oceanos, enquanto aves marinhas ingerem microplásticos e outros contaminantes persistentes. Os ambientes aquáticos acumulam poluentes de forma crescente, reproduzindo no mar os impactos já observados em ecossistemas terrestres.
Assim como incêndios e secas remodelam as florestas, o aquecimento, a poluição e a acidificação transformam os oceanos. Embora os impactos ocorram de maneiras diferentes, a origem é a mesma: atividades humanas que ultrapassam os limites de resiliência dos ecossistemas.
Os sistemas terrestres e marinhos estão profundamente conectados. Manguezais, por exemplo, funcionam como berçários para espécies de peixes importantes para a pesca artesanal e comercial. Também protegem o litoral contra ressacas e armazenam grandes quantidades de carbono.
Por isso, a perda de biodiversidade em qualquer parte desse sistema gera impactos em cadeia. Proteger a biodiversidade exige uma abordagem integrada entre terra e mar.
3 - Carbono: da vegetação nativa aos oceanos
As estratégias climáticas costumam focar principalmente na vegetação nativa como reservatório de carbono. Embora isso seja fundamental, o ciclo do carbono envolve muitos outros componentes.
Os solos armazenam enormes quantidades de carbono, mas mudanças no uso da terra vêm reduzindo essa capacidade. Recuperar a saúde do solo pode contribuir simultaneamente para a mitigação climática e para o aumento da produtividade agrícola.
Os ecossistemas costeiros e marinhos acrescentam outra dimensão importante. Manguezais e bancos de plantas marinhas — conhecidos como ecossistemas de “carbono azul” — estão entre os ambientes mais eficientes do planeta na captura e armazenamento de carbono.
Ao mesmo tempo, o aquecimento e a acidificação dos oceanos reduzem a capacidade dos mares de absorver carbono. Isso reforça a importância de incluir os oceanos nas estratégias climáticas e de conservação da biodiversidade.
Uma gestão eficiente do carbono precisa considerar todo esse continuum, dos solos e florestas aos ecossistemas costeiros e marinhos.
4 - Desigualdade social e vulnerabilidade ambiental
A degradação ambiental está diretamente ligada às desigualdades sociais e econômicas. No Brasil, áreas com altas taxas de desmatamento frequentemente apresentam baixos indicadores de renda e de qualidade de vida, refletindo ciclos de desenvolvimento insustentável.
Nas regiões costeiras, as comunidades dependentes da pesca também enfrentam uma crescente vulnerabilidade. Sobrepesca, poluição e mudanças climáticas ameaçam a segurança alimentar e os meios de subsistência de milhões de pessoas.
As cadeias globais de consumo ampliam essas conexões. Madeira ilegal extraída na Amazônia, por exemplo, pode abastecer mercados internacionais de alto padrão, mostrando como padrões de consumo distantes influenciam diretamente os impactos ambientais locais.
Ao mesmo tempo, os benefícios da conservação ambiental são distribuídos de forma desigual. Superar essas disparidades exige políticas que integrem desenvolvimento econômico, inclusão social e proteção ambiental.
5 - O desafio da governança fragmentada
Um dos maiores obstáculos para enfrentar as crises ambientais é a fragmentação institucional. As políticas de biodiversidade, clima, desertificação e oceanos ainda são planejadas separadamente, com pouca coordenação entre setores e governos.
Isso gera contradições frequentes. Incentivos à expansão agrícola podem enfraquecer ações de conservação, enquanto projetos de crescimento costeiro podem entrar em conflito com a proteção marinha.
Instrumentos inovadores, como os mercados de carbono associados à restauração florestal, representam avanços importantes. Porém, mecanismos semelhantes voltados aos ecossistemas marinhos ainda são pouco desenvolvidos.
Integrar a Amazônia Azul às estratégias nacionais e internacionais exige superar essas barreiras e criar estruturas de governança capazes de conectar terra e mar.
6 - Ciência, inovação e conhecimentos tradicionais
A ciência vem ampliando a compreensão dos sistemas socioecológicos e oferecendo novas ferramentas para a sustentabilidade. Pesquisas multidisciplinares, monitoramento ambiental e integração entre ciências naturais e sociais são essenciais para enfrentar desafios complexos.
Os conhecimentos indígenas e tradicionais também desempenham um papel decisivo. Em muitos casos, essas populações já utilizam práticas integradas de manejo da terra e dos recursos naturais, oferecendo lições importantes para modelos de desenvolvimento sustentáveis.
A inovação não depende apenas de novas tecnologias. Ela também envolve novos modelos de governança, financiamento e organização social, capazes de alinhar a economia à sustentabilidade.
7 - Caminhos para soluções integradas
Apesar dos desafios, há oportunidades concretas para construir soluções integradas entre terra e mar.
Soluções baseadas na natureza podem gerar múltiplos benefícios simultaneamente. A restauração de manguezais, por exemplo, contribui para a conservação da biodiversidade, o armazenamento de carbono e a proteção das comunidades costeiras.
Práticas agrícolas sustentáveis — como agroflorestas, agricultura regenerativa, orgânica e biodinâmica — podem reduzir a pressão sobre a vegetação nativa, melhorar a qualidade do solo e proteger os recursos hídricos.
Inovações tecnológicas, como a agricultura de precisão, a inteligência artificial, os drones, os bioinsumos e o sensoriamento remoto, ajudam a reduzir os impactos ambientais. Na pesca, redes biodegradáveis e rastreáveis, e tecnologias mais seletivas, podem reduzir a captura acidental de espécies e a chamada “pesca fantasma”.
Integrar a Amazônia Verde — formada pelos ecossistemas terrestres, de água doce e pela sociobiodiversidade — com a Amazônia Azul — composta pelos sistemas costeiros e marinhos — exige uma visão unificada e coordenada.
Essa abordagem está alinhada aos grandes acordos ambientais globais, mas vai além deles ao reconhecer que a biodiversidade, o clima, a desertificação e os oceanos compõem um único sistema interdependente. O Brasil reúne condições únicas para liderar essa integração.
O futuro depende da integração
O século XXI exige uma mudança profunda na forma como entendemos e governamos a relação entre a sociedade e a natureza. Já não faz sentido tratar biodiversidade, clima, desertificação e oceanos como agendas separadas. Essas crises compartilham as mesmas causas, produzem impactos interligados e só poderão ser enfrentadas por meio de soluções igualmente integradas.
O Brasil ocupa uma posição estratégica nesse debate global. Poucos países concentram simultaneamente tamanha diversidade biológica, disponibilidade de água doce, capacidade de armazenamento de carbono, riqueza costeiro-marinha e diversidade sociocultural. Essa condição traz responsabilidades, mas também oportunidades históricas.
Integrar Amazônia Verde e Amazônia Azul, conectar políticas públicas, aproximar ciência e saberes tradicionais e alinhar o desenvolvimento econômico à conservação ambiental não é mais uma escolha opcional — é uma condição para garantir a segurança climática, alimentar, hídrica e social nas próximas décadas.
A fragmentação institucional e a lógica de curto prazo pertencem ao passado. O futuro dependerá da capacidade de construir uma visão sistêmica, capaz de reconhecer que rios, florestas, solos, cidades, zonas costeiras e oceanos fazem parte de um mesmo organismo vivo e interdependente.
Este conteúdo integra o especial A Teia da Vida: Biodiversidade, Risco e o Futuro do Planeta, produzido pelo Neo Mondo para aprofundar o debate sobre a biodiversidade como um dos principais desafios ambientais, econômicos e civilizatórios do século XXI. Um especial Neo Mondo em parceria com a Seguros Unimed.

Carlos Alfredo Joly é biólogo, professor emérito da Unicamp, membro titular da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e da Academia de Ciências do Estado de São Paulo (Aciesp), além de coordenador da Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES).

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