Dia Internacional da Biodiversidade 2026
Escrito por Neo Mondo | 22 de maio de 2026
Escolhas moldam futuros. Entre a responsabilidade de proteger a vida e a tentação de ignorar seus limites, cada decisão de hoje ajuda a definir o planeta que existirá amanhã - Foto: ilustrativa/Magnific
POR - DANIEL MEDEIROS*, CONSELHEIRO E COLUNISTA DE NEO MONDO
Foi Winston Churchill quem disse que a democracia é a pior forma de governo, à exceção de todas as demais.Como era próprio desse político sagaz, a frase não crava uma nota dez na Democracia, só a coloca à frente de suas concorrentes.
O recado é claro: há muito o que melhorar. E uma das coisas sobre a qual precisamos conversar é sobre a responsabilidade dos governos eleitos democraticamente em relação aos danos que provocam, por ação ou omissão, ao conjunto das coisas vivas que não votaram neste político, mas que, mesmo assim, têm sua existência posta em risco por suas políticas reacionárias. Será que um governo eleito para 4 anos de mandato teria o direito de dar ordens ou criar leis que colocam em risco a existência de seres vivos de forma permanente, impedindo um futuro para eles?
O desaparecimento das variedades genéticas de espécies e da variedade de ambientes para o seu desenvolvimento se dá em uma velocidade espantosa.E para isso acontecer como vem acontecendo não é preciso uma ação específica sobre um determinado lugar ou espécie. Como a vida no planeta funciona como um grande jogo de armar, uma vareta do clima que seja alterada por uma política em favor dos combustíveis fósseis nos EUA pode destruir, por exemplo, uma quantidade enorme de vida submarina na Ásia ou na Oceania. E muito mais.
Em dezembro de 2022, 196 países assinaram o Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal ,que estabelece 23 metas para 2030 e quatro objetivos globais para 2050, com o propósito urgente de reverter a perda da natureza e evitar o ponto sem retorno, aquele no qual não haverá mais problema porque não haverá mais solução possível. Sua meta mais ambiciosa é proteger e conservar pelo menos 30% das terras, oceanos e águas continentais do planeta até 2030. E investir muito dinheiro nessa meta, muito dinheiro, para garantir que o planeta continue resistindo.
Mas de lá pra cá, as populações de alguns dos países mais importantes nesse jogo delicado resolveram escolher governantes que não parecem sustentar um interesse genuíno na continuação das coisas vivas por aqui. E o principal exemplo, não há como não notar, são os Estados Unidos. Também a América Latina, onde se localizam ecossistemas fundamentais para todos os que pretendem continuar respirando, vem preferindo votar em governos que minimizam os efeitos potencialmente devastadores da destruição da biodiversidade e ameaçam não apenas programas mas também pesquisa e formação. É de se pensar , por qual razão, toda a ênfase de Jesus na Vida não tenha surtido efeito entre os neo cristãos do século XXI, engajados em uma pauta antiecológica e antidiversidade de qualquer espectro. São esses grupos, particularmente, os responsáveis por essa guinada reacionária em muitos países chaves para o cumprimento das metas do Acordo e para segurar o desastre por mais algum tempo.
Além disso, como se não fosse o suficiente: o governo Trump iniciou uma guerra no Oriente Médio, ainda sem solução aparente, que encareceu os mercados mundiais sob diversos aspectos, em um dominó no qual a alta do barril de petróleo acaba diminuindo a margem orçamentária para qualquer investimento de longo prazo, obrigando países com governos mais responsáveis a repensar seus planos de financiamento para o desenvolvimento de energia limpa ou de recuperação de áreas desertificada, ou de ajuda humanitária ou ainda de medidas de controle e proteção de rios e oceanos.
A guerra iniciada pelo presidente Putin há mais de quatro anos obrigou diversos países europeus a repensar seus orçamentos de defesa e realocar recursos para melhorar seus sistemas de proteção diante da ameaça de uma generalização do conflito localizado na Ucrânia.
Há muitas demandas que desviam a atenção para o problema principal e amortecem o entusiasmo dos que enxergam a escuridão no fim do túnel. A meta global acordada em Kunming -Montreal era de 200 bilhões de dólares por ano até 2030. Até aqui, efetivamente, os repasses internacionais diretos para projetos de maior urgência não chegou a 1 bilhão de dólares ao ano.
Churchill foi um herói do chamado “mundo livre”, ao deter o avanço genocida do regime nazista , resistindo aos seus ataques e , ao mesmo tempo, ao seu assédio para uma rendição que consolidaria o poder de Hitler sobre a Europa. O que parecia impossível foi conseguido. Nunca tantos deveram tanto a tão poucos, disse ele em referência aos pilotos da Royal Air Force (RAF) que conseguiram impedir os planos de invasão da Inglaterra. Porém, ao final da guerra, os ingleses não queriam mais fazer sacrifícios e Churchill perdeu as eleições, e deixou o governo. Ficou o legado de uma época de urgência na qual a única coisa que ele podia prometer era “sangue, suor e lágrimas”. Para que depois, na fase da bonança, os que se sacrificaram pudessem dispensar os seus serviços.
Hoje vivemos essa equação ao contrário. Enquanto o planeta exige sacrifícios em nome da casa comum, eleitores de muitos países fecham-se em concha e acreditam que se mantiverem suas portas e janelas fechadas, o inimigo não os assaltara. Imaginem se os ingleses tivessem feito essa aposta? Teriam colhido cinzas.
Que esse não seja o preço a pagar por nossas escolhas equivocadas.
Este conteúdo integra o especial A Teia da Vida: Biodiversidade, Risco e o Futuro do Planeta, produzido pelo Neo Mondo para aprofundar o debate sobre a biodiversidade como um dos principais desafios ambientais, econômicos e civilizatórios do século XXI. Um especial Neo Mondo em parceria com a Seguros Unimed.

Daniel Medeiros - Advogado e especialista em Filosofia Contemporânea pela PUCPR. Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR. Pós doutorando em Bioética pela PUCPR. Professor da Especialização em Filosofia do Direito, da Escola de Direito, e Especialização em Neurociência e Educação, da Escola de Educação e Humanidades da PUCPR. Autor da Coluna Cuidados Humanos, da revista Humanitas. Conselheiro e colunista do portal Neo Mondo.

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