Dia Internacional da Biodiversidade 2026
Escrito por Neo Mondo | 22 de maio de 2026
Finanças e natureza. O mercado começa a reconhecer que o valor dos ativos depende da integridade dos ecossistemas que sustentam a água, o clima, a produção e a própria economia - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Neo Mondo
POR - REDAÇÃO NEO MONDO
Em setembro de 2023, o Grupo de Trabalho sobre Divulgações Financeiras Relacionadas à Natureza (do inglês, Taskforce on Nature-related Financial Disclosures, TNFD) publicou seu framework mais recente. Dois anos de trabalho técnico de mais de mil especialistas de 58 países, envolvendo bancos, seguradoras, fundos de pensão, empresas e reguladores, resultaram em um sistema de recomendações para que instituições financeiras e empresas meçam, relatem e gerenciem sua dependência e exposição ao risco de natureza. Não foi um ato de filantropia corporativa. Foi a resposta de uma parcela da indústria financeira a uma pergunta que ela já não conseguia evitar: quanto do valor dos ativos sob gestão está exposto à degradação dos ecossistemas que nenhum modelo de risco vigente consegue precificar?
A resposta, em qualquer metodologia disponível, é perturbadora.
O Banco Central da Holanda publicou, em 2020, um estudo que se tornou referência na literatura emergente sobre risco de biodiversidade: estimou que as instituições financeiras holandesas tinham exposição de 510 bilhões de euros a setores com alta ou muito alta dependência de serviços ecossistêmicos. O Banco da França realizou um exercício semelhante e chegou a conclusões análogas. Em 2021, o Banco Central do Brasil iniciou seus próprios trabalhos de avaliação de risco socioambiental no sistema financeiro, incluindo a primeira análise quantitativa da exposição de bancos brasileiros ao desmatamento e seus reflexos na cadeia produtiva da carne bovina —setor que responde por cerca de 20% do crédito rural do país.
O que a TNFD formaliza é uma arquitetura de análise que trata a natureza não como externalidade, mas como variável de risco financeiro mensurável. As quatro categorias centrais do framework — dependências da natureza, efeitos sobre a natureza, riscos associados e oportunidades — espelham deliberadamente a estrutura do TCFD climático, com a diferença de que o risco de natureza é, em muitos aspectos, mais complexo de modelar do que o risco climático. Clima tem um indicador central razoavelmente bem definido — concentração de CO₂ e temperatura média global —; biodiversidade tem dezenas de indicadores relevantes, cada um com distribuição geográfica específica e relações de dependência que variam por setor, por cadeia produtiva e por localização.
O mercado de créditos de biodiversidade — ainda mais embrionário do que o mercado voluntário de carbono — emerge nesse contexto como uma tentativa de criar mecanismos de financiamento direto da conservação por meio de instrumentos que o mercado de capitais possa transacionar. A diferença fundamental em relação ao crédito de carbono está na adicionalidade e na especificidade geográfica: um crédito de biodiversidade precisa demonstrar um ganho mensurável em um local específico, sob metodologias que ainda estão sendo padronizadas por organismos como a Gold Standard e por iniciativas nacionais em desenvolvimento no Brasil.
O que já se pode observar é o movimento de portfólios. Fundos de pensão europeus com mandatos de sustentabilidade começaram a incluir métricas de dependência de natureza nas análises de risco de investimento. Na prática, isso se traduz em desinvestimento de setores com alta exposição a riscos à biodiversidade, sem plano de mitigação verificável, e em aumento da alocação em empresas com estratégias robustas de gestão de dependências naturais.
No Brasil, esse movimento é incipiente, mas perceptível. O mercado de capitais brasileiro, especialmente após as discussões regulatórias da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) sobre relatórios de sustentabilidade e as exigências crescentes de due diligence de investidores internacionais com exposição ao agronegócio e ao setor florestal, começa a incorporar perguntas que há cinco anos não apareciam nas análises: qual é a exposição desta empresa a territórios com vegetação nativa? Qual é a sua dependência de polinizadores, de água proveniente de bacias hidrográficas específicas e de regulação climática local por sistemas florestais adjacentes?
A fronteira ESG, sigla em inglês que designa aspectos ambientais (Environmental), sociais (Social) e de governança (Governance), não avançou apenas em direção ao social e à governança. Ela está avançando em direção à natureza — e o que o mercado ainda não vê, o regulador europeu já exige que ele comece a ver.
Este conteúdo integra o especial A Teia da Vida: Biodiversidade, Risco e o Futuro do Planeta, produzido pelo Neo Mondo para aprofundar o debate sobre a biodiversidade como um dos principais desafios ambientais, econômicos e civilizatórios do século XXI. Um especial Neo Mondo em parceria com a Seguros Unimed.

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