Dia Internacional da Biodiversidade 2026

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Dia internacional da
Biodiversidade 2026

O oceano que decidimos não ver

Escrito por Neo Mondo | 22 de maio de 2026

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Oceano como destino. Nathalie Gil defende uma mudança de perspectiva: compreender que proteger a biodiversidade marinha não é uma causa setorial, mas uma condição para a estabilidade climática, ecológica e humana do planeta - Foto: Sea Shepherd Brasil/Divulgação

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

Setenta por cento do planeta é oceano. O oceano produz entre 50% e 80% do oxigênio que a humanidade respira. Absorve 90% do calor excedente da atmosfera e um quarto de todo o dióxido de carbono emitido desde a industrialização. Abriga a maior biodiversidade do planeta — incluindo ecossistemas inteiros que a ciência ainda não catalogou, em profundidades que nenhum satélite consegue monitorar e nenhuma política pública alcançou de forma consistente. E ainda assim, quando o mundo se reúne no Dia Internacional da Biodiversidade para discutir o estado da vida na Terra, o oceano quase sempre aparece tarde, pouco e à margem.

Essa ausência não é acidental. É estrutural. Ela reflete uma divisão cognitiva que a humanidade construiu ao longo de séculos entre o mundo que habita e o mundo que depende — e que a crise de biodiversidade agora força a rever, com urgência que os acordos internacionais reconhecem mais rápido do que as culturas políticas conseguem absorver.

Nathalie Gil conhece esse descompasso de dentro. Formada em Comunicação, Ciências Sociais, Filosofia e Desenvolvimento Internacional, passou mais de 16 anos no setor privado antes de embarcar, literalmente, num navio de conservação da Sea Shepherd no México — como marinheira, chefe de convés e responsável de mídia. Voltou ao Brasil em 2019 para desenvolver a Expedição Boto da Amazônia e, desde 2020, preside a Sea Shepherd Brasil, uma das organizações de proteção marinha mais atuantes do país, com frentes que vão da fiscalização de crimes ambientais no oceano ao monitoramento de golfinhos em rios amazônicos — e da disputa pela criação de áreas marinhas protegidas ao enfrentamento do Brasil como maior consumidor mundial de tubarões.

Ela não é cientista. É estrategista — o que, neste caso, significa alguém treinado para entender o que move sistemas, onde estão os pontos de alavancagem e por que certas verdades, mesmo quando verificadas, não conseguem mudar comportamentos. É exatamente esse olhar que esta entrevista convoca, num Dia Internacional da Biodiversidade cujo tema oficial — "Agir localmente para um impacto global" — soa especialmente preciso quando aplicado ao oceano: o sistema mais global do planeta, que só pode ser salvo por decisões que comecem aqui, agora, neste país que banha mais de 7.400 quilômetros de costa e ainda não aprendeu a tratar o mar como parte de si.

Acho que esse é exatamente o grande desafio da sociedade moderna: nós nos desconectamos da percepção de que somos natureza. Povos indígenas e comunidades tradicionais ainda mantêm essa compreensão biocêntrica do mundo, mas a sociedade industrial passou séculos compartimentalizando tudo — criando fronteiras, classificações e divisões artificiais.

O tema do Dia Internacional da Biodiversidade 2026 é “Agir localmente para um impacto global”. O oceano cobre 70% do planeta, produz entre 50% e 80% do oxigênio que respiramos, absorve 90% do calor excedente da atmosfera e abriga a maior biodiversidade do planeta. E ainda assim, quando se fala em crise de biodiversidade, o debate quase sempre começa e termina em terra firme — Amazônia, Cerrado, fauna terrestre. Você chama o oceano de “maioria-minoria do ambientalismo”. O que esse apagamento revela sobre como a humanidade ainda entende — ou falha em entender — o que é biodiversidade?

O oceano sofre profundamente com isso. Primeiro porque ele está distante da experiência cotidiana da maior parte das pessoas. Existe muito desconhecimento sobre a biodiversidade marinha e uma dissociação emocional em relação à vida oceânica. Diferentemente de mamíferos terrestres, os animais marinhos são vistos como algo “alienígena”, distante, quase abstrato.

Criamos uma sociedade de costas para o mar. Tratamos o oceano como um fundo de quintal onde despejamos tudo aquilo que não queremos ver: plástico, toxinas, esgoto, carbono, calor. Existe uma percepção equivocada de que ele é infinito e suportará qualquer nível de exploração.

Essa lógica aparece até na linguagem. Não falamos da fauna marinha como vida selvagem — falamos em “recursos pesqueiros”, “estoques”, “frutos do mar”. Medimos populações pelo quanto podemos retirar delas sem colapso econômico, não pelo direito à existência dessas espécies. Enquanto animais terrestres mortos são contabilizados em indivíduos, animais marinhos são contabilizados em toneladas.

O resultado é uma enorme dissonância cognitiva: protegemos muito mais a terra do que o oceano. Hoje, apenas cerca de 3% do oceano está efetivamente protegido contra atividades extrativistas. Em terra, essa proporção é muito maior.

O problema central é que passamos a enxergar alguns biomas como mais importantes que outros. Mas isso é como decidir que o coração é mais importante que o cérebro ou o fígado. Se um órgão colapsa, todo o sistema colapsa. O oceano é um dos órgãos mais vitais do planeta — responsável pela regulação climática, térmica, hídrica e biológica da Terra.

E é importante lembrar: o oceano não é abundante como imaginamos. Apesar de abrigar enorme diversidade de espécies, apenas cerca de 1% da biomassa da vida do planeta está no oceano. Isso mostra o quão frágil ele realmente é.

O Tratado do Alto-Mar — formalmente o Acordo sobre Biodiversidade Além da Jurisdição Nacional, o BBNJ — entrou em vigor em janeiro de 2026, após quase duas décadas de negociações. O Brasil o ratificou durante a COP30, em Belém. Dois terços do oceano estavam, até então, sem qualquer marco jurídico vinculante de conservação de biodiversidade. O que muda concretamente para a biodiversidade marinha com esse tratado — e quais são os riscos reais de que ele se torne, como tantos acordos antes dele, uma arquitetura de compromisso sem implementação?

O Tratado do Alto-Mar é crucial porque, até agora, não existia uma regulamentação internacional robusta para proteger a biodiversidade em águas internacionais. Havia acordos fragmentados, muitas vezes voluntários e sobrepostos entre si.

O novo tratado cria uma estrutura mais forte para governança do alto-mar, incluindo mecanismos de criação de áreas marinhas protegidas, regras para exploração de recursos genéticos marinhos e maior responsabilização internacional.

Mas existe uma fragilidade importante: ainda não está claro quem vai fiscalizar efetivamente o alto-mar. E esse é o ponto crítico. O oceano internacional continua sendo tratado, na prática, como terra de ninguém.

A esperança é que as futuras COPs do oceano — previstas dentro da estrutura do tratado — consigam transformar o texto diplomático em mecanismos reais de implementação. Porque, hoje, temos muitos compromissos internacionais que são excelentes no papel, mas extremamente frágeis na prática.

Precisamos reconhecer também que tratados não são bala de prata. Eles são importantes, mas insuficientes sem fiscalização, ação direta, pressão política e mobilização da sociedade civil.

A Sea Shepherd acredita muito nessa diversidade de estratégias: litigância, educação ambiental, advocacia política e ação direta no mar. É isso que fecha a torneira do problema enquanto as negociações internacionais seguem lentamente.

O Brasil é o maior consumidor mundial de tubarões — frequentemente comercializados sob o nome genérico de “cação”, o que torna a identificação da espécie e o controle do consumo praticamente impossíveis para o consumidor comum. Os tubarões são o grupo marinho mais ameaçado de extinção. E são também predadores de topo cuja remoção desestrutura cadeias alimentares inteiras, com consequências que se propagam por todo o ecossistema oceânico. Como uma nação que se apresenta ao mundo como líder da agenda ambiental pós-COP30 sustenta essa contradição — e o que seria necessário para resolvê-la?

Essa é uma das maiores contradições ambientais do Brasil hoje. Somos o maior consumidor e importador de tubarões do mundo. O país virou uma espécie de “lavanderia global” desse comércio.

Os tubarões são fundamentais para o equilíbrio ecológico do oceano. São predadores de topo que moldaram os ecossistemas marinhos ao longo de centenas de milhões de anos. Quando retiramos esses animais, toda a cadeia trófica pode entrar em colapso.

E existe outro agravante: tubarões têm reprodução lenta, maturidade tardia e ciclos biológicos extremamente vulneráveis à sobrepesca. Você retira uma fêmea grávida e perde não apenas aquele indivíduo, mas todo um potencial reprodutivo futuro.

Hoje, 39% das espécies de tubarão no Brasil já estão ameaçadas de extinção. Metade delas em estado crítico.

O problema é que continuamos tratando tubarões como mercadoria antes de tratá-los como fauna ameaçada. A economia ainda conduz as decisões ambientais. Isso fica evidente na própria legislação brasileira, que ainda permite pesca direcionada de tubarão azul.

E há uma dimensão de saúde pública pouco discutida: o consumidor brasileiro sequer sabe que está comendo tubarão, porque ele é vendido como “cação”. Além disso, por serem predadores de topo, esses animais acumulam altas concentrações de mercúrio, chumbo, arsênio e outros contaminantes tóxicos.

Mesmo assim, o tubarão ainda é servido em escolas, hospitais e compras públicas. Isso é gravíssimo.

Resolver essa crise exige múltiplas frentes: informação ao consumidor, rastreabilidade, fiscalização, mudanças legislativas e pressão política constante. A Sea Shepherd atua justamente nessas diferentes dimensões — inclusive judicialmente.

A Convenção sobre Diversidade Biológica reconhece explicitamente que povos indígenas e comunidades tradicionais são os guardiões mais eficazes da biodiversidade do planeta. No contexto marinho brasileiro, isso inclui pescadores artesanais, comunidades ribeirinhas e populações costeiras que dependem diretamente da saúde dos ecossistemas para sobreviver — e que, ao mesmo tempo, são frequentemente tratados como problema a ser gerido, não como solução a ser integrada. O que a Sea Shepherd Brasil aprendeu, na prática das suas expedições, sobre como essa relação pode ser estruturada de outra forma?

Nós aprendemos que conservação só funciona quando existe relação de confiança e construção conjunta. Comunidades tradicionais não podem ser tratadas como obstáculos à conservação — elas precisam ser reconhecidas como protagonistas dela.

A Sea Shepherd trabalha muito próxima de pescadores artesanais, ribeirinhos e populações costeiras porque são essas pessoas que conhecem profundamente os ecossistemas onde vivem. Elas percebem mudanças ambientais muito antes dos indicadores oficiais.

O grande erro histórico da conservação foi tentar impor modelos verticais, sem ouvir quem vive diretamente daquela biodiversidade. Quando você exclui essas populações do processo decisório, você perde inteligência ecológica, legitimidade social e capacidade real de proteção.

Existe um conhecimento ancestral sobre equilíbrio ecológico que a sociedade moderna precisa urgentemente reaprender.

A meta 30x30 do Acordo de Kunming-Montreal prevê proteger 30% das áreas marinhas até 2030. A Sea Shepherd Brasil defende que o Brasil eleve sua ambição para ao menos 10% de áreas com proteção integral no curto prazo — e que a proteção parcial, que permite usos econômicos extensivos, não equivale à proteção real de biodiversidade. A criação do Parque Nacional Marinho do Albardão, em março de 2026, foi um avanço. O que ainda falta para que o Brasil honre, no oceano, os compromissos que assina nas conferências internacionais?

Falta transformar compromisso diplomático em proteção real. O Brasil avançou com a criação do Parque Nacional Marinho do Albardão, mas ainda estamos muito distantes do necessário.

Grande parte das áreas marinhas “protegidas” no Brasil permite atividades econômicas intensivas. Isso não é proteção integral da biodiversidade.

Precisamos ampliar significativamente as áreas de proteção total, com fiscalização efetiva e gestão robusta. Porque o oceano brasileiro continua extremamente vulnerável à pesca industrial predatória, à mineração, à poluição e ao avanço desordenado da exploração econômica.

Hoje existe uma enorme diferença entre anunciar metas internacionais e implementar mudanças concretas no mar.

Os botos-da-Amazônia são espécies sentinela — indicadores da saúde dos rios e do bioma amazônico como sistema. Quando centenas morreram em Tefé, em 2023, a temperatura da água tinha ultrapassado 39°C em decorrência da seca extrema. O evento expôs algo que os modelos de biodiversidade ainda tratam de forma compartimentada: a crise do oceano, a crise dos rios, a crise climática e a crise de biodiversidade são o mesmo fenômeno, com faces diferentes. Como a Sea Shepherd Brasil operacionaliza essa visão sistêmica numa agenda de conservação que os governos e financiadores ainda insistem em fragmentar por bioma, por espécie, por fronteira jurisdicional?

A Sea Shepherd trabalha justamente a partir dessa visão sistêmica. Não existe separação real entre oceano, rios, clima e biodiversidade. Tudo faz parte do mesmo organismo planetário.

Os botos-da-Amazônia são um exemplo muito claro disso. Quando eles morrem em massa, não estamos diante de uma “crise isolada dos rios”, mas de uma manifestação da crise climática e ecológica como um todo.

O problema é que governos e financiadores ainda operam numa lógica fragmentada: por bioma, por espécie, por fronteira administrativa. Mas a natureza não funciona assim.

A conservação precisa abandonar urgentemente essa visão compartimentalizada e voltar a enxergar interdependência. É exatamente essa lógica fragmentada que nos trouxe até a crise ambiental atual.

Você fez uma transição radical — de estrategista corporativa em Londres a marinheira num navio de conservação no México — e depois construiu, no Brasil, uma das organizações de proteção marinha mais atuantes do país. Num Dia Internacional da Biodiversidade cujo tema é “Agir localmente para um impacto global”, o que essa trajetória diz sobre o tipo de liderança que a crise de biodiversidade exige — e que ainda não encontrou espaço suficiente nas estruturas de governança ambiental, corporativa e política que decidem o futuro do oceano?

A crise de biodiversidade exige uma liderança profundamente conectada à realidade ecológica do planeta — e não apenas a indicadores econômicos ou estruturas burocráticas.

Minha trajetória mostrou justamente isso: não basta discutir sustentabilidade em salas de reunião distantes da realidade do oceano. É preciso estar na linha de frente, entender os impactos concretos, construir pontes entre ciência, política, comunicação e ação prática.

A liderança que precisamos hoje é menos antropocêntrica e mais biocêntrica. Uma liderança capaz de compreender que proteger biodiversidade não é uma pauta “ambiental”: é uma pauta de sobrevivência civilizatória.

Ainda existe pouco espaço institucional para esse tipo de visão, porque nossas estruturas políticas e econômicas continuam operando sob lógica de crescimento infinito num planeta finito.

Mas acredito que cada vez mais pessoas estão percebendo que não existe economia saudável sem ecossistemas saudáveis. E o oceano talvez seja hoje o maior termômetro dessa urgência.

Há uma frase que Nathalie Gil repete em palestras, painéis e entrevistas, e que veio de Paul Watson, fundador da Sea Shepherd: "Se o oceano morre, nós morremos." É uma frase direta, sem ornamento, sem apelo retórico. É também, do ponto de vista da ciência do clima e da biologia marinha, uma proposição verificável. O oxigênio vem do oceano. A regulação térmica do planeta vem do oceano. A cadeia alimentar que sustenta três bilhões de pessoas vem do oceano. A estabilidade dos ciclos hidrológicos que abastecem rios, aquíferos e agricultura vem, em parte decisiva, do oceano.

O que esta entrevista documenta não é apenas a agenda da Sea Shepherd Brasil. É o retrato de uma contradição que o Brasil carrega e ainda não resolveu: um país com a maior costa da América do Sul, signatário do Tratado do Alto-Mar, anfitrião da COP30, que se apresenta ao mundo como potência ambiental emergente — e que ao mesmo tempo é o maior consumidor mundial de tubarões, mantém menos de 2% do seu território marinho sob proteção integral e trata a biodiversidade oceânica como pauta de segundo escalão nas suas políticas públicas e nos seus orçamentos.

O tema do Dia Internacional da Biodiversidade 2026 é agir localmente para um impacto global. O oceano não respeita fronteiras jurisdicionais. O que acontece nas águas brasileiras repercute em cadeias ecológicas que cruzam hemisférios. Cada área marinha protegida com rigor, cada portaria de pesca que coloca a conservação acima do lobby setorial, cada política pública que reconhece o oceano como infraestrutura crítica da vida — e não como território de exploração sem limite — é um ato local com consequências que o planeta inteiro sente.

Nathalie Gil não espera que isso seja compreendido por impulso moral. Ela apostou a carreira na ideia de que pode ser compreendido por estratégia. Ainda está trabalhando para provar que tem razão.

Este conteúdo integra o especial A Teia da Vida: Biodiversidade, Risco e o Futuro do Planeta, produzido pelo Neo Mondo para aprofundar o debate sobre a biodiversidade como um dos principais desafios ambientais, econômicos e civilizatórios do século XXI. Um especial Neo Mondo em parceria com a Seguros Unimed.

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