Dia Internacional da Biodiversidade 2026

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Dia internacional da
Biodiversidade 2026

O que já está funcionando — e em escala

Escrito por Neo Mondo | 22 de maio de 2026

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Funcionando na prática. Quando ciência, governança e incentivos econômicos caminham juntos, conservar a biodiversidade deixa de ser exceção e passa a gerar valor para pessoas, territórios e cadeias produtivas - Foto: Ilustrativa/Magnific

POR - REDAÇÃO NEO MONDO

No Pará, uma cooperativa de extrativistas do Baixo Tapajós aumentou a renda média de seus associados em 40% em cinco anos, sem ampliar a área explorada. No Paraná, produtores de café sombreado em sistemas agroflorestais recebem, de torrefadoras europeias, prêmios de origem que podem triplicar o preço de referência da bolsa. Em Minas Gerais, propriedades que aderiram ao sistema de integração lavoura-pecuária-floresta registraram aumento de produtividade por hectare simultâneo à recuperação de matas ciliares. Esses casos existem, são documentados, e raramente aparecem com o mesmo destaque dado ao colapso.

Há um pessimismo legítimo e outro improdutivo na cobertura da crise da biodiversidade. O primeiro nasce de dados reais sobre a velocidade e a magnitude da perda — e é necessário, pois subestimar o problema não ajuda ninguém. O segundo nasce da ausência de exemplos de reversão, ausência que, em grande medida, é um problema de narrativa, não de evidência.

A restauração ecológica é o campo em que a evidência de reversão é mais sólida. O Brasil assumiu, no âmbito do Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal e do Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg), metas de restauração que totalizam 12 milhões de hectares até 2030 — o maior compromisso individual de restauração ecológica em escala nacional no mundo. A pesquisa conduzida pelo Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ) e pela Agroicone documentou que a restauração passiva — a simples remoção da pressão de uso sobre áreas degradadas — pode recuperar 70% da cobertura de espécies originais em menos de quarenta anos em áreas de Mata Atlântica com conectividade adequada. Isso demonstra que o capital natural investido na restauração não precisa partir do zero — basta remover o que interrompeu processos ecológicos que, se lhes for dado espaço, o tempo retoma.

A restauração ativa — replantio de mudas, reintrodução de espécies, manejo de solo — é necessária onde a degradação eliminou a capacidade de regeneração natural. Os custos variam entre 2.000 e 15.000 reais por hectare, dependendo do bioma e do grau de degradação, segundo estimativas da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura. Esses custos competem, em algumas regiões, com o custo de oportunidade das atividades agropecuárias que substituíram a vegetação nativa — o que explica tanto a dificuldade de escalar a restauração apenas por meio de mecanismos regulatórios quanto a necessidade de criar fluxos de receita que tornem a conservação financeiramente atrativa para quem toma decisões no território.

O Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) é o mecanismo mais difundido para criar esse fluxo. O Brasil tem experiências consolidadas — o programa Produtor de Água da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), o PSA florestal do estado do Amazonas e programas municipais em São Paulo e no Paraná — com resultados documentados na manutenção de cobertura florestal em áreas de nascentes e corredores hídricos. A aprovação, em 2021, da Lei Federal de Pagamento por Serviços Ambientais criou o marco regulatório nacional — mas sua regulamentação e o volume de recursos necessários para operacionalizá-la em escala ainda estão em construção.

O sistema de integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF) desenvolvido pela Embrapa demonstrou ser possível aumentar a produtividade por hectare enquanto se recupera a vegetação e se reduz a emissão de metano — e tem sido adotado em escala crescente em propriedades do Mato Grosso, de Goiás e de Minas Gerais. Na cafeicultura, certificações de origem ligadas à biodiversidade criaram um diferencial de mercado que remunera práticas de conservação da mata ciliar e da vegetação nativa associada à produção.

O que esses casos têm em comum não é a ausência de tensão econômica. É a presença de instituições — públicas, privadas ou comunitárias — com capacidade de mediar essa tensão e criar regras do jogo que tornam a conservação economicamente defensável no longo prazo. O Planaveg, o sistema de PSA, a regulamentação das reservas legais pelo Cadastro Ambiental Rural e os mecanismos de certificação de cadeias produtivas são instrumentos que dependem de capacidade institucional para funcionar.

O que funciona em escala, no Brasil e no mundo, não é a natureza deixada à sua sorte nem o mercado operando sem governança. É a combinação de ciência aplicada, regulação efetiva e incentivos econômicos que torna a conservação a opção racionalmente defensável para quem decide no território.

Isso existe. Ainda não é a regra. Mas não é mais só a exceção.

Este conteúdo integra o especial A Teia da Vida: Biodiversidade, Risco e o Futuro do Planeta, produzido pelo Neo Mondo para aprofundar o debate sobre a biodiversidade como um dos principais desafios ambientais, econômicos e civilizatórios do século XXI. Um especial Neo Mondo em parceria com a Seguros Unimed.

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