Dia Mundial do Meio Ambiente e Oceano 2026
Escrito por Neo Mondo | 5 de junho de 2026
A ciência nos mostra que o tempo da natureza não segue calendários políticos nem ciclos econômicos — e que adiar decisões pode tornar irreversível o que ainda pode ser preservado - Foto: Ilustrativa/Magnific
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO
Há uma certa ironia no fato de Alexander Turra ser biólogo. A biologia, como disciplina, nasceu para nomear e classificar a vida — catalogar espécies, descrever estruturas, ordenar a diversidade do mundo natural numa taxonomia que a razão humana pudesse dominar. Turra faz algo além. Quanto mais avança na carreira, ainda se interessa pelo nome das coisas, mas busca compreender a teia que as conecta — pelos fluxos invisíveis de energia, carbono e água que atravessam continentes e oceanos sem pedir permissão a nenhuma fronteira política, a nenhum ministério, a nenhuma COP. Professor Titular do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo e coordenador da Cátedra UNESCO para a Sustentabilidade do Oceano, ele passou as últimas décadas construindo algo raro na ciência brasileira: uma posição a partir da qual é possível ver o sistema inteiro — e dizer, com o rigor de quem tem dados e a coragem de quem assumiu as consequências disso, que o sistema está fora de equilíbrio. Não como metáfora. Como diagnóstico. Esta conversa começa onde as anteriores pararam — depois da água, depois da biodiversidade — e vai para o lugar a que nenhuma delas quis ir: o ponto em que a ciência reconhece que explicar não é suficiente, e que transformar exige uma aliança com forças que a academia ainda não sabe muito bem como tratar.
A ciência tem avançado de forma consistente na compreensão dos sistemas socioecológicos. E, ainda assim, as mudanças não acontecem na velocidade nem na escala necessárias. O que está errado — no conhecimento, nas instituições ou em algum lugar entre os dois?
Nos especiais que estamos produzindo no Neo Mondo — sobre água, biodiversidade e, agora, sobre o sistema Terra-Oceano — o que fica evidente é que, além dos diagnósticos e dos planos, há um movimento que precisa ser urgentemente fortalecido: o movimento de implementação. O problema é que há um desacoplamento temporal entre a mobilização, a estruturação dos caminhos e o próprio caminhar.
Isso revela duas fragilidades. A primeira é a incapacidade das sociedades de manter a pressão por mudanças ao longo do tempo — a mobilização se esvai, se desmobiliza. A segunda é a incapacidade das instituições de compreender que essas agendas são de Estado, não de governo, e que precisam ser estruturadas e implementadas de forma consistente e a longo prazo. O que temos, na prática, é um grande gap na ciência da implementação — uma incapacidade de compreender as fragilidades da governança e superá-las para que o que foi pactuado nas políticas públicas se realize efetivamente.
Isso esbarra numa questão central: a falta de pessoal qualificado, em quantidade suficiente, para abordá-las no setor público. Sem um ente público bem equipado, sem visão de Estado e sem mobilização constante da sociedade, essa preocupação sempre cederá espaço às urgências do momento. E o que é importante ficará em segundo plano.
O senhor trabalha com o conceito de shifting baselines — a ideia de que o ponto de referência do que consideramos "normal" muda a cada geração, e que isso distorce nossa capacidade de avaliar a extensão real da degradação. Como esse fenômeno compromete as estratégias de conservação e restauração que estamos elaborando agora?
O planeta que conhecemos hoje é diferente daquele que as gerações passadas conheceram. As condições têm mudado continuamente — as mudanças climáticas associadas ao uso de combustíveis fósseis, o lixo no mar e a perda de biodiversidade. E a nossa percepção do que é normal vai se ajustando a esse estado degradado, sem que percebamos a extensão do que estamos perdendo em relação às condições originais.
Isso cria um problema concreto para a conservação: quando elaboramos estratégias de restauração, usamos como referência as informações disponíveis — e essas séries temporais são, na maioria dos casos, muito curtas. No Brasil, quando falamos de organismos marinhos, a maior parte das séries não passa de 20 a 25 anos. Isso torna muito difícil entender o que precisamos restaurar e qual caminho seguir.
Por outro lado, a Década das Nações Unidas para a Restauração de Ecossistemas — de 2021 a 2030, em paralelo à Década da Ciência Oceânica — pretende criar um ponto de inflexão nessa trajetória de degradação. Não importa tanto aonde exatamente queremos chegar; importa que o caminho que estamos percorrendo nos leve a uma situação melhor do que a atual — recuperando a funcionalidade dos ambientes, aumentando a redundância ecológica e dando condições para que o sistema responda às pressões futuras.
O senhor defende que a financeirização da natureza — créditos de carbono azul, seguros paramétricos para recifes, pagamento por serviços ecossistêmicos — é uma ferramenta importante, mas que precisa ser usada com cautela. Onde está, precisamente, o limite entre precificar a natureza para protegê-la e criar novos mercados sobre os mesmos ecossistemas que já não conseguimos proteger pelos meios convencionais?
É fundamental que entendamos a importância dos ambientes naturais — terrestres e marinhos — e que consigamos traduzir essa importância em valores, sejam eles de mercado ou imateriais, como os ligados à espiritualidade e à cultura. Esse é um argumento poderoso para dialogar com públicos que têm enorme poder de influência, como a iniciativa privada e os governos.
Mas a precificação ou valoração econômica dos ecossistemas é uma ferramenta que precisa ser analisada e implementada com bastante cautela. O fato de uma determinada localidade ter um pequeno valor de mercado não significa que ela possa ser simplesmente suprimida. Há perdas que não se capturam em nenhum preço.
O que a precificação deve fazer é trazer lucidez e elementos adicionais às decisões — mostrar o que se ganha e o que se perde, quando se ganha e quando se perde, e, sobretudo, quem ganha e quem perde em cada processo de transformação da paisagem continental ou marinha. Decisões que parecem economicamente vantajosas no curto prazo podem criar enormes vulnerabilidades para atividades como a agricultura e o turismo no médio e no longo prazo. Nesse sentido, a valoração econômica é um instrumento importante — mas deve somar-se a outros, em uma visão compreensiva, holística e sistêmica. Não pode ser o único argumento.
O Tratado do Alto-Mar foi negociado ao longo de mais de vinte anos. O Acordo de Kunming-Montreal para a biodiversidade terrestre e a agenda oceânica seguem lógicas institucionais distintas. A governança planetária está fragmentada demais para responder a uma crise que, por definição, é integrada. Esse é um problema de arquitetura que pode ser corrigido — ou algo mais profundo?
A governança planetária é bastante complexa e está amparada em mecanismos multilaterais que não necessariamente dialogam entre si. No âmbito do oceano, por exemplo, o arranjo UN Oceans congrega mais de 20 organizações do sistema das Nações Unidas com diferentes graus de relação com o tema — e a integração entre elas é um desafio permanente.
A integração entre os ambientes terrestres e marinhos é um dilema ainda mais antigo. A Convenção sobre a Diversidade Biológica olha para o oceano, mas de forma secundária. O Acordo de Kunming-Montreal estabelece a meta de termos pelo menos 30% de áreas marinhas protegidas até 2030 — mas não adianta ter uma área protegida no mar ao lado de uma área degradada em terra, especialmente quando se considera a importância dos corredores ecológicos. A gestão das bacias hidrográficas influencia diretamente a gestão costeira, e vice-versa. O Brasil tem feito exercícios nesse sentido, mas não os escalado o suficiente.
O Tratado do Alto-Mar buscou abarcar o espaço além das jurisdições nacionais — um patrimônio da humanidade que precisava de proteção. Mas a gestão desse espaço não pode estar desacoplada do que ocorre nas jurisdições nacionais. O Brasil tem 5,7 milhões de quilômetros quadrados de áreas marinhas sob jurisdição nacional, e o que fazemos aqui influencia o que acontece além das nossas fronteiras marítimas — especialmente no caso de espécies migratórias e recursos pesqueiros.
Após a Rio-92, aprofundamos agendas específicas — clima, biodiversidade, poluentes — e houve grandes avanços. Mas hoje essas agendas não estão se conversando. É por isso que tenho advogado fortemente pela realização, no Brasil, em 2032, da Rio+40, com o objetivo central de integrar esses movimentos em uma perspectiva holística e sistêmica. O momento para essa reflexão é agora.
O senhor usa o conceito de homeostase planetária para descrever a capacidade do sistema Terra de continuar funcionando. Há um ponto de não retorno para essa homeostase? E se há, a ciência já sabe onde ele está — ou estamos navegando sem instrumentos de alerta suficientemente precisos?
A homeostase planetária é uma visão muito interessante — e que se correlaciona diretamente com a homeostase do nosso corpo. O planeta tem componentes, processos e dinâmicas que o fazem funcionar de forma integrada, regidos por princípios como a termodinâmica e os ciclos da água em seus diferentes estados. Assim como o corpo humano tem uma temperatura que, se ultrapassada, compromete o funcionamento dos órgãos, o planeta tem limites cujo cruzamento pode levar a mudanças de estado irreversíveis — não necessariamente à morte, como uma febre muito alta pode causar em uma pessoa, mas a uma condição de funcionamento com consequências brutais do ponto de vista social e econômico.
A ciência da sustentabilidade, estruturada com mais rigor nos últimos vinte anos, identificou nove limites planetários. Sete deles já ultrapassaram a região de funcionamento adequado — temperatura da atmosfera e da água do mar, concentração de gases de efeito estufa, acidificação dos oceanos, presença de microplásticos e de outros poluentes, entre outros. Estamos sinalizando, de forma consistente, que nos aproximamos de pontos de não retorno.
No Brasil, uma das consequências mais concretas é o aumento da vulnerabilidade do agronegócio devido à insegurança climática e hídrica. Isso vai gerar situações extremas — excesso e escassez de água — que pressionarão enormemente os sistemas de seguros e de crédito agrícola até o ponto em que não serão mais sustentáveis. Isso tem rebatimentos diretos na segurança alimentar, não só no Brasil, mas também no planeta. Cuidar do planeta é, nesse sentido, tão urgente quanto cuidar de nós mesmos.
O senhor esteve presente na COP30, em Belém, como pesquisador e articulador da agenda oceânica. O oceano entrou, de fato, na conta climática global após Belém — ou continua sendo tratado como coadjuvante nas negociações que realmente importam?
A COP30 foi um marco importante em diversos processos, muitos deles protagonizados pelo Brasil. O Brasil trouxe para a agenda, de forma muito bem estruturada, a temática do oceano como elemento inseparável da discussão climática — com propostas técnicas e uma atuação diplomática arrojada e intensa. O Nexo Oceano-Clima está hoje presente nos instrumentos climáticos, o que representa um avanço inegável.
Mas os avanços ficaram aquém do que a comunidade científica, a sociedade civil e o próprio governo brasileiro pretendiam — devido à dificuldade de estabelecer acordos com outros países. É fundamental entender que as COPs são um processo, não um evento. O sentimento de frustração que frequentemente surge é, na verdade, um elemento de motivação para que a ciência e a sociedade civil continuem a atuar em diferentes frentes para promover os avanços de que necessitamos.
O ODS 14 — Vida na Água — é o objetivo que menos avançou no mundo e no Brasil, apesar de todos os esforços empenhados. Isso diz muito sobre a dificuldade estrutural de colocar o oceano no centro das decisões. O que precisamos agora é superar esse desafio e avançar na implementação de instrumentos concretos: colocar o oceano na conta do carbono, reconhecendo sua capacidade de sequestro e de estocagem, e expandir as áreas marinhas protegidas de forma representativa, conectada e efetiva — não no papel, mas com recursos e equipes que permitam que essas unidades funcionem de verdade.
A transição para uma economia de baixo carbono é apresentada como a grande resposta à crise climática — mas raramente se discute o que ela exige do sistema oceânico. Energias eólicas offshore, cabos submarinos, mineração de nódulos polimetálicos no fundo do mar e aquicultura industrial: todas essas atividades expandem sua presença no oceano, ao mesmo tempo em que a biodiversidade marinha colapsa. Estamos construindo a economia do futuro sobre o mesmo ecossistema que ainda não aprendemos a proteger no presente?
Quando falamos de transição para uma economia de baixo carbono, não podemos deixar de fora o ambiente marinho e toda a sua potencialidade. Temos a energia eólica offshore, a energia solar no mar, a energia das ondas, das marés, das correntes e dos gradientes de salinidade e de temperatura. Muitas dessas possibilidades ainda estão na prancheta, sem prova de conceito e sem expectativa de escalá-las — mas trazem perspectivas interessantes.
O problema é que a mineração de mar profundo, por exemplo, vem sendo apresentada como uma nova fronteira para a obtenção dos minerais críticos que a indústria de alta tecnologia demanda e que têm escasseado no ambiente terrestre. Junto com outras formas de exploração do ambiente marinho, isso pode nos levar a colapsos no funcionamento desses ecossistemas — porque os impactos precisam ser dimensionados e internalizados adequadamente, e até agora isso não está acontecendo.
O que precisamos é de uma abordagem consciente e estratégica para desenvolver uma economia oceânica sustentável, pautada por dois princípios fundamentais: a proteção efetiva do ambiente e a produção sustentável, com racionalização do uso de recursos e da geração de resíduos. A economia do mar não pode ser tratada como uma panaceia. Se não cuidarmos do ambiente do qual ela depende, limitaremos as oportunidades de uso dos bens e serviços do ambiente marinho.
O senhor constrói pontes entre ciência, política e cultura há décadas. Qual é o ingrediente que ainda falta para que o conhecimento científico sobre o oceano se converta em decisão — e o que isso tem a ver com o ODS que o senhor diz ser o seu favorito, que não é o 14?
A mudança de comportamento — das pessoas e da coletividade — depende de mais do que dados. Depende de motivação, de emoção, daquilo que faz as pessoas saírem da sua zona de conforto. A ciência é fundamental e apresenta argumentos estruturados e transparentes. Mas, para diferentes públicos, é preciso apresentar as informações de formas distintas — e há uma ciência específica para isso, que estuda como dialogar sobre determinados assuntos e como sensibilizar diferentes setores da sociedade.
É por isso que precisamos ter, como aliados da ciência, comunicadores responsáveis — que compreendam as questões científicas e os aspectos cognitivos dos diferentes públicos — para fazer esse diálogo acontecer de forma efetiva. É exatamente o que este especial busca fazer: equilibrar informação, motivação e diálogo personalizado para diferentes públicos.
E é por isso que, quando alguém me pergunta qual é o meu ODS favorito, a resposta não é o 14 — Vida na Água, embora seja aquele a que mais me dedico. É o 17 — Parcerias para a implementação. Porque sem a construção de movimentos sinérgicos, convergentes e estruturantes, nenhuma das outras agendas avança. Sem diálogo, não caminhamos enquanto coletivo. Alguns grupos podem avançar isoladamente — mas isso não leva o coletivo a lugar nenhum. Precisamos de novas habilidades, de pessoas e movimentos que intensifiquem esses diálogos e mobilizem — pela ciência, pela emoção, pela racionalidade — para construir algo do qual possamos nos orgulhar individual e coletivamente.
Alexander Turra termina a conversa sem pressa nem otimismo fácil. Não é pessimismo — é algo mais preciso do que isso: a recusa de qualquer narrativa que absolva quem decide antes que a decisão seja tomada. O oceano cobre 71% do planeta, regula o clima, produz metade do oxigênio que respiramos e sustenta a segurança alimentar de mais de três bilhões de pessoas. Ainda assim, não tem um assento permanente nas mesas onde o futuro é negociado — nem nas salas de conselho das corporações, nem nos plenários das COPs, nem nos gabinetes onde os orçamentos são definidos. O que Turra argumenta, com a paciência de quem construiu evidências por décadas e a impaciência de quem sabe que o tempo se estreita, é que essa ausência não é um acidente de governança. É uma escolha — reiterada, silenciosa, cara. E que o custo dessa escolha não será cobrado de forma abstrata, em relatórios de risco ou em modelos climáticos, mas de forma concreta, nos sistemas que sustentam a vida tal como a conhecemos. O planeta não está fora de equilíbrio porque a ciência falhou em explicar. Está fora de equilíbrio porque explicar, até agora, não foi suficiente para mudar o que precisava ser mudado. Esta entrevista é mais uma tentativa. O resultado depende de quem a lê — e do que decide fazer com ela.
Este conteúdo integra o especial “O Planeta Fora de Equilíbrio: Da Terra ao Oceano”, produzido pelo Neo Mondo para aprofundar o debate sobre a crise sistêmica do planeta e suas consequências econômicas, geopolíticas e civilizatórias. Um especial do Neo Mondo em parceria com a Amanco Wavin e Redemar Brasil.

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