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Escrito por Dra. Marcela Baraldi | 19 de março de 2026
Microplásticos revelam o paradoxo invisível: o cuidado que contamina e retorna pela própria cadeia da vida - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Neo Mondo
POR - DRA. MARCELA BARALDI
Há algo perturbador na ideia de que um ato de cuidado pode ser, ao mesmo tempo, um ato de contaminação. Não estou falando das embalagens plásticas que descartamos — essa culpa já é conhecida, já foi nomeada. Estou falando de algo que opera antes disso, dentro dos próprios produtos que aplicamos na pele, nos cabelos, no rosto. Os microplásticos nos cosméticos representam um tipo de poluição que não se vê, não se cheira e não se sente. E é exatamente aí que mora o perigo.
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O debate sobre poluição plástica amadureceu. Saímos da fase das sacolas e dos canudos e chegamos a um território mais incômodo: o das partículas menores que um milímetro, muitas vezes invisíveis a olho nu, que estão presentes em rímel, protetor solar, hidratante, shampoo. Que escorregam pelo ralo quando enxaguamos o rosto. Que atravessam estações de tratamento de esgoto sem serem capturadas. Que chegam aos rios, chegam aos oceanos e, por uma ironia que a ciência já documentou com rigor, voltam para nós — pela água, pelos frutos do mar, pelo ar.
Os microplásticos primários — aqueles inseridos intencionalmente nas fórmulas — cumprem funções que a indústria aprendeu a valorizar ao longo de décadas: dão textura sedosa, melhoram a espalhabilidade, aumentam a durabilidade da maquiagem, criam efeitos ópticos de brilho ou opacidade. Polietileno, polipropileno, nylon, PMMA — são polímeros que aparecem nos rótulos com nomes técnicos que poucos consumidores sabem decodificar. A opacidade é parte do problema. O que não se nomeia com clareza, não se questiona.
Uma vez no ambiente aquático, essas partículas revelam uma dupla toxicidade. Por si mesmas, causam bloqueios digestivos e danos reprodutivos em mais de 700 espécies marinhas já identificadas como contaminadas. Mas sua superfície também funciona como vetor de adsorção para poluentes orgânicos persistentes — pesticidas, PCBs — que se acumulam nos tecidos dos animais ao serem ingeridas. O fenômeno da bioacumulação faz o resto: à medida que subimos na cadeia alimentar, as concentrações aumentam. O que entrou no zooplâncton chega, amplificado, ao predador de topo. E o predador de topo, em muitos cenários, somos nós.
A ciência sobre os efeitos dos microplásticos na saúde humana ainda está construindo seu caso, e é importante ser honesta sobre isso: estamos em estágios iniciais. Mas os indícios que surgem de estudos laboratoriais e de biomonitoramento são suficientemente preocupantes para exigir atenção. Essas partículas já foram identificadas em tecidos cardiovasculares, reprodutivos e nervosos, e na placenta — o que indica exposição materno-fetal. Alguns aditivos associados aos plásticos, como ftalatos e bisfenóis, são desreguladores endócrinos com implicações documentadas para a fertilidade e o desenvolvimento. A ausência de certeza absoluta não é ausência de risco. É uma lacuna que a precaução precisa preencher.
O cenário regulatório começa a responder, ainda que de forma desigual. A União Europeia avança com um cronograma de banimento gradual de microplásticos adicionados intencionalmente em cosméticos — uma das medidas mais abrangentes já adotadas no setor. No Brasil, o debate existe, projetos de lei circulam, mas a legislação específica ainda não chegou. Essa assimetria importa, porque o mercado brasileiro é grande e a pressão regulatória sobre ele ainda é insuficiente. A demanda do consumidor, nesse contexto, não é apenas uma preferência — é um instrumento de política pública.
A indústria, por sua vez, já sinaliza uma reorientação. Sementes trituradas, sílica, açúcar, ceras vegetais e polímeros biodegradáveis desenvolvidos por biotecnologia ocupam o espaço que as microesferas sintéticas deixam. O movimento "Plastic-Free Beauty" cresceu além do nicho e começa a reconfigurar expectativas de consumo em mercados relevantes. Mas é preciso distinguir inovação real de greenwashing — e isso exige exatamente o tipo de letramento científico que colunas como esta tentam construir.
O Tratado Global do Plástico, em negociação na ONU, coloca essa conversa na esfera da geopolítica e da economia. O que acontece nas próximas rodadas de negociação vai determinar, em larga medida, o ritmo com que a indústria será obrigada a se transformar. Mas a transformação cultural — a que começa no banheiro, na gôndola do supermercado, na leitura de um rótulo — não espera tratado. Ela começa com a pergunta certa feita no momento certo. E a pergunta certa, hoje, é simples: o que exatamente está neste produto que estou prestes a comprar?
Dra Marcela Baraldi, Médica Dermatologista, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia, cadastrada no corpo clínico do Hospital Israelita Albert Einstein e consultório particular – CRM: 151733 / RQE: 66127. Colunista de Neo Mondo.

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