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Escrito por Neo Mondo | 18 de junho de 2026
Sedimentos extraídos a bordo do RV Maria S. Merian: Cristiano Chiessi colhe amostra da coluna coletada a 1.367 metros de profundidade na costa do Maranhão - Foto: Dana Pittauerova
POR - OSCAR LOPES*, PUBLISHER DO NEO MONDO
Dois pulsos abruptos em três mil anos: o que o fundo do Atlântico revela sobre a próxima ruptura climática
A lama marinha ao largo do Maranhão não tem nada de espetacular à primeira vista. É sedimento escuro, compactado, coletado a 1.367 metros de profundidade durante uma expedição do navio alemão RV Maria S. Merian em 2012. Mas dentro desse cilindro de barro repousam, camada por camada, registros de um dos episódios mais violentos da história climática recente da Terra — e uma advertência que a ciência levou mais de uma década para decifrar.
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A equipe liderada por Cristiano Mazur Chiessi, da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo, e por Stefan Mulitza, da Universidade de Bremen, publicou em maio de 2025 na Nature Communications a primeira evidência direta de que a AMOC — a Célula de Revolvimento Meridional do Atlântico, sistema de correntes responsável por transportar calor entre os hemisférios — não apenas colapsa e permanece parada. Ela pulsa. Mesmo enfraquecida, ela é capaz de se reorganizar abruptamente, acelerar com força suficiente para superar sua intensidade atual e, depois, recuar novamente. Esse comportamento nunca havia sido documentado.
A AMOC funciona como uma correia de transmissão de calor: leva águas quentes das regiões equatoriais e tropicais para o Atlântico Norte, onde elas esfriam, afundam e retornam pelo fundo do oceano em direção ao sul. O motor desse sistema é a diferença de densidade entre as águas da superfície e as profundezas — uma diferença que depende de temperatura e salinidade. Quando o equilíbrio é perturbado, tudo o que a correia transporta muda de lugar: o calor para a Europa, a chuva para o Sahel, a seca para o nordeste africano, e os próprios regimes de precipitação do Brasil.
O período estudado pelos pesquisadores é conhecido como "Heinrich Stadial 1", entre 17,8 e 14,8 mil anos atrás. A circulação estava então muito mais fraca do que hoje. O planeta se aquecia após o último máximo glacial, o derretimento das geleiras da América do Norte injetava água doce no Atlântico Norte e dificultava o afundamento das correntes, essencial para manter a esteira em movimento. O Nordeste brasileiro recebia chuva abundante; o norte da Amazônia ressecava. Era um equilíbrio perturbado, mas aparentemente estável.
O que Chiessi e Mulitza encontraram desfaz essa estabilidade aparente. Em duas ocasiões ao longo daquele período, a AMOC se contraiu abruptamente e depois se lançou para frente: um primeiro episódio entre 16,5 e 15,8 mil anos atrás, e um segundo, mais curto, com cerca de cem anos de duração, em torno de 15,4 mil anos atrás. Nesse segundo pulso, a circulação superou a intensidade que apresenta hoje.
O método que permitiu chegar a essa conclusão é ao mesmo tempo elegante e trabalhoso. A técnica, chamada de datação de ventilação por radiocarbono, compara a "idade" aparente de dois grupos distintos de microrganismos fossilizados — os foraminíferos — encontrados nas mesmas camadas de sedimento. Os planctônicos vivem na superfície do mar e absorvem carbono 14 em contato com a atmosfera. Os bentônicos habitam o fundo e só recebem esse isótopo quando a água superficial afunda e percorre o circuito inteiro da corrente. A diferença de idade entre eles é um relógio direto da velocidade da AMOC.
Quando a corrente funciona nos níveis atuais, essa defasagem é de aproximadamente 350 anos no Atlântico equatorial: tempo que a água leva para sair da superfície, circular pelas profundezas e retornar. Durante o evento Heinrich Stadial 1, a diferença saltou para 960 anos — a circulação havia desacelerado radicalmente. Mas nos dois picos identificados pelos pesquisadores, ela caiu para 450 e depois para 200 anos. A esteira havia acelerado subitamente, transportando mais calor, movendo mais água, redistribuindo gases e precipitação com uma força que os modelos climáticos ainda não sabem reproduzir.
Os dois episódios coincidem com outras assinaturas deixadas nos arquivos naturais do planeta. Estalagmites coletadas na Caverna Jaraguá, em Bonito, no Mato Grosso do Sul, e na Gruta da Paixão, em Andaraí, na Bahia, registram nesses mesmos períodos uma redução das chuvas intensas no Brasil — sinal de que menos água doce chegava ao oceano e que o mecanismo de afundamento das correntes havia se recuperado temporariamente. Bolhas de ar presas no gelo antártico mostram picos de concentração de CO₂ na atmosfera coincidindo com as mesmas janelas de tempo: quando a AMOC acelerou, ela carregou para o Oceano Circumpolar Antártico as águas profundas estagnadas do Atlântico, ricas em gás carbônico, que ali emergiram e liberaram o gás para a atmosfera.
O que essa sequência revela não é tranquilizador. A imagem que emergiu das pesquisas das últimas décadas era a de uma AMOC que, uma vez enfraquecida, poderia permanecer nesse estado deprimido por milhares de anos — lenta, mas estável. O novo estudo substitui essa imagem por outra: a de um sistema capaz de oscilar com violência mesmo em estado de fraqueza, gerando transições abruptas que reorganizariam o clima em questão de décadas ou menos.
"É a primeira vez que se mostra que a AMOC pode sofrer pulsos de fortalecimento em períodos em que está enfraquecida", disse Chiessi ao comentar os resultados. A observação é precisa, mas a consequência prática vai além: se o sistema é capaz de se intensificar subitamente quando enfraquecido, ele também pode colapsar novamente a partir desse estado reforçado. A instabilidade não tem sentido único.
A pesquisa chega em momento em que as previsões sobre a AMOC se tornaram progressivamente mais sombrias. Em abril de 2026, uma equipe da Universidade de Bordeaux publicou na Science Advances uma revisão das projeções existentes combinando modelos climáticos com dados observacionais reais. Os pesquisadores estimam que a circulação poderá desacelerar entre 43% e 59% até 2100 em comparação à média pré-industrial — mesmo que todos os países cumpram seus compromissos climáticos atuais. Um enfraquecimento desse porte seria suficiente para desencadear o colapso do sistema, com consequências que incluem invernos extremos na Europa, alteração dos cinturões tropicais de chuva e elevação do nível do mar de 50 a 100 centímetros ao longo de toda a costa atlântica.
Para o Brasil, as consequências são geograficamente paradoxais e sistemicamente devastadoras. Um enfraquecimento severo da AMOC tende a deslocar para o sul a faixa tropical de precipitação, aumentando as chuvas no Nordeste enquanto resseca progressivamente o norte da Amazônia. Essa não é uma troca equilibrada. É a desordem de um sistema que perdeu seu regulador, redistribuindo água de maneira que não corresponde às infraestruturas agrícolas, às populações ribeirinhas ou às redes de abastecimento construídas ao longo de séculos.
Chiessi ressalva que o passado não é um espelho do presente. Durante o Heinrich Stadial 1, a concentração de CO₂ na atmosfera era mais baixa do que nos tempos pré-industriais. As condições de contorno eram distintas. A desglaciação avançava em ritmo que levou mil anos para produzir o colapso inicial da AMOC — um ritmo que o aquecimento atual, impulsionado por emissões de combustíveis fósseis, pode ter comprimido radicalmente. Os sedimentos do Maranhão não dizem quanto tempo resta. Dizem que o sistema já fez isso antes, que pode fazer de novo e que a estabilidade que observamos hoje pode ser, como foi há 16 mil anos, apenas o intervalo entre dois pulsos.
*Com informações da Agência FAPESP.
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