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Escrito por Neo Mondo | 17 de junho de 2026
Previsibilidade é o que transforma produtividade em competitividade no camp - Foto: Ilustrativa/Magnific
Por - Cristina Tordin, Embrapa Meio Ambiente, para Neo Mondo
Resiliência climática, bioeconomia e capacidade de manter resultados consistentes ganham peso na competitividade do agronegócio brasileiro
A agricultura brasileira precisará ir além da produtividade para manter sua posição de destaque no mercado global. Em um cenário marcado por mudanças climáticas, volatilidade econômica e crescente demanda por sustentabilidade, a capacidade de produzir de forma estável e previsível tende a se tornar um dos principais fatores de competitividade do setor.
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A avaliação é do pesquisador da Embrapa Meio Ambiente, Vinicius Bof Bufon. Segundo ele, a agricultura entra em uma nova fase de desenvolvimento, na qual a previsibilidade produtiva passa a ser tão importante quanto os ganhos de produtividade obtidos nas últimas décadas.
“Produzir bem continua sendo fundamental. Produzir de forma sustentável também. Mas o grande diferencial daqui para frente será a capacidade de produzir com previsibilidade, reduzindo riscos e aumentando a resiliência dos sistemas produtivos”, afirma.
Nas últimas décadas, avanços em genética, mecanização, nutrição de plantas, agricultura digital e gestão permitiram que o Brasil se consolidasse como uma das maiores potências agrícolas do planeta. Agora, segundo o pesquisador, o setor enfrenta desafios mais complexos.
“O contexto em que a agricultura opera mudou. Os eventos climáticos extremos estão mais frequentes, os mercados estão mais competitivos e os investidores cada vez mais atentos à gestão de riscos. Isso exige uma nova forma de pensar os sistemas produtivos”, observa.
Demanda por biomassa deve crescer
Para Bufon, a discussão ganha relevância porque a demanda mundial por biomassa continuará aumentando nas próximas décadas. Além de alimentos, a agricultura será responsável pelo fornecimento de matérias-primas para biocombustíveis, bioenergia, biomateriais e diversos produtos associados à bioeconomia.
“O mundo precisará de mais alimentos, mais fibras, mais energia renovável e mais produtos de origem biológica. A agricultura deixa de ser apenas fornecedora de alimentos e passa a ocupar uma posição estratégica na construção da bioeconomia global”, destaca.
Nesse contexto, sustentabilidade e competitividade não devem ser vistas como conceitos opostos. Pelo contrário.
“Os sistemas mais eficientes costumam ser também os mais sustentáveis. Quando produzimos mais valor por hectare, utilizamos melhor a infraestrutura existente, reduzimos a pressão por abertura de novas áreas e aumentamos a eficiência no uso dos recursos naturais”, explica.
Integração de tecnologias gera resultados
O pesquisador cita a trajetória da cadeia sucroenergética brasileira como um exemplo de transformação baseada na integração de diferentes tecnologias.
Ao longo das últimas décadas, o setor incorporou mecanização, agricultura digital, bioenergia, bioinsumos, melhoramento genético, gestão de resíduos e sistemas de irrigação mais eficientes.
“A principal lição é que os maiores avanços raramente vieram de uma tecnologia isolada. Eles surgiram da combinação de diferentes estratégias dentro de sistemas produtivos mais sofisticados”, afirma.
Segundo ele, a mesma lógica pode ser aplicada a diversas cadeias agrícolas.
“Irrigação, bioinsumos, genética e agricultura digital são ferramentas importantes, mas seu impacto depende da forma como são integradas. O foco deixa de ser a tecnologia individual e passa a ser o desempenho do sistema como um todo.”
É justamente dessa integração que surge a chamada previsibilidade produtiva.
“Sistemas mais resilientes conseguem reduzir oscilações, proteger investimentos e melhorar o planejamento de longo prazo. Isso é especialmente importante em mercados de commodities, onde o produtor não controla os preços internacionais”, ressalta.
Clima e economia formam uma combinação crítica
Apesar dos avanços tecnológicos, Bufon alerta que a adaptação dos sistemas produtivos depende também de condições econômicas favoráveis.
“Não basta desenvolver tecnologia. O produtor precisa encontrar condições para investir, assumir riscos e capturar valor. Sem isso, a transição para modelos mais resilientes se torna mais lenta e mais difícil”, afirma.
Na avaliação do pesquisador, pequenos produtores costumam enfrentar limitações relacionadas ao acesso a crédito, assistência técnica e informação. Mas médios e grandes empreendimentos também encontram obstáculos quando precisam investir em irrigação, infraestrutura, recuperação de solos, rastreabilidade e adaptação climática.
“O desafio não é apenas climático. É climático e econômico ao mesmo tempo. Quando secas, ondas de calor e maior variabilidade produtiva se somam a juros elevados, margens apertadas e incertezas regulatórias, cria-se um ambiente extremamente desafiador para o produtor.”
Segundo ele, essa combinação pode reduzir investimentos, retardar a renovação tecnológica e aumentar a exposição ao risco.
Lições do setor sucroenergético
O pesquisador lembra que a própria trajetória recente do setor sucroenergético brasileiro ilustra essa relação entre clima e economia.
Em períodos de maior estabilidade econômica e perspectivas positivas para o etanol e a bioenergia, o setor ampliou investimentos e ganhou eficiência. Em seguida, a combinação de crise econômica, juros elevados, insegurança regulatória e agravamento das secas contribuiu para um ciclo de dificuldades financeiras.
“Clima ruim em um mercado favorável representa uma perda produtiva. Clima ruim em um ambiente econômico desfavorável afeta também a capacidade de investimento, a competitividade e, em alguns casos, a própria sobrevivência do negócio”, afirma.
Para ele, a experiência demonstra que a sustentabilidade precisa ser acompanhada de condições que garantam viabilidade econômica.
“Se o produtor não consegue remunerar adequadamente o risco de produzir melhor, toda a sociedade perde uma oportunidade estratégica de avançar em segurança alimentar, bioeconomia, descarbonização e competitividade.”
Inovação colaborativa
Bufon destaca que a construção de sistemas produtivos mais resilientes depende da articulação entre pesquisa, empresas, agroindústrias, instituições financeiras e formuladores de políticas públicas.
“A velocidade da transformação está diretamente relacionada à capacidade de integrar diferentes competências em torno de objetivos comuns”, avalia.
Nesse contexto, ele cita iniciativas como a Rede BRCana-ACI, coordenada pela Embrapa, que busca apoiar a adaptação da produção de cana-de-açúcar aos princípios da Agricultura Climaticamente Inteligente.
“A proposta não é apenas desenvolver novas tecnologias. É criar ambientes favoráveis para acelerar sua adoção, ampliar sua escala de impacto e gerar evidências que apoiem decisões de investimento e financiamento”, explica.
Oportunidade para liderar a bioeconomia
Na avaliação do pesquisador, o Brasil reúne condições únicas para assumir protagonismo na bioeconomia global.
“Poucos países combinam simultaneamente escala agrícola, biodiversidade, energia renovável e conhecimento tropical acumulado. Isso cria oportunidades importantes para ampliar nossa participação nos mercados ligados à bioeconomia.”
Entre as possibilidades estão a produção de alimentos, biomassa, etanol, biometano, hidrogênio verde, bioeletricidade, bioplásticos e outros materiais de origem biológica.
No entanto, ele ressalta que essa liderança dependerá da continuidade dos investimentos em ciência, inovação, infraestrutura e adaptação climática.
“A nova fronteira da agricultura não será definida apenas por quem produz mais. Será definida por quem consegue produzir mais valor com maior previsibilidade, maior resiliência climática, maior eficiência ambiental e maior competitividade econômica.”
Para Bufon, a agricultura brasileira deve ser encarada não apenas como parte da agenda climática, mas como uma das principais plataformas econômicas da bioeconomia do século XXI.
“A liderança do futuro dependerá da capacidade de transformar produtividade, eficiência e sustentabilidade em previsibilidade produtiva, econômica e ambiental”, conclui.
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