Dia Mundial do Meio Ambiente e Oceano 2026

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Meio Ambiente e Oceano 2026

Heloisa Schurmann: “As leis têm que mudar para ontem”

Escrito por Neo Mondo | 5 de junho de 2026

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Heloisa Schurmann ao leme do veleiro Kat — quarenta anos navegando os mesmos oceanos que hoje ela defende - Foto: Divulgação

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

Heloisa Schurmann não fala sobre o oceano. Ela volta dele. Há uma diferença que importa: a maioria das pessoas que discute a crise dos mares nunca os habitou. Nunca dormiu dentro deles, nunca os atravessou em silêncio por semanas sem ver terra, nunca acordou numa manhã de Pacífico e encontrou, flutuando ao redor do veleiro, o rastro plástico de um mundo que nunca deveria ter chegado ali. Heloisa fez isso quarenta anos. Quatro expedições, mais de 65 países, três filhos criados a bordo sem escola em terra, um movimento global lançado com o PNUMA quando ficou impossível continuar navegando e fingir que não havia nada a dizer.

Ela não é uma ativista que escolheu o oceano como causa. É alguém que o oceano escolheu — e que voltou para contar o que viu mudar.

Neste especial, o Neo Mondo parte de uma premissa que a ciência já consolidou e que Heloisa Schurmann confirma com o peso de quem a viveu na pele: terra e oceano não são sistemas separados. O colapso é o mesmo. A leitura precisa ser integrada. E há poucas pessoas no mundo capazes de fazer essa leitura com a autoridade de quem atravessou os dois lados da linha — antes e depois do ponto em que a degradação deixou de ser previsão e se tornou paisagem.

Você partiu de Florianópolis em 1984 sem saber exatamente o que encontraria. Hoje, depois de quatro expedições e mais de 65 países, o que os oceanos que você navegou naquela primeira travessia dizem ao ser sobrepostos aos oceanos que você navega agora — e o que essa comparação direta, vivida no próprio corpo, revela que nenhum dado científico consegue traduzir?

Quando partimos de Florianópolis, em 1984, eu não tinha ideia de que o oceano se tornaria, além de nossa casa, um grande professor. Naquela época, o mar parecia infinito, intocável. Havia uma sensação quase ingênua de abundância. Navegávamos semanas sem ver lixo, sem sentir nenhuma inquietação pelo futuro dos oceanos. O mar era liberdade, aventura e descoberta.

Hoje, quando comparo aqueles oceanos com os que navego agora, a diferença está além dos dados. Ela está no silêncio que mudou — na ausência de vida em alguns lugares, no branqueamento dos corais que eu vi com os próprios olhos, na temperatura da água que sinto no corpo, nas rotas climáticas cada vez mais erráticas. O oceano perdeu estabilidade. E isso nenhum gráfico traduz completamente, porque eu não li essa mudança em relatórios. Eu atravessei essa mudança. Dormi em tempestades mais violentas, vi praias remotas cobertas de plástico, observei espécies desaparecendo de lugares onde antes eram abundantes.

Sinto uma tristeza particular em revisitar um lugar depois de décadas e perceber que ele já não respira da mesma maneira. Mas o mar também me ensinou algo que não estava nos livros: ainda existe resiliência. A natureza tem uma capacidade de regeneração extraordinária quando recebe alguma chance. É por isso que continuo navegando — não apesar do que vi, mas por causa do que ainda é possível.

Há um momento específico que você costuma citar: a parada em Henderson Island, no Pacífico, uma ilha de visitação raríssima, coberta de plástico. Esse tipo de cena — o colapso em lugares que deveriam ser intactos — muda a natureza do que se testemunha. Como é carregar essa memória dentro de um veleiro em movimento, sabendo que a próxima ilha pode repetir o cenário?

Henderson Island foi um divisor dentro de mim. Era o final dos anos 1990. Uma ilha praticamente inacessível, perdida no Pacífico Sul, onde imaginávamos encontrar um dos últimos lugares intactos do planeta. O que encontramos foi plástico. Muito plástico. Garrafas, boias e embalagens vindas do mundo inteiro. Ali entendi uma coisa que levei anos elaborando: não existe "longe". Não existe "fora". Tudo está conectado pelos oceanos.

Anos depois veio West Fayu, na Micronésia — outra ilha remota, outro cenário difícil de esquecer. E mais recentemente, com a expedição Voz dos Oceanos, a Indonésia, onde vimos rios, baías e praias sufocados pelo plástico, comunidades e vida marinha convivendo com o descarte, crianças crescendo cercadas por algo que nunca deveria ter chegado ali daquela forma. Cada um desses momentos trouxe uma compreensão diferente. Henderson foi o choque, em 1998. West Fayu, em 2015, foi a confirmação de que aquilo não era exceção. A Indonésia, em 2025, foi talvez o momento mais doloroso — porque ali a crise deixou de ser apenas ambiental. Ela era humana, social, econômica e emocional ao mesmo tempo.

Carregar essas memórias dentro de um veleiro muda completamente a forma como você navega. Você deixa de olhar uma ilha apenas como paisagem. Chega querendo entender o que o mar trouxe até ela — qual corrente carregou aquele lixo, qual sistema falhou antes daquele plástico parar ali. E existe também uma ansiedade silenciosa: quando avistamos uma ilha remota hoje, parte de mim ainda torce para que ela continue preservada. Mas outra parte já se prepara emocionalmente para o que pode encontrar.

O especial parte de uma premissa: terra e oceano não são sistemas separados. A floresta queimada no interior do Brasil não é um evento isolado do que acontece no Atlântico Sul. Você navegou a conexão entre esses dois sistemas antes de ela se tornar um argumento científico consolidado. O que o mar te ensinou sobre o que acontece longe dele?

O mar me ensinou que tudo está conectado muito antes de isso virar consenso científico. Quem vive navegando entende rapidamente que o oceano não respeita fronteiras políticas. O que acontece em terra inevitavelmente chega ao mar — sempre chega. Uma floresta queimada altera os ciclos da chuva, aquece o planeta, muda correntes atmosféricas e afeta diretamente os oceanos. O desmatamento da Amazônia interfere nos rios voadores, nos regimes climáticos e até na estabilidade das tempestades que enfrentamos no Atlântico Sul.

Nós defendemos essa conexão há muitos anos. É por isso que nossa Voz dos Oceanos levou a Casa Vozes do Oceano para a COP30, em Belém. Porque não existe Amazônia saudável sem oceano saudável. Como diz Sylvia Earle: sem o azul, não existe o verde. Depois de tantos anos navegando, aprendi que o oceano não é apenas uma vítima da crise climática — ele é regulador da vida no planeta. Produz grande parte do oxigênio que respiramos, absorve calor, captura carbono e sustenta economias e culturas inteiras.

E hoje ele também está nos dando sinais claros de esgotamento. O maior erro da humanidade talvez tenha sido acreditar que terra e oceano eram mundos separados. Essa separação nunca existiu. Nós é que precisamos de tempo para enxergar o que o oceano já sabia.

A expedição Voz dos Oceanos foi concebida como um movimento — não apenas uma travessia — para mobilizar governos, empresas e sociedade civil. Mas você disse, diante das Nações Unidas, que o prazo de 2050 para eliminar plástico dos oceanos é "longe demais da realidade". O que você viu nos bastidores dessas negociações que explica por que as decisões chegam sempre mais lentas do que a crise?

O que mais me impressiona nos bastidores dessas negociações é a distância entre a velocidade da natureza entrando em colapso e a velocidade das decisões humanas. O oceano não negocia prazos políticos. Enquanto discutimos metas para 2050, toneladas de plástico continuam entrando no mar todos os dias. Quando falei nas Nações Unidas que 2050 está longe demais da realidade, foi porque quem está no mar vê a situação de forma muito concreta: não estamos falando de uma ameaça futura. A crise já está acontecendo. E estamos atrasados.

Existe um conflito muito forte entre ciência, economia e interesses industriais. O Tratado Global do Plástico é essencial, mas avançar nele significa enfrentar modelos econômicos gigantescos baseados no plástico descartável e no consumo acelerado. No Brasil, isso se vê claramente no destino do PL 2524/2022 — o projeto sobre o fim dos plásticos de uso único que a Voz dos Oceanos apoia ao lado da Oceana e de outras organizações na campanha "Pare o Tsunami de Plástico". As pessoas assinaram a petição, mas por dois anos o processo ficou travado, alvo de pedidos de adiamento e debates prolongados na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado. O principal obstáculo tem nome: lobby. Econômico, organizado e eficiente.

A política muitas vezes não acompanha a velocidade da crise porque ainda existe medo de enfrentar setores poderosos. Mas o planeta não aguarda consenso. E talvez o que os bastidores dessas negociações revelem com mais clareza seja isto: já temos conhecimento suficiente para agir. O que falta não é informação.

O branqueamento dos corais, a poluição por microplástico em ilhas remotas, a instabilidade crescente das rotas climáticas que organizam a navegação — você não leu sobre isso em relatórios. Você atravessou tudo isso. O que muda na sua leitura de "urgência ambiental" quando a urgência é navegada e não apenas anunciada?

Quando você navega a urgência ambiental, ela deixa de ser abstrata. Ela ganha cheiro, temperatura, memória e rosto. Você sente no corpo a mudança das rotas climáticas — tempestades que antes tinham comportamento relativamente previsível se tornam mais intensas e erráticas. Lugares onde os corais eram vibrantes aparecem esbranquiçados, silenciosos, sem vida. A subida do nível do mar, em alguns lugares, já criou uma geração de refugiados climáticos. E o Rio Grande do Sul mostrou que isso está mais perto da nossa realidade do que qualquer um gostaria de admitir.

O que mais me perturba é perceber que tudo isso está acelerando. Os microplásticos em ilhas remotas me fizeram entender que a poluição não é mais localizada — ela já faz parte do sistema planetário. Está na água, no ar, na chuva, nas montanhas, na Antártida, nas Fossas Marianas, no sal, nos peixes, nos alimentos e no corpo humano. Quando você atravessa isso no mar, não existe distanciamento emocional possível. Não é uma manchete. É a sua rota. A sua ancoragem. O lugar onde você mergulha e o alimento de comunidades inteiras.

A urgência navegada muda porque ela deixa de ser uma previsão científica e vira experiência vivida. E experiência vivida não permite o conforto da dúvida.

Você educou três filhos a bordo, longe de qualquer currículo formal, com o mar como sala de aula. Essa geração que você criou nos oceanos — que relação eles têm com a crise que seus filhos e netos vão herdar? O que uma infância nos mares forma que a educação em terra não consegue?

Criar nossos filhos no mar foi uma das maiores aventuras e também um dos maiores aprendizados da minha vida. O oceano ensina algo que nenhuma escola consegue ensinar completamente: interdependência. Num barco, tudo importa — água, vento, alimento, energia, respeito, colaboração. As crianças crescem entendendo que fazem parte da natureza, não acima dela.

Nossos filhos aprenderam geografia navegando, história convivendo com culturas radicalmente diferentes e biologia mergulhando em recifes. As ilhas Galápagos foram sala de aula para a teoria de Darwin. Povos e tribos distantes ensinaram sobre adaptação e responsabilidade com o entorno. E o mar também ensina humildade de uma forma que nenhuma disciplina formal consegue: você entende cedo que não controla tudo, que a natureza precisa ser respeitada, que viver bem não significa consumir mais. Pescávamos para nossa alimentação, respeitando espécies e tamanhos. As consequências eram reais e imediatas — você aprende olhando o céu, observando o vento, cuidando dos recursos e entendendo limites.

Hoje vejo nossos filhos e netos conscientes da crise climática, mas também profundamente conectados com soluções. Porque crescer no mar ensina algo que vai além da ecologia: ensina que cuidar do planeta e cuidar de si mesmo são, no fundo, a mesma coisa.

O especial se encerra com a pergunta que não tem resposta fácil: o planeta ainda negocia ou já decidiu? Você passou quarenta anos observando o oceano mudar. Da perspectiva de quem esteve nos dois lados dessa linha — antes e depois do ponto em que a degradação se tornou inegável — o que você diria a um executivo ou gestor público que ainda trata a crise ambiental como variável de médio prazo?

Eu diria que a crise ambiental deixou de ser uma variável de médio prazo há muito tempo — e que o custo de continuar tratando-a assim já está na conta. Ela afeta economia, segurança alimentar, migração, saúde pública, seguros, infraestrutura e estabilidade social. O oceano já está cobrando. E ele não envia aviso prévio.

Durante décadas, as pessoas acreditaram que haveria tempo suficiente para ajustar a rota. Mas o planeta trabalha em outro relógio. O que vi nesses mais de quarenta anos foi uma aceleração brutal das mudanças — e talvez o mais perigoso não seja apenas o avanço da degradação, mas a normalização dela. As pessoas começam a se acostumar com extremos climáticos, enchentes, ondas de calor e perda de biodiversidade como se fossem parte inevitável da vida moderna. Não são. São sinais de um sistema que está perdendo equilíbrio em velocidade crescente.

Ainda existe espaço para transformação — mas não para lentidão. Para qualquer executivo ou gestor público, eu diria algo muito direto: sustentabilidade não é mais um departamento. É estratégia de sobrevivência econômica e humana. A janela ainda está aberta. Mas o oceano, que eu conheço há quarenta anos, não costuma avisar duas vezes.

Ao fim de uma conversa com Heloisa Schurmann, o que fica não é exatamente pessimismo — é algo mais exigente do que isso. É a clareza de quem não tem mais o luxo da dúvida. Quarenta anos no oceano ensinam que a natureza não aguarda consenso, não respeita prazo negociado em conferência e não emite nota de rodapé explicando o que acabou de acontecer. Ela simplesmente muda. E quem estava lá para ver a mudança carrega, para o resto da vida, a responsabilidade de não fingir que não sabe.

Há uma geração que cresceu no veleiro Kat sem aprender o nome dos países antes de cruzá-los, sem conhecer a escola antes de conhecer o vento, sem entender o oceano como abstração porque nunca tiveram essa opção. Essa geração existe. E o fato de ela existir — de Heloisa ter escolhido, décadas atrás, criar filhos dentro da crise antes de a crise ter nome — é talvez o argumento mais silencioso e mais contundente desta entrevista.

O planeta fora de equilíbrio não é uma metáfora editorial. É o relato de alguém que navegou o desequilíbrio quando ele ainda era apenas um pressentimento — e que segue navegando agora que é certeza.

Este conteúdo integra o especial “O Planeta Fora de Equilíbrio: Da Terra ao Oceano”, produzido pelo Neo Mondo para aprofundar o debate sobre a crise sistêmica do planeta e suas consequências econômicas, geopolíticas e civilizatórias. Um especial Neo Mondo em parceria com a Amanco Wavin e Redemar Brasil.

régua dos patrocinadores do especial, remete a matéria Heloisa Schurmann: "As leis têm que mudar para ontem"

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