Dia Mundial do Meio Ambiente e Oceano 2026

especial

Dia Mundial do
Meio Ambiente e Oceano 2026

O oceano não espera

Escrito por Neo Mondo | 5 de junho de 2026

Compartilhe:

Oceano — O farol do Arquipélago de Abrolhos, maior reserva de biodiversidade marinha do Atlântico Sul, vigia as águas que a Expedição "Abra os Olhos" da Redemar Brasil percorreu em 2024 para mapear o que os relatórios globais não conseguem ver. Foto: Divulgação/Redemar Brasil

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

William Freitas construiu um instituto de conservação marinha à margem do sistema — sem laboratório federal, sem linha orçamentária permanente, sem o amparo institucional que transforma boas intenções em política pública. O que ele tem é uma costa de 7.400 quilômetros, dados coletados por pescadores no Amapá sem acesso à internet, baleias jubarte no Atlântico Sul e a convicção — testada em três Conferências Oceânicas, duas expedições costeiras e um documentário que entrou na programação da Década da Ciência Oceânica da ONU — de que o oceano brasileiro ainda pode ser salvo. Mas o tempo que ele tem para provar isso está diminuindo na mesma velocidade em que o nível do mar sobe.

Fundado em 2016 em Salvador por William Freitas e sua esposa Taíse Patrocínio, o Instituto Redemar Brasil começou como uma resposta afetiva — a vontade de deixar o mar mais limpo para o filho. Em menos de uma década, tornou-se uma das organizações de conservação marinha mais operacionalmente diversificadas do país: o programa OMNEP monitora resíduos nas praias de Salvador e produziu publicação científica na Revista Brasileira de Meio Ambiente; o Projeto Costamar rastreia andadas reprodutivas do caranguejo-uçá no Amapá em parceria com a Petrobras Socioambiental; o aplicativo REMAR Cidadão transforma pescadores artesanais em produtores de dados científicos; o Projeto Baleias Soteropolitanas integra o programa internacional Whale Heritage Sites. Em setembro de 2025, a Redemar realizou a III Conferência Oceânica do Brasil, reunindo em Salvador a então presidente da Petrobras, a reitora da UNEB e o diretor da Secretaria Nacional de Pesca — e exibiu, no mesmo evento, o documentário "Abra os Olhos", registro de uma expedição que navegou mais de mil quilômetros da costa baiana para mapear o que os satélites não conseguem ver.

É nesse contexto — de acúmulo metodológico, de pressão crescente e de um Dia Mundial do Meio Ambiente que completa 54 anos sem que o oceano esteja mais protegido do que estava — que o Neo Mondo senta com William Freitas para uma conversa que recusa o tom de celebração. O que está funcionando, o que ainda não funciona e o que o Brasil continua se recusando a escutar.

A Redemar saiu de Salvador para o Amapá, firmou parceria com a Petrobras, assinou com a UNEB e co-realizou três Conferências Oceânicas. O que ainda não funciona quando um instituto regional tenta monitorar 7.400 quilômetros de costa sem estrutura federal e sem financiamento estável?

O que não funciona é o modelo de delegação invisível. O Brasil terceiriza informalmente a vigilância da sua Amazônia Azul para a boa vontade de institutos regionais, mas cobra deles uma burocracia de nível multinacional e entrega uma estabilidade financeira de curtíssimo prazo.

O ecossistema de financiamento é estruturado em projetos com começo, meio e fim. Nenhum edital paga a conta de luz, o aluguel da sede ou o salário fixo da equipe nos meses entre um projeto e o seguinte. Ciência costeira exige séries temporais contínuas — dados coletados sem pausa por anos. Quando o financiamento acaba, o monitoramento para, a memória técnica se perde e os pesquisadores migram para o mercado para sobreviver.

Além disso, o Brasil sofre de uma fragmentação institucional severa. As informações coletadas por uma ONG no Amapá, por uma universidade na Bahia ou por um órgão estadual no Rio de Janeiro frequentemente não se comunicam. O conhecimento fica em ilhas. O terceiro setor acaba suprindo uma obrigação do Estado sem ter o respaldo de um sistema nacional que absorva, valide e transforme esses dados em política pública.

O mar ainda é tratado em Brasília como pano de fundo para o turismo ou como fronteira extrativista — petróleo e pesca —, não como um bioma infraestrutural que regula o clima do país e sustenta comunidades tradicionais. Sem pressão política centralizada, o monitoramento costeiro é tratado como ativismo, nunca como segurança nacional.

O OMNEP gerou publicação científica e identifica resíduos diariamente nas praias de Salvador. A III Conferência reuniu a cúpula institucional do setor. O que falta para que o dado produzido na areia alimente concretamente a Lei do Mar?

O que falta não é articulação política nem competência técnica — a Redemar já demonstrou dominar as duas pontas. O que falta é a ponte metodológica que integre o dado de campo ao monitoramento público oficial.

Os sistemas ministeriais que alimentam a PNCMar operam em plataformas rígidas, inacessíveis ao terceiro setor. É necessário criar mecanismos de ciência cidadã validada, pelos quais dados coletados por institutos regionais — desde que sigam metodologias rigorosas como a do OMNEP — ganhem status oficial para nortear as metas de combate ao lixo marinho previstas na Lei do Mar.

Há também um dado que a burocracia ainda não sabe como absorver: o saber das comunidades tradicionais. O pescador identifica onde a mancha de plástico se concentra antes mesmo de o satélite registrar. Falta à PNCMar institucionalizar ferramentas que traduzam esse conhecimento em indicadores formais de saúde oceânica.

Por fim, é preciso descentralizar o orçamento. A Lei do Mar não se implementa em Brasília. Ela se faz no Farol da Barra, em Itapuã, nas comunidades isoladas do Amapá. Financiar o instituto regional que produz o dado na praia é a forma mais barata e eficiente de o governo federal capilarizar a PNCMar.

O que a Expedição "Abra os Olhos" encontrou na costa baiana que satélites e relatórios multilaterais simplesmente não mostravam?

Satélites olham a superfície; relatórios multilaterais trabalham com médias globais. Nenhum dos dois coloca a mão na água. A expedição preencheu três pontos cegos que a tecnologia espacial e a burocracia internacional não conseguem enxergar.

O primeiro é a concentração real de microplásticos. Partículas menores que cinco milímetros são invisíveis para sensores remotos. A coleta física com redes de arrasto específicas revelou o tipo de polímero que contamina a base da cadeia alimentar local — dado que transforma campanhas genéricas em instrumentos de regulação de fontes específicas de poluição.

O segundo é a saúde efetiva dos recifes. O satélite indica quando o coral pode branquear, mas só o mergulhador-cientista verifica a taxa real de resiliência, a presença de doenças e se há novas colônias se estabelecendo. Isso define onde concentrar os recursos escassos de fiscalização ambiental.

O terceiro ponto cego é humano: a percepção dos pescadores e das comunidades tradicionais que vivem dessa costa. Cruzar o monitoramento científico com o relato de quem está no mar todos os dias é o que tira o oceano do plano abstrato dos gráficos da ONU e o coloca na mesa dos prefeitos, dos secretários de meio ambiente e dos comitês de bacia hidrográfica.

O REMAR Cidadão permite que pescadores registrem dados mesmo sem internet. Como o dado coletado por um pescador artesanal no Amapá adquire o rigor que legitima uma publicação científica ou uma decisão de política pública?

O rigor não está em filtrar quem coleta. Está em padronizar o que se coleta e em submeter tudo ao crivo científico antes que qualquer dado oriente uma decisão pública.

O aplicativo funciona como instrumento exclusivo de inserção de dados. O mesmo questionário é respondido por pescadores, catadores de caranguejo, cientistas ou gestores públicos — sem distinção de formulário por categoria de usuário. Os dados inseridos passam pela análise de especialistas, que verificam consistências e identificam anomalias.

O que temos observado é que as informações recebidas pelo aplicativo batem com a realidade de campo. Elas vão compor séries temporais que permitirão análises inéditas sobre os ciclos de andada do caranguejo-uçá no Amapá — uma região onde esses períodos ocorrem em datas distintas do restante do Brasil, por parte do litoral estar acima da linha do Equador.

A Educação Azul fala em "conexão emocional com o oceano" como base da formação. Mas emoção, sozinha, não produz cientistas nem gestores. Como a Redemar mede se esse vínculo afetivo se converte em capacidade real de agir?

A crítica é correta: romantismo não salva oceanos. O afeto não é o destino do programa — é a porta de entrada cognitiva. A neurociência e a psicopedagogia mostram que o cérebro humano só retém e se mobiliza por aquilo com que se conecta emocionalmente. O afeto é o combustível; a competência técnica é o motor.

O programa mede essa conversão em três eixos práticos. O primeiro é a alfabetização oceânica: avaliações diagnósticas antes e depois de cada ciclo verificam se o aluno passou de "não podemos poluir o mar porque os peixes morrem" para formular que o descarte inadequado de resíduos compromete a integridade dos ecossistemas estuarinos e a economia da pesca local.

O segundo eixo é a ciência cidadã aplicada: no litoral de Lauro de Freitas, os estudantes delimitam quadrantes na areia, classificam microplásticos por tipologia de polímero e registram dados em planilhas de monitoramento real. O terceiro é o protagonismo juvenil, medido pela entrega de projetos autorais que mapeiam um problema socioambiental do território e propõem uma intervenção concreta — campanhas para pescadores locais, cartilhas ecológicas, propostas de manejo de resíduos para barracas de praia.

Não estamos medindo quantos alunos acham o mar bonito. Estamos medindo quantos aprenderam a ler uma tábua de marés e quantos conseguem usar a ciência para defender seu território.

A Redemar aposta em cinema, medalhas e experiências sensoriais para além do dado técnico. Essa escolha consome recursos que poderiam ir para monitoramento. Como o senhor justifica essa aposta quando o oceano se degrada mais rápido do que qualquer festival consegue acompanhar?

Temos os relatórios mais precisos da história sobre o colapso climático há três décadas — e as emissões continuam subindo. A ciência aponta o problema; a advocacia legislativa tenta impor a regra. Mas nenhuma lei se sustenta se a sociedade não compreender o valor daquilo que está sendo protegido.

A visita náutica pela Baía de Todos os Santos não é turismo: é choque de realidade. Uma coisa é ler sobre o impacto do assoreamento em um relatório. Outra é o gestor público ver o plástico flutuando ao lado do barco. A experiência sensorial encurta o caminho entre a mente e a ação — e economiza meses de tentativas frustradas de agendamento em gabinetes fechados.

A Medalha Tia Ciata é ferramenta de fortalecimento político. As pessoas na linha de frente da conservação marinha costumam estar exaustas e desvalorizadas. Reconhecê-las publicamente legitima suas vozes perante o Estado e gera o capital social que produz advocacia legislativa espontânea e duradoura. O documentário "Abra os Olhos" cumpre o papel de tradutor: de que serve um dado preciso guardado em uma gaveta universitária se o morador de Salvador não sabe o que ele significa para a própria vida?

Não estamos trocando monitoramento por cultura. Estamos entendendo que a cultura é o solo onde a semente da ciência germina. Sem pertencimento ao mar, qualquer vitória legislativa é frágil.

O que o Dia Mundial do Meio Ambiente de 2026 representa para a Redemar — e o que mudou de verdade desde a última vez que o senhor esteve nesta data com algo novo a anunciar?

O que mudou é a passagem do voluntariado internacional para a força da lei. Nas últimas grandes conferências, a sociedade civil celebrava majoritariamente compromissos que os países cumprem se as pressões políticas internas permitirem. A UNOC3, em Nice, operou sob essa mesma lógica. O que é diferente agora é que o Brasil ratificou o Tratado BBNJ — e o que era promessa de bastidor tornou-se realidade jurídica com força de lei internacional.

Pela primeira vez existem mecanismos com algum grau de obrigatoriedade para a criação de áreas marinhas protegidas além das jurisdições nacionais. Isso muda o peso do dado que a Redemar produz em campo. O monitoramento do caranguejo-uçá no Amapá deixa de ser um relatório regional para subsidiar metas de conservação exigidas por novos marcos internacionais. As expedições que mapeiam microplásticos e corais da Bahia até Abrolhos tornam-se os tijolos que sustentam a posição do Brasil no cenário global.

O voluntariado internacional cansou; a era da governança marinha com dentes começou. Este 5 de junho representa a consolidação de que a aposta estava certa: a conservação do oceano global depende do rigor e da mobilização social que aplicamos em cada quilômetro da nossa própria costa.

foto de william freitas, remete a materia O oceano não espera
William Freitas, presidente da Redemar Brasil - Foto: Divulgação/Redemar Brasil

Quando a entrevista termina, William Freitas ainda está falando do caranguejo-uçá — da forma como a espécie cava o substrato do manguezal, aerando a lama, retendo nutrientes, sustentando uma cadeia que vai do fundo até a mesa de milhões de brasileiros. Ele fala como alguém que esteve na lama. Não como metáfora: como dado de campo.

Há algo que as grandes conferências sobre oceanos — Nice, Lisboa, Nova York — tendem a produzir em excesso e que institutos como a Redemar tendem a corrigir em silêncio: a distância entre o comprometimento declarado e o conhecimento concreto do que está, de fato, acontecendo na costa. A Redemar não resolve essa distância. Mas a mede. E medir, quando ninguém está medindo, já é uma forma de resistência.

O oceano não negocia com calendários. Ele não sabe que 5 de junho existe. Mas as pessoas que tomam decisões sobre ele — nos ministérios, nas salas de conselho, nas bancadas do Legislativo — precisam de quem traga, com frequência e sem eufemismo, o que está acontecendo onde a onda encontra o pé da gente. É para isso que William Freitas acorda. E é por isso que esta conversa importa além desta data.

Este conteúdo integra o especial “O Planeta Fora de Equilíbrio: Da Terra ao Oceano”, produzido pelo Neo Mondo para aprofundar o debate sobre a crise sistêmica do planeta e suas consequências econômicas, geopolíticas e civilizatórias. Um especial Neo Mondo em parceria com a Amanco Wavin e Redemar Brasil.

régua dos patrocinadores do especial, remete a matéria A água que liga tudo: ciclo hidrológico em ruptura e o que isso muda na segurança alimentar global

Compartilhe:


Artigos anteriores:

O planeta manda sinais. A questão é o que fazemos com eles

Viver em harmonia com a natureza: um dia chegamos lá

Índice + Os Sinais do Planeta


Artigos relacionados