Dia Mundial do Meio Ambiente e Oceano 2026
Escrito por Neo Mondo | 5 de junho de 2026
Mar que inspira a beleza também precisa ser protegido para continuar cuidando da vida - Foto: Ilustrativa/Magnific
POR - DRA. MARCELA BARALDI*, COLUNISTA DO NEO MONDO
Sabe aquela sensação de entrar no mar e sentir que a pele respira diferente? Não é impressão. É bioquímica. A água do oceano, rica em magnésio, cálcio, potássio e sódio, interage com nossa barreira cutânea de um jeito que a ciência demorou a entender — e que a indústria da beleza está apenas começando a traduzir em fórmula. Mas há algo nessa conversa que me inquieta profundamente, e que eu precisava trazer para cá: o oceano que inspira os nossos cosméticos está sob pressão. E isso importa muito mais do que parece.
Deixa eu te contar o porquê.
A barreira cutânea é um sistema de proteção. Ela regula o que entra e o que sai, mantém a hidratação, neutraliza agressores externos, filtra poluentes. Quando essa barreira falha — por estresse, por poluição, por exposição excessiva ao sol, por cosméticos inadequados — a pele inflama, resseca, envelhece antes do tempo. A dermatologia passou décadas estudando como fortalecer essa fronteira. E descobriu que os melhores aliados estão, muitas vezes, no mar.
Os organismos marinhos desenvolveram, ao longo de milhões de anos, mecanismos extraordinários de proteção e regeneração. O fucoidan, polissacarídeo extraído de algas marrons de águas frias, reforça a barreira cutânea e tem ação anti-inflamatória documentada. O colágeno marinho — obtido de escamas e pele de peixes — tem moléculas menores que o colágeno bovino, o que facilita a absorção e a ação na derme. Microalgas produzem antioxidantes que protegem as células cutâneas de danos por radiação UV e poluição digital. O oceano, literalmente, faz pela pele o que a pele não consegue mais fazer sozinha num mundo sobreaquecido.
Olha só que fascinante: os mecanismos que esses organismos marinhos desenvolveram para sobreviver a condições extremas — alta pressão, pouca luz, variações bruscas de temperatura — são exatamente as respostas que precisamos para preparar a pele para o ambiente do século XXI. A ciência não copiou a natureza. Aprendeu com ela.
Mas aqui vem a parte que me tira o sono como médica dermatologista e como pessoa que escolheu escrever sobre beleza com consciência: o oceano que nos dá esses ativos incríveis está em colapso silencioso.
Desde o início da Revolução Industrial, o pH dos oceanos caiu de 8,2 para 8,1. Parece pouco. Mas o pH é medido em escala logarítmica — essa variação representa uma acidez 30% maior. E a projeção é de queda de até 0,4 unidades até o final do século, o que tornaria os oceanos 120% mais ácidos. Para os organismos marinhos que precisam de carbonato de cálcio para construir conchas e esqueletos — corais, moluscos, pterópodes —, esse nível de acidez é, em muitos casos, letal. Entre janeiro de 2023 e abril de 2025, 84% dos recifes de coral do planeta foram atingidos pelo maior evento de branqueamento em massa já registrado — em 83 países. Esses recifes sustentam 25% de toda a vida marinha do planeta. E as algas que a indústria da beleza busca com crescente entusiasmo vivem, exatamente, nesses ecossistemas.
Há ainda um paradoxo que a indústria da beleza precisa encarar sem desviar o olhar: parte do problema que ameaça o oceano veio dela. Os microplásticos intencionalmente adicionados a esfoliantes, glitters e produtos de brilho — microesferas que passam pelos filtros das estações de tratamento de esgoto — chegam ao ambiente marinho e interferem nos processos biológicos responsáveis pelo sequestro de carbono. O fitoplâncton e o zooplâncton, afetados por essas partículas, reduzem sua eficiência fotossintética. E menos fotossíntese oceânica significa mais CO₂ na atmosfera. Significa mais aquecimento. Significa mais acidificação. O círculo se fecha — e a pele que queríamos cuidar paga a conta junto com o planeta. O governo brasileiro lançou em outubro de 2025 a Estratégia Nacional Oceano Sem Plástico, que prevê, entre outras medidas, a proibição de microplásticos intencionalmente adicionados a cosméticos. É um passo na direção certa. Mas ele exige que a indústria ande mais rápido do que o cronograma regulatório.
A boa notícia — e eu adoro uma boa notícia fundamentada — é que a biotecnologia marinha abriu uma saída elegante para esse dilema. Hoje, grande parte dos ingredientes marinhos usados em formulações de alta performance é obtida por cultivo controlado em laboratório ou em biorreatores com condições sustentáveis. Não há extração direta do ecossistema. O fucoidan que vai no seu sérum não precisou arrancar nada do fundo do mar. Essa é a blue beauty que eu acredito: não apenas inspirada pelo oceano, mas comprometida com a saúde dele.
Para mim, que acompanho de perto a evolução da ecobeauty, essa convergência entre dermatologia e oceanografia não é coincidência — é consequência. A pele e o oceano compartilham a mesma lógica: são sistemas de barreira sob pressão de agressores que os desequilibram. A acidificação dos mares e o comprometimento da barreira cutânea são fenômenos da mesma família. E as soluções também se parecem: restaurar o equilíbrio, reduzir as agressões, fortalecer o que protege.
Quando você abre um frasco de sérum com extrato de alga ou colágeno marinho, você está usando o mar. A pergunta que a ecobeauty precisa responder — e que eu faço a mim mesma toda vez que formulo ou recomendo um produto — é: esse gesto cuida da pele sem comprometer o sistema que a inspira?
A resposta ainda não é sempre sim. Mas está ficando mais próxima. E isso, para mim, é beleza no sentido mais verdadeiro da palavra.
Este conteúdo integra o especial “O Planeta Fora de Equilíbrio: Da Terra ao Oceano”, produzido pelo Neo Mondo para aprofundar o debate sobre a crise sistêmica do planeta e suas consequências econômicas, geopolíticas e civilizatórias. Um especial Neo Mondo em parceria com a Amanco Wavin e Redemar Brasil.

*Dra. Marcela Baraldi é médica dermatologista, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia, com atuação no corpo clínico do Hospital Israelita Albert Einstein e em consultório particular. Atualmente, cursa MBA em Estratégia e Gestão de Negócios pela Fundação Getulio Vargas. É colunista do portal Neo Mondo. CRM: 151733 | RQE: 66127.

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