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Escrito por Daniel Medeiros | 17 de agosto de 2026
Lição de humanidade — estender a mão ainda é uma das formas mais profundas de reconhecer o outro - Imagem gerada por IA - Ilustrativa/Neo Mondo
POR - DANIEL MEDEIROS*
A atitude compassiva foi um dos pilares da civilização ocidental. Entre os gregos, ser acolhedor com o estrangeiro, dar-lhe comida e teto, recebê-lo com zelo e sem cobrar nada em troca era uma das condições para garantir a reputação de uma família, de uma cidade, de um povo. Polifemo, o ciclope da Odisseia, era um ser incivilizado porque não cultuava os deuses, não cultivava a terra e não recebia bem os hóspedes. Era um hostil.
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Nas religiões monoteístas, dos hebreus aos muçulmanos, a caridade foi elemento essencial do exercício da fé. Os cristãos a elevaram a outra potência, como demonstra boa parte dos milagres de Jesus, da transformação da água em vinho à multiplicação dos pães e dos peixes, voltados a atender ao outro e às suas necessidades.
Recentemente, em Curitiba, um vereador propôs uma lei para proibir que as pessoas façam caridade com a população em situação de rua. Em São Paulo, um padre conhecido por esse trabalho é constantemente hostilizado e acusado de "ajudar bandido e drogado". A distância entre Odisseu, nu e faminto, recebido com honras na corte dos feácios, e o que hoje se pratica nas nossas cidades é gigantesca. O mesmo vale para a parábola do bom samaritano, em Lucas 10, versículos 30 a 37, em que Jesus ensina que o verdadeiro amor ao próximo inclui cuidar de quem sofre, sem olhar a quem. Distância que não separa cristãos de não cristãos, mas cristãos de "novos cristãos". Pesquisa publicada na Folha de S.Paulo mostrou que 44% dos brasileiros consideram que os pobres são pobres por culpa própria. Com frequência tomamos conhecimento de moradores de rua agredidos e, muitos deles, mortos por quem não suporta sua presença na cidade, sob a alegação de que estragam a paisagem e desvalorizam os imóveis. Há poucos dias, uma vereadora de Curitiba, nascida em uma cidade de Santa Catarina, gritou para outra vereadora, de origem cearense: "Por que a senhora não volta para o Ceará? Por que a senhora veio para cá? A senhora nasceu lá, mas vem encher o saco aqui". Hostil.
Alcir Lenharo, seguindo as pistas lançadas pelo filósofo Walter Benjamin, demonstrou, em seu livro Nazismo: o triunfo da vontade, como o fascismo não se sustentava apenas pela repressão e pelo terror, mas também, e de maneira decisiva, pela sedução estética, pelo rito e pela produção de consensos no plano do imaginário. No fascismo, a categoria do "feio" não se traduz como uma variação do gosto subjetivo, mas se revela como uma patologia moral e biológica que ameaça a integridade do corpo social. Para expulsá-lo das vistas das "pessoas de bem", o fascismo antes o torna repulsivo, operando uma fusão sistemática entre juízo estético, higiene sanitária e aniquilação política. Algo parecido vem ocorrendo nos ambientes mais destacados de nossas grandes cidades: o feio destoa, o feio precisa ser removido, e então o feio é aniquilado. Ufa! Nossa cidade voltou a ficar bonita.
O mais impressionante é que não há, na perspectiva de muitos novos cristãos, ou cristãos do século XXI, qualquer sentimento de contradição entre essa postura e o que ensinam os Evangelhos. A ideia do acolhimento, de estender a mão, de ajudar alguém sem olhar a quem, nada disso parece fazer muito sentido, pois, como disse recentemente o prefeito de uma importante capital do Sul do Brasil, "rua não é moradia". Ora, penso eu, são poucos os que escolhem a rua, principalmente diante de opções acolhedoras. Mas recolhimento é acolhimento?
O Portal G1 publicou, em 9 de janeiro de 2026, que as denúncias de trabalho escravo bateram novo recorde no Brasil em 2025: foram 4.515 registros ao longo do ano, segundo dados do Ministério dos Direitos Humanos. A construção civil e o agronegócio concentraram o maior número de resgates, que somam mais de 65 mil trabalhadores libertados desde 1995.
Quem não quer trabalhar, se o trabalho garante não apenas a saúde do corpo, mas também a dignidade do cidadão? A pergunta importante é outra: quem quer oferecer esse tipo de trabalho? Penso que a regra deveria ser simples. Se eu não for capaz de me imaginar vivendo nessas condições e com esse salário, não deveria me sentir no direito de oferecê-las a ninguém.
Em Mateus 25, versículos 35 a 40, lê-se: "Pois eu tive fome, e vocês me deram de comer; tive sede, e vocês me deram de beber; fui estrangeiro, e vocês me acolheram; necessitei de roupas, e vocês me vestiram; estive enfermo, e vocês cuidaram de mim; estive preso, e vocês me visitaram". Então os justos lhe responderão: "Senhor, quando te vimos com fome e te demos de comer, ou com sede e te demos de beber? Quando te vimos como estrangeiro e te acolhemos, ou necessitado de roupas e te vestimos? Quando te vimos enfermo ou preso e fomos te visitar?". E o Rei responderá: "Em verdade lhes digo que tudo o que vocês fizeram a algum desses meus pequenos irmãos, a mim o fizeram".
Acolher, proteger, confortar, ajudar, restabelecer, encaminhar, acompanhar, oferecer. Todas essas ações estavam no centro dos deveres do cidadão nas duas matrizes do pensamento ocidental: a greco-romana e a judaico-cristã.
Onde foi que deixamos isso se perder?
*Daniel Medeiros - Advogado e especialista em Filosofia Contemporânea pela PUCPR. Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR. Pós doutorando em Bioética pela PUCPR. Professor da Especialização em Filosofia do Direito, da Escola de Direito, e Especialização em Neurociência e Educação, da Escola de Educação e Humanidades da PUCPR. Autor da Coluna Cuidados Humanos, da revista Humanitas. Conselheiro e colunista do portal Neo Mondo.

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