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A transição que precisa de mineração para acabar com a mineração: os paradoxos ambientais da descarbonização

Escrito por Neo Mondo | 5 de junho de 2026

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Transição energética vista de perto: a tecnologia que ajuda a reduzir emissões também revela os desafios materiais, ambientais e geopolíticos da descarbonização em escala global - Foto: Oscar Lopes/Neo Mondo

POR - REDAÇÃO NEO MONDO

Uma turbina eólica offshore de 15 megawatts — padrão das instalações de nova geração que estão sendo implantadas em escala no Mar do Norte e planejadas para o litoral brasileiro — exige, em sua fabricação, aproximadamente 900 toneladas de aço, 2.500 toneladas de concreto, 40 toneladas de cobre, 600 kg de terras raras para os ímãs permanentes do gerador e quantidades expressivas de fibra de carbono para as pás. A bateria que armazena a energia gerada por essa turbina, em um sistema de armazenamento de escala de rede, adiciona lítio, cobalto, manganês e grafita à lista. Multiplicado pelas milhares de turbinas, painéis solares, linhas de transmissão e sistemas de armazenamento que a transição energética exige, esse inventário de materiais equivale ao maior ciclo de extração mineral da história humana — conduzido em nome da sustentabilidade.

Essa não é uma crítica à transição energética. É uma descrição de sua complexidade real.

A descarbonização da economia global é necessária, inadiável e tecnicamente viável. Mas ela não acontece no vácuo — acontece em territórios, em biomas, em litorais e em fundos de oceano, com consequências ambientais e sociais que variam enormemente conforme onde, como e por quem os recursos são extraídos. Ignorar essa dimensão não acelera a transição. Apenas transfere seus custos para populações e ecossistemas que raramente aparecem nas projeções de emissões dos relatórios de sustentabilidade das empresas que compram os minerais.

A IEA documentou a extensão dessa pressão no *Global Critical Minerals Outlook 2025*: a demanda por lítio deve multiplicar por oito até 2040 em um cenário de transição alinhado com as metas de Paris. A demanda por cobalto, grafita, níquel e terras raras cresce em proporções similares. Essa demanda não cria novos depósitos minerais — ela intensifica a pressão sobre os existentes, concentrados geograficamente em regiões com graus variáveis de governança ambiental, proteção de comunidades locais e capacidade de fiscalização. O Triângulo do Lítio na América do Sul — Argentina, Bolívia e Chile — abriga as maiores reservas mundiais em ecossistemas de alta altitude, salares e zonas áridas com biodiversidade endêmica e comunidades indígenas com direitos territoriais que os fluxos de capital da transição verde raramente respeitam com a consistência que os relatórios ESG prometem.

No Brasil, o paradoxo se apresenta com uma especificidade que obriga à honestidade: o país tem a maior plataforma de energia renovável da América Latina — com 90% da geração elétrica proveniente de fontes renováveis, incluindo hidrelétricas, eólica e solar —, mas essa limpeza elétrica convive com uma contradição que o relatório *Brazil's Climate Paradox* de dezembro de 2025 documentou com precisão: em 2025, o setor de energia solar e eólica gerou 396 mil empregos diretos e indiretos e 13 bilhões de reais em receita fiscal. E, ao mesmo tempo, os geradores renováveis sofreram perdas de 4,8 bilhões de reais no ano por curtailment — cortes compulsórios de geração impostos pelo Operador Nacional do Sistema quando a produção supera a capacidade da rede de transmissão de distribuí-la. O Brasil produz energia limpa e a desperdiça porque não investiu na infraestrutura de transmissão e armazenamento que tornaria essa energia disponível onde e quando é necessária.

A energia eólica offshore adiciona uma camada oceânica a esse quadro. O Brasil tem o maior potencial eólico offshore do mundo — estimado em mais de 700 GW pela Empresa de Pesquisa Energética —, concentrado em uma faixa de litoral que vai do Ceará ao Rio Grande do Sul, com ventos consistentes e plataforma continental com profundidades adequadas para fundações fixas. Mas instalar turbinas no oceano não é ambientalmente neutro. Os cabos de transmissão alteram sedimentos do fundo marinho. As fundações criam substrato artificial que muda a composição das comunidades bentônicas locais. O ruído submarino da construção afeta cetáceos e peixes. A escala de implantação planejada — o governo brasileiro definiu leilões para projetos offshore ainda em 2026 — exige avaliação ambiental que ainda não foi realizada com a profundidade que a escala dos projetos demanda.

Isso não significa que a energia offshore não deva ser desenvolvida. Significa que desenvolvê-la sem planejamento espacial marinho robusto, sem dados de linha de base adequados sobre os ecossistemas afetados e sem mecanismos de compensação transparentes é repetir, no oceano, os erros que a expansão da hidroeletricidade cometeu nos rios — com ecossistemas e comunidades pagando o custo que os balanços das concessionárias não registram.

A China, que em 2025 instalou mais capacidade de energia renovável do que o crescimento total de sua demanda elétrica — e exportou mais de 200 bilhões de dólares em tecnologias limpas —, demonstra que a transição energética em escala é tecnicamente e economicamente alcançável. Mas a liderança chinesa em tecnologias limpas é inseparável de seu domínio sobre cadeias de processamento de minerais críticos — o mesmo domínio que lhe confere poder geopolítico sobre os países que compram seus painéis, suas baterias e seus componentes de turbinas. A transição energética global, como está estruturada atualmente, não reduz a dependência de cadeias de suprimento concentradas. Apenas substitui a dependência do petróleo do Oriente Médio pela dependência de minerais processados na China.

Há soluções emergindo na interseção entre tecnologia e biologia que podem alterar essa equação. O carbono azul — o carbono sequestrado por manguezais, pradarias marinhas e marismas costeiros — representa uma alternativa de mitigação climática com perfil radicalmente diferente da mineração. Manguezais sequestram carbono até cinco vezes mais rápido por hectare do que florestas tropicais, não exigem extração mineral, geram serviços ecossistêmicos adicionais em proteção costeira e berçário de espécies, e podem ser restaurados em escala com custos que os mercados de carbono emergentes podem cobrir. O Brasil possui a maior área de manguezais do mundo — um ativo que a política climática nacional ainda não mobilizou de forma estratégica.

A transição energética que o planeta precisa não é aquela que apenas substitui a fonte de energia enquanto reproduz as lógicas extrativistas e as assimetrias geopolíticas que organizaram a economia de carbono. É uma transição que redesenha, simultaneamente, como a energia é produzida, como os recursos são extraídos e processados, como os custos e os benefícios são distribuídos, e como os ecossistemas que sustentam tudo isso são protegidos. Essa transição é mais lenta, mais complexa e mais politicamente custosa do que as versões simplificadas que habitam a maioria dos roteiros de descarbonização.

Mas é a única que funciona.

Este conteúdo integra o especial “O Planeta Fora de Equilíbrio: Da Terra ao Oceano”, produzido pelo Neo Mondo para aprofundar o debate sobre a crise sistêmica do planeta e suas consequências econômicas, geopolíticas e civilizatórias. Um especial Neo Mondo em parceria com a Amanco Wavin e Redemar Brasil.

régua dos patrocinadores do especial, remete a matéria A transição que precisa de mineração para acabar com a mineração: os paradoxos ambientais da descarbonização


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