Dia Mundial do Meio Ambiente e Oceano 2026

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Dia Mundial do
Meio Ambiente e Oceano 2026

As tartarugas marinhas podem ser embaixadoras de uma nova forma de pensar o desenvolvimento

Escrito por Neo Mondo | 5 de junho de 2026

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Tartarugas que atravessam os oceanos há milhões de anos seguem ajudando a ciência a decifrar os sinais de um planeta em transformação. Na imagem, a bióloga Camila Domit (à esquerda) ao lado de Daiane Marcondes, sua orientanda de mestrado, durante atividade de monitoramento e conservação da fauna marinha no litoral brasileiro. Foto: Acervo pessoal

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

Ela entrou na água pela primeira vez para capturar uma tartaruga marinha em 2007. Desde então, não parou. Não porque a ciência a prendia ao campo — mas porque o campo insistia em revelar algo que nenhum laboratório conseguia conter: um ecossistema inteiro pedindo socorro através de um réptil de 40 centímetros com tumores no corpo e plástico no intestino. Camila Domit, professora da Universidade Federal do Paraná e coordenadora do Laboratório de Ecologia e Conservação, construiu ao longo de duas décadas uma das séries históricas mais robustas sobre biodiversidade marinha costeira do Atlântico Sul — e o fez num estuário que concentra quatro designações UNESCO, mosaicos de unidades de conservação federais, estaduais e municipais, e mais de 32 mil animais mortos encalhados em dez anos de monitoramento de praias. O Complexo Estuarino de Paranaguá é, simultaneamente, Patrimônio da Humanidade e espelho de tudo que o Brasil ainda não decidiu enfrentar. Finalista do Whitley Award 2026 — o mais prestigioso prêmio internacional de conservação da biodiversidade —, Domit é uma das pesquisadoras que mais claramente articula, no Brasil, a passagem da ciência à decisão. Não como promessa. Como exigência.

Você costuma definir as tartarugas marinhas como sentinelas ambientais — organismos capazes de acumular, ao longo de décadas, sinais biológicos, químicos e ecológicos do ambiente em que vivem. Hoje, essas sentinelas mostram que 80% dos juvenis monitorados no litoral paranaense apresentam resíduos no trato digestório, que a fibropapilomatose atinge metade da população avaliada e que bactérias multirresistentes circulam no ecossistema. A ciência produziu o diagnóstico. O que ainda impede que esse conhecimento se transforme em prioridade política?

O principal obstáculo hoje não está na ausência de conhecimento científico. Ao longo das últimas décadas, acumulamos evidências consistentes mostrando que as tartarugas marinhas refletem as alterações profundas que temos observado na qualidade ambiental dos ecossistemas costeiros. O que ainda enfrentamos é uma dificuldade histórica de transformar informações científicas em processos robustos e eficientes de tomada de decisão — especialmente quando tratamos de pressões ambientais difusas e cumulativas, como a contaminação por plástico ou por compostos químicos, que se manifestam em escalas de tempo maiores do que os ciclos políticos e econômicos.

Temos avanços significativos em políticas públicas — o Plano de Ação Nacional para a Conservação de Tartarugas Marinhas, o Plano Nacional de Combate ao Lixo no Mar, o Plano Nacional para a Década do Oceano. Mas converter políticas em ações concretas no território exige esforços coletivos, participativos e integrados. Ainda há uma distância considerável entre múltiplos interesses individuais e o interesse coletivo — o bem-estar e a saúde ambiental como valores compartilhados.

A fibropapilomatose é frequentemente associada a ambientes sob forte pressão antrópica e aparece justamente quando os organismos estão mais vulneráveis. Quando uma doença passa a refletir não apenas a condição de um animal, mas a condição de um ecossistema inteiro, o que ela nos revela sobre a qualidade ambiental das zonas costeiras brasileiras e sobre nossa capacidade de prevenir processos de degradação antes que se tornem irreversíveis?

A fibropapilomatose é um exemplo preciso para esta discussão sobre como espécies marinhas funcionam como sentinelas da condição ecossistêmica e da saúde do planeta. A doença é frequentemente associada a ambientes sob forte pressão antrópica e aparece quando os organismos estão mais vulneráveis ao longo de seu ciclo de vida. Ela reflete a condição de saúde e estresse do indivíduo, mas também de todo o ecossistema — porque são os estressores ambientais os responsáveis por fragilizar a condição imunológica do animal. Isso nos revela sobre a qualidade ambiental das zonas costeiras, das bacias hidrográficas que deságuam no mar e do oceano que banha a região.

Sabemos que existe um vírus associado à doença, mas também sabemos que sua manifestação está ligada a fatores ambientais que comprometem o sistema imunológico dos animais: poluição, degradação de habitats, alterações na qualidade da água. Quando observamos que cerca de metade dos juvenis de tartaruga-verde avaliados apresentam sinais da doença, não estamos diante de um problema veterinário. Estamos diante de um indicador de desequilíbrio ambiental. A pergunta que fica é: se já sabemos que a fibropapilomatose funciona como indicador, por que não estruturamos respostas a partir dessas detecções para conter danos maiores ao ambiente e às populações humanas — especialmente àquelas que mais dependem dos recursos naturais da zona costeira?

Bactérias resistentes a antibióticos, contaminação por resíduos, perda de qualidade ambiental e declínio da biodiversidade são fenômenos que, tradicionalmente, foram tratados de forma separada. Hoje, o conceito de One Health sugere exatamente o contrário: a saúde humana, animal e ambiental são inseparáveis. Em que momento a degradação dos ecossistemas costeiros deixa de ser uma questão ambiental e passa a representar um risco concreto para a saúde pública, a segurança alimentar e a economia?

A separação entre esses fatores nunca existiu de fato na natureza. Ela foi criada pela forma como organizamos nossas instituições, nossas áreas de conhecimento, nossos processos de gestão. Os ecossistemas costeiros fornecem alimento, renda, proteção contra eventos extremos, turismo e inúmeros serviços essenciais para a sociedade. Quando registramos perda de biodiversidade, bactérias multirresistentes circulando na fauna marinha, resíduos plásticos ou químicos acumulados nos tecidos dos animais, estamos observando sinais de que esses serviços estão em risco — e que as consequências extrapolam qualquer abordagem simplificada de conservação. As perdas podem afetar a funcionalidade dos ecossistemas, a segurança alimentar e sanitária, atividades econômicas como a pesca, a dimensão cultural de povos originários e a qualidade de vida das populações humanas em geral.

O conceito de Uma Só Saúde nos ajuda a compreender que a saúde humana depende da saúde dos ecossistemas. A pandemia da COVID-19, a dengue, a febre amarela e tantas outras doenças mostram com clareza que as alterações no meio ambiente têm por consequência danos à vida humana, gastos gigantescos com remediação e problemas de ordem socioeconômica. Conservação da natureza não é "problema de biólogo". É problema de toda a sociedade humana, da economia do planeta, e condição para garantir direitos de forma justa e igualitária.

Os estudos conduzidos pela sua equipe mostram que o Complexo Estuarino de Paranaguá abriga juvenis provenientes de mais de doze populações diferentes do Atlântico, incluindo Caribe, África, Ilha de Ascensão e áreas reprodutivas brasileiras. Isso transforma o litoral do Paraná em uma área estratégica para a conservação de um patrimônio biológico global. Essa responsabilidade já está sendo incorporada pelas instâncias internacionais de governança oceânica ou ainda permanece mais evidente na ciência do que nas decisões políticas?

O litoral do Paraná é um território de relevância internacional para a conservação da biodiversidade. A região integra a Reserva da Biosfera da Mata Atlântica, reconhecida pela UNESCO no âmbito do Programa Homem e Biosfera, abriga áreas prioritárias para conservação definidas pelo Ministério do Meio Ambiente e concentra ambientes fundamentais para o ciclo de vida de espécies migratórias segundo a IUCN. Nossos estudos mostram que o litoral do Paraná, junto a Santa Catarina e São Paulo, funciona como área de desenvolvimento para juvenis de tartaruga-verde provenientes de diferentes populações do Atlântico e do Caribe — conectando ecossistemas, países e continentes. Isso significa que as decisões tomadas localmente têm implicações que ultrapassam fronteiras nacionais.

A ciência já demonstrou, de forma consistente, a relevância estratégica desse território, e esse reconhecimento está presente em acordos internacionais dos quais o Brasil é signatário, como a Convenção sobre Diversidade Biológica e a Convenção sobre Espécies Migratórias. O que precisamos avançar agora é na capacidade de transformar conhecimento científico em governança territorial — fortalecendo a conservação da biodiversidade, a saúde e o desenvolvimento sustentável de uma região reconhecida mundialmente por seu valor ecológico e cultural.

Ao longo de mais de uma década, sua equipe construiu um processo contínuo de diálogo com pescadores, gestores públicos, pesquisadores e comunidades locais. Depois de tantos anos observando a relação entre conservação e uso dos recursos naturais, qual é o maior equívoco que ainda persiste quando se coloca proteção da biodiversidade e desenvolvimento econômico em lados opostos da mesma equação?

Talvez o maior equívoco seja imaginar que conservação da biodiversidade e desenvolvimento econômico sejam objetivos incompatíveis. A saúde dos ecossistemas sustenta a saúde das pessoas, a segurança alimentar, a disponibilidade de recursos naturais e a própria resiliência econômica das comunidades. Ao longo dos anos, aprendemos que muitos dos conflitos que observamos não surgem necessariamente entre a biodiversidade e os usuários dos recursos naturais, mas da crescente concentração de pressões sobre os territórios que ainda mantêm elevada diversidade biológica e modos de vida diretamente dependentes da natureza. Quando diferentes atividades econômicas se expandem sem o devido planejamento, as consequências se acumulam justamente sobre os ambientes mais importantes para a conservação e para o bem-estar humano.

A questão, portanto, não está em escolher entre conservar ou desenvolver. Está em construir modelos de desenvolvimento que reconheçam os limites ecológicos dos territórios e incorporem os custos ambientais e sociais das atividades econômicas. Precisamos ampliar o diálogo entre ciência, gestores, setor produtivo e sociedade para compreender os benefícios gerados pelo desenvolvimento, mas também os resíduos e os estressores que ele produz — buscando, coletivamente, prevenir, mitigar e reduzir os danos. A biodiversidade, a saúde ambiental e o bem-estar da humanidade fazem parte de um mesmo sistema. Não conseguiremos promover qualidade de vida ou desenvolvimento duradouro sem garantir a manutenção dos ecossistemas que sustentam esses benefícios.

Em mais de dez anos de monitoramento costeiro, foram registrados mais de 32 mil animais mortos nas praias da região, em uma área reconhecida internacionalmente por sua relevância ecológica e cercada por diferentes instrumentos de proteção ambiental. Ao mesmo tempo, você costuma afirmar que foi necessário construir uma base científica robusta para que o debate deixasse de ser baseado em percepções e passasse a ser sustentado por evidências. Os dados já existem. O que ainda falta para que a tomada de decisão acompanhe a velocidade dos problemas?

São muito mais do que 32 mil animais que encalharam — o encalhe é apenas uma proporção do que morreu nas baías e no oceano adjacente. Os dados já mostram com clareza a dimensão do que está acontecendo nos ecossistemas, mas ainda nos falta a capacidade coletiva de transformar conhecimento em decisão. Precisamos de ambientes de diálogo entre ciência, gestão e sociedade que permitam compreender que biodiversidade, saúde ambiental e bem-estar humano fazem parte do mesmo sistema — e, a partir desse entendimento, agir, buscar soluções, mudar padrões de desenvolvimento.

A questão do nosso tempo é construir processos educativos e de governança com visão de longo prazo e responsabilidade compartilhada, para que as respostas avancem na mesma velocidade dos problemas que estamos observando. Reduzir a distância entre ciência e tomada de decisão talvez seja um dos maiores desafios da nossa geração.

Uma dimensão menos visível do seu trabalho envolve inovação tecnológica. O desenvolvimento de sistemas nacionais de monitoramento, telemetria e rastreamento da fauna marinha reduz custos, amplia a produção de conhecimento e diminui a dependência de tecnologias estrangeiras. Em um cenário marcado por disputas por recursos naturais, dados ambientais e conhecimento científico, a conservação da biodiversidade também se tornou uma questão de soberania tecnológica?

Sem dúvida. A conservação da biodiversidade passou a depender cada vez mais da nossa capacidade de gerar, integrar e interpretar grandes volumes de dados. Hoje utilizamos tecnologias para rastrear a movimentação da fauna marinha, compreender a conectividade entre áreas, avaliar a saúde dos animais, monitorar contaminantes e identificar áreas prioritárias para conservação. Mas talvez a maior transformação esteja na capacidade de integrar essas informações. Ferramentas de modelagem preditiva, sensoriamento remoto e inteligência artificial nos permitem conectar dados biológicos, ambientais, sociais e econômicos, ampliando nossa compreensão sobre o funcionamento dos territórios e seus riscos de forma sistêmica.

Desenvolver essas capacidades fortalece a autonomia científica e viabiliza respostas a problemas complexos — e esse é um dos objetivos centrais da Década do Oceano: integrar ciências e desenvolver tecnologias. A inovação nos permite transformar conhecimento em inteligência para a gestão, apoiando decisões mais eficientes, transparentes e baseadas em evidências para a conservação da biodiversidade e para o desenvolvimento sustentável.

O especial O Planeta Fora de Equilíbrio: da Terra ao Oceano parte de uma premissa simples: clima, biodiversidade, poluição, segurança alimentar e disponibilidade de água são manifestações de um mesmo sistema. Quando você observa os dados acumulados ao longo de duas décadas no litoral paranaense — uma região reconhecida como Patrimônio Natural da Humanidade e um dos estuários mais importantes do Atlântico Sul — ainda é possível tratar essas crises de forma isolada ou já entramos definitivamente em uma era de riscos sistêmicos interconectados?

Os dados acumulados ao longo das últimas décadas mostram, de forma muito clara, que as crises estão conectadas. Mudanças climáticas, perda de biodiversidade, poluição, doenças emergentes e alterações na disponibilidade de recursos naturais estão integradas — e o que observamos nas zonas costeiras é justamente a interação entre continente e oceano, o ponto em que os efeitos sistêmicos se potencializam. Após mais de vinte anos trabalhando com espécies sentinelas, acredito que já entramos em uma era de riscos sistêmicos, cumulativos e interconectados.

Mas também acredito que estamos em um momento único da história, no qual temos mais conhecimento, maior capacidade de monitoramento e mais oportunidades de construir soluções integradas do que jamais tivemos. A ciência mostra que investir em conservação da biodiversidade, restauração ambiental, planejamento territorial integrado e governança participativa gera benefícios simultâneos para a natureza e para as pessoas.

Talvez essa seja a principal lição que as tartarugas marinhas vêm nos ensinando. Ao longo de milhões de anos, elas atravessaram oceanos, conectaram continentes e sobreviveram a grandes transformações do planeta. Hoje continuam com esse papel de conexão — mas mostrando que a saúde delas, do oceano e das pessoas faz parte de uma mesma história. Se soubermos ouvir esses sinais, as tartarugas marinhas não serão apenas testemunhas das mudanças que estamos provocando no planeta. Poderão ser embaixadoras de uma nova forma de pensar o desenvolvimento — baseada na integração entre biodiversidade, saúde, ciência e bem-estar para as gerações futuras, humanas e não humanas.

Camila Domit dedica sua trajetória científica a compreender o que as tartarugas marinhas revelam sobre a saúde dos oceanos e os desafios ambientais do nosso tempo - Foto: Acervo pessoal

Quando a entrevista termina, Camila Domit menciona, quase de passagem, que naquele mesmo dia precisava finalizar uma proposta para o CNPq coordenando uma rede de conservação que vai do Paraná à Argentina. Ela fala com a naturalidade de quem já não distingue muito bem onde termina o trabalho e onde começa a convicção. Talvez seja exatamente isso — essa incapacidade de separar as duas coisas — o que torna o seu trabalho incomum. Numa área em que abundam diagnósticos e escasseiam consequências, ela insiste em levar os dados até o ponto em que alguém, em alguma instância, seja obrigado a responder. As tartarugas continuam chegando ao estuário de Paranaguá vindas de doze regiões do Atlântico, carregando no corpo a memória de tudo por onde passaram. Camila Domit continua lendo essa memória — e traduzindo o que ela diz para uma linguagem que o poder não consiga ignorar indefinidamente.

Este conteúdo integra o especial “O Planeta Fora de Equilíbrio: Da Terra ao Oceano”, produzido pelo Neo Mondo para aprofundar o debate sobre a crise sistêmica do planeta e suas consequências econômicas, geopolíticas e civilizatórias. Um especial Neo Mondo em parceria com a Amanco Wavin e Redemar Brasil.

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