Especial Plástico, Sociedade e Natureza 2026
Escrito por Neo Mondo | 14 de setembro de 2026
Cadeia de produção, consumo e descarte do plástico permanece aberta, enquanto regulação, mercado e responsabilidade avançam em direções opostas - Foto: Ilustrativa/Freepik
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO
Especial Economia do Plástico 2026
Em janeiro deste ano, entrou em vigor no Brasil a exigência de que toda embalagem plástica colocada no mercado por uma empresa de grande porte contivesse ao menos 22% de material reciclado, sob pena de multa que chega a R$ 50 milhões. Era, sobre o papel, o instrumento mais ambicioso que o país já havia criado para o setor. No mesmo período, a demanda por PET reciclado caiu 54%, e os preços recuaram 41%, porque a sobrecapacidade petroquímica mundial derrubou o custo da resina virgem a um patamar mais competitivo que o do material reciclado. A lei obrigou a comprar reciclado. O mercado, no mesmo instante, tornou o reciclado mais caro que a alternativa fóssil. Duas forças legítimas, empurrando em direções opostas, e nenhum decreto resolve sozinho uma equação de preço.
Esse descompasso não é um acidente de percurso. É o retrato mais recente de uma histeria regulatória que o Brasil repete desde 2010, quando a Política Nacional de Resíduos Sólidos fixou 2014 como prazo para o fim dos lixões a céu aberto. O prazo não foi cumprido. Foi prorrogado para 2021, depois para agosto de 2024, e segue sendo descumprido por milhares de municípios enquanto este texto é escrito. Em quinze anos de vigência, nenhuma meta original da lei foi integralmente atingida. O padrão histórico é sempre o mesmo: a norma chega antes da capacidade real de cumpri-la, e a distância entre as duas coisas vira o verdadeiro objeto de disputa.
No plano internacional, o quadro trava por outra razão. As negociações do tratado global contra a poluição plástica foram suspensas em Genebra em agosto de 2025, depois de dez dias de trabalho com 183 países, sem acordo sobre o texto. A sessão seguinte, em fevereiro de 2026, serviu apenas para eleger novo presidente do comitê, sem retomar a discussão substantiva. Passados quase quatro anos do mandato original de 2022, o processo segue sem data para a próxima rodada decisiva. O Brasil, nessa negociação, não apoiou nenhuma das propostas que impunham limite à produção de plástico virgem, aproximando-se do bloco de países produtores de petróleo. A pergunta que travou o tratado não é de redação. É a pergunta que o próprio material nunca resolveu desde que Leo Baekeland sintetizou o primeiro plástico inteiramente artificial da história, em 1907: se o problema está no que se produz, ou apenas no que se descarta depois.
Passei quase duas décadas cobrindo a interseção entre ciência, economia e política ambiental, e aprendi que os temas que de fato definem uma época raramente chegam como notícia isolada. Chegam como acúmulo: uma lei que o mercado ignora, um tratado que não fecha, uma evidência científica que a regulação demora a incorporar. Foi assim com a água, quando mapeamos em março, no Especial Semana Mundial da Água, a transição de um recurso estável para uma variável de risco sistêmico. Foi assim com a biodiversidade, quando descrevemos em maio, na Teia da Vida, um risco que o mercado ainda recusa a precificar. E foi assim em junho, quando O Planeta Fora de Equilíbrio juntou terra e oceano numa mesma leitura, porque tratá-los como sistemas separados havia deixado de ser apenas incompleto: tinha se tornado inaplicável a qualquer decisão real.
O plástico fecha esse arco de um jeito particular. Ele não é só mais um sistema ameaçado, ao lado da água, da floresta e do oceano. É o fio que atravessa os três. É feito de petróleo, o que o torna, estruturalmente, pauta de clima. Chega ao mar principalmente pelo saneamento precário, o que o torna pauta de água. Fragmenta-se em partículas já encontradas em tecido cerebral humano e em espécies marinhas inteiras, o que o torna, ao mesmo tempo, pauta de saúde pública e de biodiversidade. Nenhum dos especiais anteriores poderia ter sido escrito sem, em algum parágrafo, esbarrar nele. Era questão de tempo até que ele exigisse um volume só seu.
É por isso que este dossiê nasce diferente dos três que o precederam. Não é apenas mais um especial de efeméride, publicado, celebrado e arquivado. Economia do Plástico 2026 — Plástico, sociedade e natureza: uma relação que precisa ser reinventada inaugura a Coleção Neo Mondo, uma série bimestral dedicada aos grandes sistemas que definem o século. Depois deste Volume I, virão Floresta, Clima, Água, Oceano, Biodiversidade, Poluição e Ambientes Urbanos, um a cada dois meses, publicados perto o bastante para que nenhum leitor esqueça, ao chegar ao volume seguinte, que todos eles descrevem o mesmo colapso, visto de ângulos diferentes.
A premissa que organiza este volume específico não é minha. É de Alexander Turra, professor titular do Instituto Oceanográfico da USP e coordenador da Cátedra UNESCO para a Sustentabilidade do Oceano, que assina a curadoria científica deste dossiê como já assinou a dos três anteriores. Segundo ele, o plástico não é um resíduo. É um sistema econômico, industrial, científico e social, e qualquer leitura que o reduza ao descarte é, por definição, incompleta. A tese carrega uma acusação implícita a meio século de política pública brasileira, que tratou o material pelo fim da linha, pela praia suja, pela lixeira de cor errada, e nunca pelo começo, que é a decisão de produzir, vender e precificar.
Reportagens de apuração própria, entrevistas exclusivas e artigos assinados constroem, juntos, o retrato de uma cadeia que o Brasil e o mundo tentam fechar há décadas, sem nunca fechar de fato. Entre os convidados, nomes que decidem os rumos do tema no país: da indústria química aos catadores que sustentam, sozinhos, mais da metade de toda a reciclagem nacional; da pesquisa que encontra plástico em lugares onde a ciência jurava não encontrar, à diplomacia que travou em Genebra sem previsão de destravar.
O plástico entrou na vida cotidiana prometendo resolver um problema de escassez de material. Cem anos depois, tornou-se ele próprio o problema, sem que a economia que o criou tenha encontrado, ainda, um jeito de se responsabilizar pelo que produz até o fim.
Bem-vindo(a) ao Volume I da Coleção Neo Mondo.
Este conteúdo integra o especial Economia do Plástico 2026 — Plástico, sociedade e natureza: uma relação que precisa ser reinventada, produzido pelo Neo Mondo para inaugurar a Coleção Neo Mondo, série bimestral dedicada aos grandes sistemas que definem o século.

Rumo à nova economia do plástico e a um ambiente e uma sociedade saudáveis
Índice + A cadeia que moldou o mundo + Vozes deste Especial
O plástico mudou o mundo. Agora o mundo precisa reinventá-lo