Especial Plástico, Sociedade e Natureza 2026
Escrito por Neo Mondo | 14 de setembro de 2026
Petróleo perde espaço nos motores, mas encontra no plástico uma nova rota para sustentar sua demanda - Foto: Ilustrativa/Freepik
POR - REDAÇÃO NEO MONDO
Como a transição energética reposiciona a demanda por petróleo, com a petroquímica assumindo o papel que o motor a combustão perde
O carro elétrico é a imagem mais visível da transição energética. É também a que menos revela sobre o futuro do petróleo. Enquanto motores a combustão perdem espaço nas ruas, a Agência Internacional de Energia projeta que a fatia da petroquímica no crescimento da demanda mundial de óleo salte de 40% em 2025 para mais de 60% em 2026. É o inverso do que a narrativa pública da transição sugere. O barril de petróleo não vira apenas combustível. Vira também matéria-prima. E é essa segunda vida, como insumo de plástico, fertilizante e fibra sintética, que sustenta a demanda que o transporte já não sustenta mais.
A própria IEA projeta que a demanda por combustíveis fósseis de combustão, sem contar petroquímica nem biocombustíveis, pode atingir seu pico já em 2027. Ao mesmo tempo, calcula que a produção mundial de polímeros e fibras sintéticas vai exigir 18,4 milhões de barris de petróleo por dia até 2030. Mais de um em cada seis barris extraídos do solo. No relatório Global Energy Review 2026, a agência descreveu o caso chinês como retrato do fenômeno: entre 2021 e 2025, o PIB do país cresceu 20%, mas o consumo de gasolina e diesel ficou praticamente estagnado, achatado pela eletrificação acelerada da frota de veículos. Enquanto isso, o uso de nafta, gás liquefeito de petróleo e etano como matéria-prima petroquímica seguiu subindo, respondendo por quase todo o crescimento do consumo de petróleo do país em 2024 e 2025. Não existe concorrente para essa fatia do mercado, ao contrário do que ocorre no transporte, onde o carro elétrico desloca o motor a combustão barril por barril.
As grandes petroleiras já reposicionam capital em torno dessa lógica havia tempo, mas 2026 tornou o movimento explícito. Em fevereiro, a Shell colocou à venda seus ativos químicos, atraindo interesse declarado da ExxonMobil, da LyondellBasell e da gestora Apollo. A companhia já vinha se desfazendo de negócios que não se encaixam mais em sua estratégia central de óleo, gás e GNL, incluindo uma participação em energia solar na Índia por US$ 1,8 bilhão. Do outro lado do Atlântico, a ExxonMobil trilha caminho oposto ao da concorrente europeia. Reorganizou sua estrutura interna em torno do que chama de gestão de moléculas, com a capacidade de deslocar produção de gasolina para químicos de maior valor conforme a demanda de cada mercado se altera, incluindo insumos para a indústria de semicondutores e de veículos elétricos. A companhia também opera a maior expansão de produção offshore do continente americano, no bloco de Stabroek, na Guiana, que já extrai cerca de 900 mil barris diários e deve superar 1,7 milhão até 2030.
Esse reposicionamento de capital não é isento de risco. A Carbon Tracker Initiative, organização que analisa exposição financeira do setor de óleo e gás à transição energética, avalia que companhias que seguem apostando em crescimento das operações tradicionais de petróleo e gás ampliam seu próprio risco de ativos ociosos. A entidade recomenda que as petroleiras adotem estratégias de baixo custo para sobreviver à transição, e não necessariamente apostem tudo na expansão petroquímica como rota de fuga. É uma aposta em curso, sem desfecho garantido.
O Brasil disputa essa corrida em desvantagem estrutural. O país importa hoje cerca de metade dos produtos químicos que consome, com déficit comercial do setor superior a US$ 56,8 bilhões ao ano, segundo dados da Associação Brasileira da Indústria Química. A utilização da capacidade instalada da indústria química nacional fechou 2025 em 64%, e a produção do setor recuou 7% nos doze meses até março de 2026, com as vendas internas caindo 8,2% no mesmo período. Para a Abiquim, esses números mostram um país que tem fábrica, tecnologia e mercado consumidor, mas perde espaço dentro do próprio território, pressionado por custo de capital, câmbio e concorrência com blocos que possuem gás e nafta mais baratos. O setor amarga também o retrato de uma companhia nacional em recuperação extrajudicial neste ano, episódio que a entidade classificou publicamente como alerta para toda a cadeia, e não como caso isolado de uma empresa.
A Agência Internacional de Energia projeta demanda mundial de petróleo em 108,6 milhões de barris por dia em 2026, com a oferta global crescendo 2,4 milhões de barris por dia no mesmo ano. O relatório de setembro de 2026 da própria agência revisou para baixo a demanda anual, em meio ao impasse diplomático entre Estados Unidos e Irã, mas manteve os combustíveis de uso petroquímico entre os segmentos mais afetados pela volatilidade geopolítica do período.
Este conteúdo integra o especial Economia do Plástico 2026 — Plástico, sociedade e natureza: uma relação que precisa ser reinventada, produzido pelo Neo Mondo para inaugurar a Coleção Neo Mondo, série bimestral dedicada aos grandes sistemas que definem o século.

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Rumo à nova economia do plástico e a um ambiente e uma sociedade saudáveis
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