Especial Plástico, Sociedade e Natureza 2026

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Plástico, sociedade e natureza 2026.

O plástico mudou o mundo. Agora o mundo precisa reinventá-lo

Escrito por Neo Mondo | 14 de setembro de 2026

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Plástico nasceu como solução industrial e se tornou uma herança que o oceano devolve - Imagem gerada por IA - Ilustrativa/Neo Mondo

POR - REDAÇÃO NEO MONDO

História do material, a revolução industrial dos polímeros e o paradoxo ambiental que ela deixou como herança

Em julho de 1907, num laboratório doméstico em Yonkers, Nova York, o químico Leo Baekeland misturou fenol e formaldeído sob calor e pressão. Buscava um substituto barato para a goma-laca, resina extraída de um inseto asiático e usada como isolante elétrico. Encontrou outra coisa: um material duro, moldável, que não amolecia com o calor depois de curado. Batizou-o de baquelite. Registrou a patente um dia antes do engenheiro escocês James Swinburne, que trabalhava na mesma ideia do outro lado do Atlântico. Em 1909, apresentou a descoberta à Sociedade Americana de Química. Nascia ali o primeiro plástico inteiramente sintético da história, sem depender de nenhuma molécula vinda de planta ou animal.

O mundo já vinha testando substitutos sintéticos havia décadas. Alexander Parkes lançara em 1862 a parkesina, feita de celulose tratada com ácido nítrico. John Wesley Hyatt criara em 1869 o celuloide, pensado para substituir o marfim nas bolas de bilhar e, com isso, poupar elefantes da caça. Os dois materiais amoleciam com o calor e mantinham a forma ao esfriar, mas dependiam de matéria orgânica como base. A baquelite rompeu esse limite. Onde não havia insumo natural para copiar, químicos passaram a desenhar moléculas do zero. A Era dos Polímeros havia começado.

A indústria automotiva abraçou o material de imediato, usando-o em peças de ignição. Telefones, rádios, joias e utensílios domésticos vieram na sequência. Mas a escala que conhecemos hoje só apareceu depois da Segunda Guerra Mundial, quando o refino de petróleo em larga escala baratejou os monômeros que alimentam os polímeros. Em 1950, a produção mundial de plástico somava cerca de 2 milhões de toneladas. Bastaram cinco anos para esse número dobrar. Depois dobrou de novo. Em 2025, a produção global gira em torno de 516 milhões de toneladas ao ano, segundo dados da PlasticsEurope. O crescimento é mais rápido que o de quase qualquer outro material industrial da história.

O acúmulo virou outro tipo de número. Um estudo de Roland Geyer publicado na Science em 2017, com atualização em 2025, calcula que a humanidade já produziu 8,3 bilhões de toneladas de plástico virgem desde 1950. Dessas, 6,3 bilhões de toneladas já foram descartadas. Apenas 9% de todo o plástico já fabricado foi reciclado. Cerca de 19% foi incinerado. A maior fatia, perto de 50%, está enterrada em aterros sanitários. O resto, uma fração de aproximadamente 22%, foi parar em lixões a céu aberto, foi queimado ao ar livre ou vazou direto para o ambiente. Documentos internos revelados por pesquisa de Rebecca Altman e Zoe Todd, publicada em 2024, mostram que a própria indústria sabia, desde os anos 1970 e 1980, que a reciclagem em massa não seria capaz de dar conta do volume que ela mesma produzia. Promoveu a reciclagem como solução de qualquer forma.

O paradoxo ambiental não nasceu do plástico em si. Nasceu da combinação entre uma molécula desenhada para durar e um sistema econômico desenhado para descartar rápido. Polietileno e polipropileno resistem à degradação biológica por décadas, às vezes séculos. Fragmentam-se em pedaços cada vez menores sob efeito de luz solar, calor e movimento da água, sem nunca desaparecer de fato. Um estudo publicado na Science em 2025 estimou que, desde 1950, os polímeros de origem fóssil já somam 10 mil teragramas de massa produzida, crescendo a 3% ao ano. Do total já descartado, cerca de 20% foi manejado de forma inadequada, e esse lixo mal gerido se fragmenta em microplástico a uma taxa próxima de 3% ao ano.

O Brasil tentou romper essa lógica pela raiz da matéria-prima. Em setembro de 2010, a Braskem inaugurou em Triunfo, no Rio Grande do Sul, a maior unidade industrial do planeta dedicada a transformar etanol de cana-de-açúcar em eteno, e o eteno em polietileno. O chamado plástico verde retira até 2,5 toneladas de carbono da atmosfera para cada tonelada produzida, porque a cana usada como insumo já havia capturado esse carbono durante a fotossíntese. A planta nasceu com capacidade para 200 mil toneladas anuais e expandiu para 260 mil a partir de 2022, depois de a demanda internacional superar em três vezes a capacidade original. O produto final tem as mesmas propriedades do polietileno tradicional e hoje abastece marcas como Natura, Tetra Pak, Johnson & Johnson e Procter & Gamble. Mas o próprio material vindo da cana carrega o problema geral da categoria: renovável na origem, ele se comporta como qualquer outro polietileno depois de descartado. Não biodegrada. Precisa da mesma cadeia de coleta e reciclagem que falta ao plástico fóssil.

O Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo pesquisa desde 1992 outra rota, a dos plásticos biodegradáveis feitos a partir de cana. A empresa PHB Industrial produz em escala piloto, há mais de uma década, um polímero batizado Biocycle. Roberto Nonato, engenheiro da companhia, resumiu o obstáculo num workshop realizado na sede da FAPESP: o setor do petróleo raramente conversa com o setor do açúcar. O quilo do polipropileno tradicional custa cerca de US$ 2. O quilo do PHB sai por perto de US$ 5. Sem parceria com a cadeia petroquímica que domina a distribuição e a escala, o material biodegradável segue restrito a nicho.

Também não existe, no Brasil, norma técnica que defina em quanto tempo um plástico deve se degradar no solo para ser chamado de biodegradável. A brecha abriu espaço para fraude. Pesquisadores da Unifesp analisaram utensílios plásticos descartáveis vendidos como ecológicos em 40 estabelecimentos do país e descobriram que mais de 90% pertenciam à categoria dos oxodegradáveis, plásticos comuns de origem fóssil aditivados com sais metálicos que aceleram a fragmentação, sem produzir biodegradação real. Os fragmentos resultantes podem permanecer no ambiente por décadas, alimentando exatamente o problema que prometiam resolver. A União Europeia já baniu esse tipo de material. No Brasil, sua venda continua legal.

Passados 118 anos desde o laboratório de Yonkers, o material que Baekeland criou para substituir um inseto asiático se tornou onipresente demais para ser descartado e persistente demais para ser tolerado. A Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) projeta que, sem mudança de rota nas políticas públicas, a produção mundial pode chegar a 1,2 bilhão de toneladas anuais até 2060.

Este conteúdo integra o especial Economia do Plástico 2026 — Plástico, sociedade e natureza: uma relação que precisa ser reinventada, produzido pelo Neo Mondo para inaugurar a Coleção Neo Mondo, série bimestral dedicada aos grandes sistemas que definem o século.

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