Especial Plástico, Sociedade e Natureza 2026

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Plástico, sociedade e natureza 2026.

Quando a fibra deixa de ser promessa e entra na escala do plástico

Escrito por Neo Mondo | 14 de setembro de 2026

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Fibra deixa o laboratório e entra na escala industrial necessária para disputar espaço com o plástico - Imagem gerada por IA - Ilustrativa/Neo Mondo

Produzido pelo NM Studio em parceria com a Valmet

A Valmet leva embalagens tridimensionais de celulose à produção comercial, desenvolve reciclagem química para resíduos mistos e redesenha materiais usados em seus próprios equipamentos. A transição ocorre onde as escolhas ganham escala: dentro da indústria

Em 27 de agosto de 2026, a Valmet anunciou o fornecimento à Metsä Group da primeira linha comercial de sua tecnologia 3D Fiber. A unidade será instalada em Äänekoski, na Finlândia, com capacidade nominal superior a 100 milhões de embalagens de fibra moldada por ano e início de operação previsto para 2028. O pedido transforma uma pesquisa iniciada em 2020, testada em uma planta de demonstração desde 2022, em produção industrial. Pratos, bandejas e recipientes para alimentos feitos de celulose deixam o campo restrito dos protótipos para disputar mercados de grande volume hoje atendidos pelo plástico.

Escala é a palavra que separa uma alternativa promissora de uma mudança material. O mundo produziu 353 milhões de toneladas de resíduos plásticos em 2019 e reciclou efetivamente apenas 9%, segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico. Uma embalagem renovável pode funcionar bem em laboratório e fracassar na fábrica se for lenta, cara, frágil ou intensiva em água e energia. A resposta da Valmet nasce justamente desse ponto: usar conhecimento acumulado em celulose, papel, automação e controle de processos para levar novos materiais à cadência exigida pela indústria.

A 3D Fiber prensa a polpa diretamente em formas tridimensionais. A tecnologia combina formação de camadas por injeção de espuma, automação e controle de qualidade para produzir peças leves e rígidas. O desenho permite devolver aparas e produtos fora de especificação ao próprio processo. Também recircula água e reduz etapas intermediárias entre a fibra e a embalagem pronta. Segundo os dados técnicos da Valmet, a linha opera com ciclos inferiores a dez segundos e pode alcançar velocidade de cinco a oito vezes maior que tecnologias concorrentes de moldagem úmida.

Velocidade, contudo, não responde sozinha se uma embalagem é ambientalmente melhor. Origem da fibra, manejo florestal, química de barreira, massa do produto, consumo de energia, distância de transporte, possibilidade real de reciclagem e destino após o uso precisam entrar na conta. A vantagem da fibra não pode ser presumida apenas porque ela é renovável. O ganho aparece quando o projeto usa matéria-prima rastreável, reduz material, mantém a função do produto e encontra coleta e reciclagem disponíveis. A própria arquitetura da 3D Fiber reconhece esse limite ao permitir que as camadas recebam propriedades distintas e concentrem a química de barreira apenas na superfície que toca o alimento.

Essa abordagem desloca o debate da substituição cega para o desenho orientado ao ciclo de vida. Nem todo uso de plástico admite troca imediata. Embalagens que protegem alimentos, medicamentos e produtos sensíveis precisam preservar higiene, vedação e prazo de consumo. Substituir uma pequena quantidade de polímero por um conjunto mais pesado e difícil de recuperar apenas muda o tipo de resíduo. A estratégia industrial mais consistente combina quatro movimentos: eliminar o que não presta serviço necessário, reduzir massa, substituir quando a alternativa funciona melhor e reciclar os fluxos que permanecem.

A Valmet aplica essa lógica também ao fim das linhas de conversão de papel tissue. O Bio Pack plus adapta máquinas novas ou existentes para envolver rolos de papel higiênico e outros produtos com papel kraft não revestido, no lugar do polietileno. Um sistema sincroniza o movimento da bobina e aplica adesivo apenas nos pontos definidos, em velocidades informadas pela empresa de até 200 pacotes por minuto. Como a solução pode entrar por modernização, o fabricante não precisa descartar toda a embaladora para mudar o material. Essa característica raramente ocupa a publicidade, mas tem peso: prolongar a vida de uma máquina evita nova demanda por aço, componentes, transporte e montagem.

Embalagens alimentícias mais complexas exigem outra camada de pesquisa. No consórcio europeu REDYSIGN, a Valmet participa do desenvolvimento de uma embalagem reciclável para carne fresca feita quase integralmente de componentes da madeira. O projeto reúne bandeja, revestimento de barreira, manta absorvente e filme transparente, além de sensores para detectar deterioração e rompimento da cadeia de frio. A empresa desenvolve o processo de produção de celulose microfibrilada usada no conjunto. O consórcio também estuda marcadores para separar embalagens contaminadas e tratamento por oxidação para higienizar o material antes da recuperação das fibras.

O REDYSIGN ainda é pesquisa, não produto disponível nas prateleiras. A distinção evita transformar intenção em resultado. Ao mesmo tempo, ela mostra onde está uma das fronteiras do setor: criar uma embalagem que proteja alimento úmido, permita triagem e devolva fibras ao ciclo produtivo. A circularidade começa no projeto porque a separação posterior depende das decisões tomadas antes da fabricação. Misturas inseparáveis, pigmentos incompatíveis, adesivos excessivos e barreiras sem rota de recuperação podem tornar reciclável no papel aquilo que não será reciclado na prática.

O caminho inverso também faz parte da atuação da Valmet. Quando não há substituição adequada e a reciclagem mecânica não consegue tratar filmes multicamadas, materiais contaminados e misturas de polietileno, polipropileno e poliestireno, a empresa aposta na pirólise. O Valmet Pyrolyzer aquece resíduos plásticos sem oxigênio e os converte em frações gasosas, sólidas e líquidas. O óleo resultante pode seguir para processos petroquímicos e voltar como matéria-prima para polímeros de qualidade elevada.

A companhia opera uma instalação de testes e uma planta-piloto em Tampere, na Finlândia. Uma unidade de demonstração em escala industrial está prevista para 2027. A Valmet informa que sua configuração de leito fluidizado pode superar capacidade de 100 mil toneladas anuais em uma única unidade e trabalhar com rotas térmicas ou catalíticas. Esses números descrevem o projeto técnico, não uma produção comercial já comprovada. O próximo passo será medir rendimento, consumo de energia, emissões, rejeitos, qualidade do óleo e quantidade efetivamente reincorporada em novos produtos sob condições industriais.

Essa cautela não diminui o papel da reciclagem química. Ela define seu lugar. A pirólise pode ampliar o aproveitamento de resíduos que hoje não encontram rota mecânica, mas não deve competir por materiais que podem ser reutilizados ou reciclados com menor transformação. Tampouco substitui redução e bom desenho. Estudos de ciclo de vida mostram que o desempenho climático da pirólise varia conforme a composição do resíduo, a fonte de energia, o rendimento e o destino dos coprodutos. Uma avaliação publicada por Harish Jeswani e colegas no periódico Science of the Total Environment, em 2021, encontrou resultado climático melhor que a incineração com recuperação de energia para a configuração analisada. Em outras categorias ambientais, porém, a pirólise apresentou cargas maiores, e os resultados variaram conforme as escolhas técnicas.

Antes de apresentar o Pyrolyzer, a Valmet participou do UrbanMill, projeto coordenado pelo centro finlandês VTT com a Universidade Aalto e financiamento da Business Finland. A pesquisa combinou pré-tratamento, pirólise e pós-tratamento para lidar com resíduos plásticos altamente misturados. Essa cooperação integra um movimento maior. Entre 2022 e 2025, o programa de pesquisa Beyond Circularity recebeu cerca de 40 milhões de euros da Valmet, reuniu mais de 370 parceiros em 47 projetos colaborativos e iniciou ou concluiu mais de cem projetos internos ligados ao programa, segundo o relatório corporativo de 2025.

O trabalho avançou além das embalagens. No projeto HiPer, a Valmet, o VTT e nove empresas finlandesas demonstraram a fabricação de biocompósitos termoplásticos em uma máquina-piloto de papel. A formação por espuma combinou polpa, fibras vegetais e polímero para produzir materiais leves destinados a móveis, transporte, construção e embalagens. O objetivo não era declarar o fim do plástico, mas usar menos matéria fóssil e criar compósitos compatíveis com produção de alto volume. O projeto terminou em 2024; o desenvolvimento de conceitos de máquina continuou na Valmet.

A revisão dos próprios consumíveis industriais completa esse quadro. Revestimentos de rolos usados na fabricação de celulose, papel e tissue contêm polímeros, resinas e cargas. Em 2019, a Valmet apresentou coberturas compostas com participação de 75% a 96% de matérias-primas recicladas ou de origem biológica. Entre os insumos testados estavam plástico pós-consumo, lignina, negro de carbono derivado de lignina e nanocelulose. A empresa também lançou o feltro EMX M Bioneer, que substitui parte da matéria-prima fóssil por insumos atribuídos por balanço de massa e certificados pelo sistema ISCC Plus. A proporção inicial anunciada foi de 10%, com possibilidade técnica de aumento.

Balanço de massa não significa que cada fio contenha fisicamente a porcentagem declarada de matéria biológica. O método contabiliza a entrada certificada ao longo da cadeia e atribui uma parcela equivalente ao produto final, porque moléculas fósseis e renováveis se misturam durante a produção. Explicar essa diferença é parte da transparência necessária. O ganho está em deslocar matéria-prima fóssil na origem e manter rastreabilidade contábil auditável, não em sugerir uma composição que o laboratório consiga separar no produto acabado.

A Valmet também incorporou critérios de circularidade ao desenho de equipamentos e às exigências para fornecedores. Redução de peso, uso de matérias-primas alternativas, modularidade, manutenção e modernização ampliam a vida de máquinas cujo período esperado de operação varia de dez a cem anos, conforme o relatório de sustentabilidade de 2025. No mesmo documento, a companhia informou que soluções e serviços alinhados à circularidade e à neutralidade climática responderam por 32,9% da receita líquida em 2025, ante 23% em 2024. A declaração de sustentabilidade segue as normas europeias CSRD e recebeu asseguração limitada da PwC.

Os dados não tornam todo produto de fibra preferível nem toda reciclagem química circular. Eles permitem avaliar a direção e cobrar resultados. Para a Valmet, o plástico deixou de ser apenas um material a substituir: tornou-se uma questão de engenharia distribuída entre matéria-prima, desenho, velocidade industrial, automação, recuperação e vida útil dos equipamentos. A primeira linha comercial de 3D Fiber terá capacidade nominal superior a 100 milhões de unidades por ano. Sua entrada em operação está marcada para 2028.

Este conteúdo integra o especial Economia do Plástico 2026 — Plástico, sociedade e natureza: uma relação que precisa ser reinventada, produzido pelo Neo Mondo para inaugurar a Coleção Neo Mondo, série bimestral dedicada aos grandes sistemas que definem o século.

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