Especial Plástico, Sociedade e Natureza 2026
Escrito por Neo Mondo | 14 de setembro de 2026
Engenharia encontra na análise de Thiago Negreiros uma ponte entre conhecimento técnico e transformação industrial - Foto: Divulgação
Produzido pelo NM Studio em parceria com a Qualital
O diretor executivo da Qualital explica por que a infraestrutura de monitoramento que o Brasil já tem hoje seria suficiente para cobrir os poluentes emergentes, se alguém decidir o que medir, e revela onde a circularidade de uma embalagem se perde antes mesmo de sair da fábrica
O Brasil monitora a qualidade das suas águas a partir de duas resoluções, uma de 2005 e outra de 2011. Elas definem o que deve ser medido: parâmetros físico-químicos e microbiológicos, metais, óleos e graxas, determinados compostos orgânicos. É uma lista extensa e tecnicamente sólida, construída com o conhecimento disponível quando foi escrita. Micro e nanoplásticos ainda não integram esse rol. Enquanto a ciência acumula evidência sobre a presença dessas partículas no ambiente e nos organismos, o sistema regulatório brasileiro segue calibrado para outro conjunto de substâncias, o que é natural em qualquer arcabouço normativo: a norma se move mais devagar que a pesquisa.
O interessante é o que já existe enquanto essa distância não se fecha. O país dispõe de uma infraestrutura de monitoramento ambiental madura, com procedimentos de coleta, cadeia de custódia, laboratórios acreditados e campanhas periódicas rodando há décadas em milhares de operações industriais. Se os poluentes emergentes forem incorporados à revisão da Resolução CONAMA 430, hoje em discussão no Conselho Nacional do Meio Ambiente, essa capacidade instalada é que fará o trabalho. Não será preciso inventar um sistema. Será preciso ampliar o que já funciona.
A QUALITAL opera nessa camada há 23 anos. Sediada em Natal, atende óleo e gás, energia, mineração, indústria e infraestrutura logística com soluções que vão do licenciamento ambiental à segurança de processos industriais, do monitoramento de águas superficiais e subterrâneas ao gerenciamento de áreas contaminadas e ao projeto de sistemas de tratamento de efluentes e drenagem. O território ajuda a explicar a empresa. O Rio Grande do Norte comprime, num espaço relativamente curto, produção onshore de óleo e gás, estuários, manguezais, salinas e atividade industrial, todos dividindo as mesmas bacias e a mesma linha de costa. Quem trabalha ali aprende cedo a pensar em sistema, e não em licença isolada.
Thiago Negreiros é diretor executivo da QUALITAL. Nas respostas a seguir, explica o que a infraestrutura brasileira de monitoramento já é capaz de enxergar e o que ainda não vê, por que parte da circularidade de uma embalagem plástica se decide dentro da unidade produtiva, antes de qualquer coleta seletiva, como a engenharia ambiental está incorporando a mudança do regime de chuvas aos seus projetos e o que mudou na conversa entre consultoria e indústria ao longo de mais de duas décadas.
O monitoramento ambiental de rotina no Brasil foi desenhado para enxergar um conjunto determinado de substâncias, definido quando as resoluções vigentes foram escritas. O senhor executa campanhas de campo há mais de duas décadas. Na prática da coleta e da análise, o que esse sistema efetivamente enxerga e o que ele não enxerga? E o que essa fronteira significa para quem tenta compreender a presença de plástico no ambiente?
O monitoramento ambiental de rotina é um espelho da norma. Mede-se o que está sendo desejado gerenciar, com periodicidade, pelo método escolhido. Isso não é limitação de quem executa, é a natureza do instrumento. O laudo tem custo, tem finalidade jurídica e tem responsável técnico. Ninguém analisa o que não foi pedido.
A consequência é que o sistema enxerga com muita nitidez aquilo que se sabia interrogar quando as resoluções foram escritas, e é cego para o que a ciência passou a perguntar depois. Micro e nanoplásticos estão nessa segunda categoria. E aqui está o ponto que considero mais importante desta conversa inteira: ausência de dado não é ausência de fenômeno. São coisas diferentes, e é fácil confundi-las.
Há um detalhe de campo que ilustra isso melhor que qualquer argumento. Boa parte da amostragem ambiental de rotina é acondicionada em frasco plástico. É o padrão, é adequado para os parâmetros exigidos e ninguém jamais questionou. Para uma análise de microplásticos, porém, esse mesmo procedimento é inviável, porque o recipiente contamina a amostra. O procedimento que hoje garante a validade do resultado seria, nesse caso, o que a invalidaria. Não por erro de quem coleta, mas porque o método foi construído para outra pergunta.
Isso me leva a uma conclusão que talvez soe estranha vinda de quem vive de execução técnica. O obstáculo aqui não é técnico, é normativo. Alguém precisa decidir o que medir e contra qual valor comparar, porque sem valor de referência o resultado é diagnóstico e não é enquadramento. Enquanto essa decisão não vem, a resposta honesta é a que dou aos clientes da QUALITAL quando o assunto aparece: não sabemos, porque não foi perguntado.
A revisão da Resolução CONAMA 430 está em curso e trouxe para a mesa temas como poluentes emergentes, ecotoxicidade crônica e o tratamento de efluentes complexos. Empresas que operam em ambientes de alta exigência regulatória costumam se antecipar a mudanças assim. Na prática, o que significa preparar uma operação para uma norma que ainda não entrou em vigor? Que decisões precisam ser tomadas com anos de antecedência?
Significa aceitar que decisões de engenharia têm vida útil maior que ciclos normativos.
Uma revisão normativa em consulta pública é documento publicado. Quem acompanha sabe o que está na mesa, sabe quais parâmetros são discutidos e tem noção razoável do horizonte. A empresa que se surpreende com uma norma nova, na esmagadora maioria dos casos, não foi surpreendida: foi avisada e não leu.
O que muda de fato é a antecedência, e ela se traduz em três decisões concretas.
A primeira é gerar linha de base antes de haver obrigação. Se um parâmetro novo entra e a empresa nunca o mediu, ela vai descobrir o próprio comportamento já sob prazo, sem saber se o resultado é sazonal, se é permanente, ou de qual etapa do processo ele vem. Quem mediu antes negocia cronograma com dado na mão. Quem não mediu negocia com argumento.
A segunda é física, e é a que mais custa quando ignorada. Uma estação de tratamento dimensionada para atender exatamente o padrão vigente, sem área reservada para uma etapa adicional, é uma estação que só se adequa demolindo. Reservar espaço no projeto custa quase nada. Criar espaço depois custa a obra inteira.
A terceira é de calendário. Uma licença de operação vale anos. Quando a norma muda no meio do período, o encontro entre a exigência nova e a operação acontece na renovação, e aí não há tempo de obra. Quem lê esse calendário trata norma futura como dado de projeto e não como risco.
É exatamente isso que a expressão engenharia ambiental que chega antes da lei significa para mim. Não é antecipar o imprevisível, é levar a sério o que já está publicado. Na QUALITAL, tenho insistido que a leitura de consulta pública deveria ser rotina de diretoria, e não de departamento técnico.
Há um argumento da QUALITAL que contraria a intuição corrente sobre reciclagem: parte do potencial de circularidade de uma embalagem se define dentro da unidade produtiva, antes que o material chegue a qualquer sistema externo de coleta. Uma embalagem tecnicamente reciclável pode perder essa condição pelo contato com determinado resíduo de processo. Dê um exemplo concreto de onde isso acontece, e explique o que uma empresa consegue recuperar em circularidade apenas revendo segregação, armazenamento e treinamento.
São dois problemas diferentes dentro da mesma pergunta, e vale separá-los porque têm donos distintos.
O primeiro é de projeto da embalagem, e quem decide é quem a fabrica. Uma estrutura multicamada, combinando polímeros diferentes ou polímero com alumínio, resolve bem o problema de barreira e entrega, ao fim da vida útil, um material que a reciclagem mecânica não separa. Um rótulo de polímero incompatível ou um adesivo que não se desprende na lavagem compromete a carga. E há o caso do pigmento preto à base de negro de fumo, que é o mais eloquente de todos: o polímero é perfeitamente reciclável, mas o pigmento absorve a radiação infravermelha, e o sensor de infravermelho próximo que faz a separação automática na central de triagem não identifica o material. A embalagem é reciclável e invisível ao mesmo tempo. Vira rejeito por uma decisão de cor tomada no desenvolvimento do produto.
Faço questão de dizer que esse primeiro campo não é o meu. Quem responde por ele é a indústria de transformação e quem projeta embalagem, e este dossiê tem vozes mais autorizadas que a minha para tratá-lo. O que observo de fora é apenas isto: são decisões tomadas muito cedo, na concepção do produto, e revisitadas muito tarde, quando a linha já está rodando.
O segundo problema é o que eu vejo em campo, e é o que a pergunta pede quando fala em segregação, armazenamento e treinamento.
Uma bombona de polietileno de alta densidade que conteve óleo lubrificante. O polímero é dos mais valorizados do mercado de reciclagem. Drenada, lavada conforme procedimento e armazenada em área coberta, com piso impermeabilizado e contenção, ela retorna à cadeia e vale dinheiro. A mesma bombona, deixada em pátio descoberto ao lado de uma área com vazamento, com resíduo aderido nas paredes internas e água de chuva acumulada dentro, passa a ser resíduo perigoso e sai da economia circular de forma definitiva.
O polímero é o mesmo nos dois casos. Ninguém decidiu nada em reunião. Alguém empilhou a bombona no lugar errado. E o efeito é duplo, porque o material não apenas deixa de gerar receita: passa a gerar custo, já que destinação de resíduo perigoso é substancialmente mais cara. A empresa paga duas vezes pela mesma decisão que não sabia estar tomando.
O que se recupera revendo isso não exige investimento. Exige cobertura no pátio, segregação por classe, área adequada de armazenamento temporário e treinamento de quem opera. É a intervenção de melhor relação entre custo e retorno que conheço na gestão ambiental industrial, e é a que menos aparece em apresentação de sustentabilidade.
Circularidade não é uma propriedade do material, é uma propriedade do que se fez com ele. Na prática da QUALITAL, isso significa tratar segregação e armazenamento como decisão de valor, e não como capítulo de procedimento.
A discussão sobre economia circular costuma terminar na reciclagem, e a QUALITAL sustenta que ela precisa incluir a destinação da parcela que permanece fora da cadeia de reaproveitamento. Do ponto de vista da engenharia, o que distingue uma central de tratamento e destinação bem projetada, com impermeabilização de base, drenagem, tratamento de lixiviados e monitoramento de águas subterrâneas? E o que a experiência da empresa em licenciar essas estruturas ensinou sobre o que costuma ser subestimado nos projetos?
Antes da engenharia, uma premissa. A conversa sobre economia circular tende a terminar na reciclagem, e a reciclagem responde por uma fração do material. O restante vai para destinação final. Ignorar essa parcela não a faz desaparecer, apenas a torna invisível ao debate, e invisível é exatamente onde os problemas ambientais amadurecem.
Do ponto de vista técnico, uma central bem projetada se define por camadas encadeadas. Impermeabilização de base que isola o maciço do subsolo. Drenagem e tratamento de lixiviado dimensionados para o regime de chuva real do sítio. Segregação efetiva entre resíduo perigoso e não perigoso. E uma rede de poços de monitoramento de água subterrânea posicionada a montante e a jusante do fluxo.
Essa última camada é tratada como acessório e é, na verdade, a que sustenta todas as outras. Sem rede de monitoramento, a estanqueidade do sistema é uma afirmação. Com ela, é uma medição. É a diferença entre acreditar e saber.
Sobre o que se subestima, aponto três coisas.
Subestima-se a caracterização do subsolo na escolha da área. É a etapa mais barata do empreendimento e a que determina o custo de todas as seguintes. Sítio mal escolhido não se corrige com engenharia, corrige-se com dinheiro.
Subestima-se o volume de lixiviado. No semiárido a intuição diz que chove pouco, e o que acontece é chuva concentrada em poucos eventos. O sistema precisa suportar o evento, não a média.
E subestima-se o encerramento. Um aterro encerrado continua gerando lixiviado e continua exigindo monitoramento por décadas. Essa obrigação tem custo, tem responsável e precisa estar provisionada desde o projeto. É a conta que chega quando ninguém mais está olhando. Nos projetos que a QUALITAL conduz, essa conversa é levada ao empreendedor ainda na fase de concepção, porque um sistema de proteção ambiental só cumpre a função para a qual foi dimensionado se o custo de operá-lo e mantê-lo estiver previsto desde o início. Tratada assim, deixa de ser exigência de licenciamento e passa a ser premissa de viabilidade do empreendimento.
O Rio Grande do Norte reúne, em proximidade incomum, produção de petróleo em terra, estuários, manguezais, salinas e indústria, todos convivendo com os mesmos recursos hídricos e a mesma faixa costeira. É um arranjo que obriga a raciocinar por impacto cumulativo. O que esse território ensinou à QUALITAL que talvez não se aprendesse em paisagem menos comprimida? E como esse aprendizado viaja para projetos que a empresa executa em outras regiões?
Ensina a pensar em corpo receptor, e não em cerca.
O Rio Grande do Norte comprime, em pouco espaço, petróleo em terra, salinas, fruticultura irrigada, indústria e um litoral extenso com estuários e manguezais. Não é uma vizinhança casual: esses setores dividem os mesmos aquíferos, as mesmas bacias e a mesma linha de costa. O efluente de uma operação é a condição de contorno da operação seguinte, rio abaixo.
Quem trabalha nesse arranjo desaprende cedo o raciocínio de limite de propriedade. Cada empreendimento é avaliado individualmente pelo licenciamento, mas o corpo hídrico recebe a soma. Um lançamento em conformidade não garante um corpo receptor em conformidade, porque conformidade individual e capacidade de suporte são coisas distintas. No papel isso é óbvio. Na prática, só fica evidente quando se acompanha a mesma bacia por anos, com vários empreendimentos, e se vê a série se comportar de um jeito que nenhum estudo isolado previa.
Há um segundo aprendizado, mais duro. Em zona costeira, o erro é irreversível em escala humana. Manguezal degradado não se recompõe no prazo de um contrato. Aquífero salinizado por sobreexplotação não volta. Onde o erro é irreversível, a única estratégia racional é prevenção, e prevenção é essencialmente informação obtida antes da decisão, e não depois.
Isso viaja bem. Quando a QUALITAL atua fora do estado, a primeira pergunta que fazemos não é sobre a planta, é sobre o entorno: quem mais está na bacia, para onde vai o fluxo subterrâneo, qual a captação mais próxima. Parece pergunta em excesso no início do projeto. Economiza anos depois.
A Agência Nacional do Petróleo projeta mais de seis mil poços onshore em processo de desativação até 2027, com parcela expressiva na região de Mossoró. Descomissionamento é, na essência, um exercício de engenharia ambiental: investigação, caracterização, remediação quando necessário e devolução da área em condição adequada. Que competências técnicas esse ciclo exige, e como a QUALITAL vem se preparando para ele?
Significa produzir evidência, e é aí que quase todo mundo subestima o problema.
Encerrar uma operação parece um exercício de remoção. Desmonta-se o equipamento, retira-se a estrutura, limpa-se o terreno. Visualmente, a área está devolvida. Tecnicamente não está, porque a pergunta relevante não é o que se vê na superfície, é o que permaneceu no solo e na água subterrânea depois de anos de operação.
Responder isso exige um encadeamento que não se improvisa. Investigação para saber se há indício. Caracterização para saber a extensão e a profundidade. Avaliação de risco para saber se aquilo representa ameaça ao uso pretendido da área e a quem eventualmente a ocupe. Remediação, quando indicada. E monitoramento posterior, para demonstrar que a intervenção funcionou e continua funcionando. Cada uma dessas etapas gera documento, e é o conjunto desses documentos, e não a aparência do terreno, que sustenta o encerramento.
Sobre por quanto tempo a responsabilidade acompanha quem operou, a resposta desconfortável é: por muito mais tempo do que costuma constar do orçamento de desmobilização. Passivo ambiental de subsolo não prescreve com a venda do ativo, e a discussão sobre quem responde por ele costuma acontecer anos depois, quando a área muda de uso, de dono, ou quando alguém constrói ao lado.
É por isso que insisto que encerramento não termina quando o equipamento sai. Termina quando existe evidência técnica documentada de que a área está compatível com o uso pretendido. Essa distinção parece formal e não é: é a diferença entre encerrar um ativo e transferir um problema. Na QUALITAL, é a parte do trabalho que mais frequentemente começa tarde demais.
Projetos de drenagem pluvial e oleosa, sistemas de contenção e estudos de risco se apoiam em séries históricas de precipitação. Essas séries vêm perdendo poder preditivo diante de eventos extremos fora do padrão que sustentou o cálculo. O senhor assina projetos com vida útil de décadas. Como a engenharia ambiental está incorporando essa mudança de base estatística?
Essa é a pergunta que mais me incomoda, e vou respondê-la sem conforto.
A hidrologia aplicada a projeto se apoia numa premissa chamada estacionariedade, a de que o passado descreve estatisticamente o futuro. Curva de intensidade e duração, tempo de retorno, chuva de projeto, tudo deriva daí. É essa premissa que está sob erosão. Quando o evento extremo passa a ocorrer com frequência maior do que a série previa, o tempo de retorno adotado no cálculo deixa de significar o que dizia significar.
Isso não é opinião ambiental, é aritmética de série temporal. E é desconfortável porque quem assina o projeto assume responsabilidade técnica por décadas de operação sob um regime de chuvas que não é aquele que sustentou a conta.
Não tenho uma solução elegante para oferecer, e desconfio de quem tem. O que existe é uma mudança de postura, e ela passa por três coisas. Verificar a série em vez de aceitá-la, porque muita curva em uso no Brasil foi construída com dados antigos e curtos, e isso precisa estar declarado no memorial como incerteza, e não escondido dentro de um número limpo. Perguntar o que acontece quando o sistema é superado, porque a água vai para algum lugar de qualquer forma, e projetar o extravasamento é diferente de sofrê-lo. E aceitar folga onde a folga é barata, porque ampliar uma seção no papel custa pouco e refazê-la custa tudo.
Há um vínculo direto com o tema deste especial que vale registrar. É justamente no evento extremo, quando a drenagem é superada, que o resíduo acumulado em ambiente urbano é mobilizado e levado ao corpo d'água. O plástico que chega ao estuário quase nunca foi lançado no estuário. Foi disposto em terra e transportado por uma infraestrutura que ninguém projetou para retê-lo. E o desempenho dessa infraestrutura na retenção de sólidos, na imensa maioria das cidades brasileiras, não é medido. Não temos o dado, e não temos porque nunca foi exigido. É um ponto que, na QUALITAL, temos levantado sempre que a conversa sobre drenagem urbana aparece.
A QUALITAL sustenta que a questão ambiental deixou de estar confinada às áreas de licenciamento e passou a influenciar decisões sobre fornecedores, infraestrutura, investimento e competitividade. Em 23 anos, o senhor viu essa conversa mudar de interlocutor dentro das empresas. Quem procura a QUALITAL hoje, e quem procurava há uma década? E, olhando adiante, que tema o senhor apostaria que estará no centro da agenda ambiental corporativa daqui a cinco anos?
Mudou o interlocutor, e essa é a transformação mais significativa que observei.
Há uma década, quem procurava era o encarregado de meio ambiente, quase sempre subordinado à operação ou à qualidade, com demanda específica e prazo curto: a licença que vence, a condicionante que precisa de resposta, o laudo que o órgão pediu. A conversa era de conformidade e acontecia depois que a decisão de negócio já estava tomada.
Hoje quem procura é diretoria, é área de novos negócios, é quem conduz aquisição de ativo e, cada vez mais, quem responde por relacionamento com cliente exportador. A pergunta mudou de natureza. Não é mais o que preciso apresentar para obter a licença. É se o prazo de licenciamento cabe no cronograma de investimento, o que a auditoria ambiental vai encontrar antes de fecharmos a compra, e se conseguimos demonstrar ao comprador aquilo que ele passou a exigir.
O que produziu essa mudança não foi consciência ambiental. Foi a agenda ambiental ter passado a determinar acesso a mercado, custo de capital e prazo de projeto. O plástico é um bom exemplo: no momento em que meta de conteúdo reciclado virou obrigação legal com sanção, ela deixou de ser assunto de departamento de meio ambiente e virou requisito de fornecimento.
Olhando cinco anos à frente, minha aposta é que o centro da agenda será a rastreabilidade do dado ambiental. Não o dado em si, que já produzimos em volume, mas a capacidade de comprová-lo. Meta de conteúdo reciclado exige comprovar origem. Barreira comercial exige comprovar procedência. Mercado de carbono exige inventário auditável. Em todos os casos, quem não conseguir demonstrar não conseguirá vender, mesmo estando fazendo certo. E essa é uma situação nova, porque durante muito tempo bastou fazer.
É o que aprendi em vinte e três anos à frente da QUALITAL, e resumo assim: a pergunta que as empresas nos fazem mudou de tempo verbal. Antes era o que eu preciso apresentar para conseguir a licença. Hoje é o que eu preciso saber antes de decidir. E essa segunda pergunta é feita anos antes da primeira.
A revisão da Resolução CONAMA 430 segue em tramitação no Conselho Nacional do Meio Ambiente, com os poluentes emergentes entre os temas em discussão. As metas de conteúdo reciclado pós-consumo em embalagens plásticas passaram a valer em janeiro de 2026 para empresas de grande porte, e o primeiro relatório de cumprimento está previsto para 2027, mesmo horizonte da atual leva de descomissionamento onshore projetada pela ANP. A infraestrutura de monitoramento que vai responder a essas três frentes já existe, distribuída por laboratórios, campanhas de campo e equipes técnicas em operação há décadas.
"A pergunta que as empresas nos fazem mudou de tempo verbal", diz Thiago Negreiros. "Antes era o que eu preciso apresentar para conseguir a licença. Hoje é o que eu preciso saber antes de decidir. E essa segunda pergunta é feita anos antes da primeira."
Este conteúdo integra o especial Economia do Plástico 2026 — Plástico, sociedade e natureza: uma relação que precisa ser reinventada, produzido pelo Neo Mondo para inaugurar a Coleção Neo Mondo, série bimestral dedicada aos grandes sistemas que definem o século.

A cadeia que ninguém quis fechar
Rumo à nova economia do plástico e a um ambiente e uma sociedade saudáveis
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