Especial Plástico, Sociedade e Natureza 2026
Escrito por Neo Mondo | 14 de setembro de 2026
Brasil não precisa esperar um número único para agir contra a poluição por plástico, defende Ademilson Zamboni, diretor-geral da Oceana. Foto: Nathalia Carvalho/Oceana
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO
O diretor-geral da Oceana no Brasil defende que a ausência de um número oficial não paralisa política pública, cobra o Senado pela paralisação do PL do plástico há mais de dois anos e argumenta que o conflito de interesse, não a falta de consenso, é o que trava o Tratado Global
Quanto plástico o Brasil joga no mar por ano? A resposta depende de quem você pergunta. O governo federal, ao instituir a Estratégia Nacional do Oceano sem Plástico, trabalha com uma ordem de grandeza. Organizações ambientais publicam outra. A maior das estimativas em circulação supera a menor em mais de sete vezes. Não é discussão técnica sem consequência. Quem estabelece o tamanho do problema estabelece também o tamanho aceitável da resposta, e um país que acredita despejar cem mil toneladas não constrói a mesma política de um país que acredita despejar um milhão.
A conta mais alta é da Oceana: 1,3 milhão de toneladas por ano, o que colocaria o Brasil na oitava posição entre os poluidores plásticos do mundo e na liderança da América Latina. O estudo que sustenta esse número reuniu evidências que ajudam a entender por que a organização insiste nele. Pesquisadores registraram ingestão de plástico em 200 espécies marinhas, das quais 85% correm risco de extinção, e um em cada dez desses animais morreu por desnutrição ou queda de imunidade após exposição a compostos químicos. Microplásticos apareceram em nove das dez espécies de peixe mais consumidas no planeta. O país produz, todo ano, cerca de 3 milhões de toneladas de embalagens e itens plásticos descartáveis.
Com esse número na mão, a Oceana faz o que uma organização de advocacy faz: pressiona. Cobra a votação do Projeto de Lei 2524/2022, parado há mais de dois anos no Senado à espera do parecer do senador Otto Alencar, que representa o estado com a maior costa marinha do país. Acompanhou as rodadas de negociação do tratado global e chamou o desfecho de Genebra, em agosto de 2025, de fracasso do multilateralismo, com pelo menos 234 representantes da indústria química e de combustíveis fósseis credenciados na sala. Comemorou os decretos brasileiros de 2025 e disse, no mesmo texto, que eles não bastam.
Quem assina boa parte dessas cobranças é Ademilson Zamboni, diretor-geral da Oceana no Brasil desde 2018. A trajetória dele torna a crítica mais difícil de descartar como ativismo de fora. Oceanólogo, mestre e doutor em engenharia ambiental pela USP, pesquisou poluição marinha na Universidade Federal do Rio Grande entre 1995 e 2000 e, em 2001, ocupou cargo no Programa Nacional de Gestão Costeira e Marinha do Ministério do Meio Ambiente. Ele já esteve do lado de dentro da máquina que hoje cobra. Nas respostas a seguir, defende a redução da produção, enfrenta as críticas que essa tese recebe da indústria e dos próprios catadores, e explica por que considera a reciclagem uma resposta insuficiente.
A Oceana calcula 1,3 milhão de toneladas de plástico lançadas por ano no mar brasileiro. O governo federal trabalha com número bem inferior, e outras estimativas ficam no meio do caminho. A distância entre as contas passa de sete vezes. Como a Oceana construiu esse número, o que ele inclui que os outros não incluem, e por que o Estado brasileiro não adota uma metodologia única? Enquanto não houver um número oficial aceito por todos, qualquer política pública nasce sem régua.
A estimativa de 1,3 milhão de toneladas foi produzida aplicando a metodologia publicada por Jambeck e colaboradores na revista Science, uma das revistas científicas mais respeitadas do mundo. Atualizando todos os parâmetros com dados de 2022, o cálculo chegou a 3,2 milhões de toneladas de plástico mal gerenciado e a uma faixa estimada de 481 mil a 1,28 milhão de toneladas chegando ao oceano, conforme fatores de vazamento de 15%, 25% e 40% segundo a metodologia. A Oceana adotou aproximadamente 1,3 milhão porque considera 40% o fator mais compatível com um país de extensa rede hidrográfica, alta pluviosidade, milhões de toneladas não coletadas e disposição inadequada, lixões e sistemas frágeis de logística reversa. A faixa, as premissas e a planilha estão publicadas no anexo metodológico do relatório Fragmentos da Destruição.
O projeto Blue Keepers, desenvolvido com participação de pesquisadores da Universidade de São Paulo, tem uma estimativa ainda maior de plástico descartado com potencial de chegar ao mar do que a publicada pela Oceana: 3,44 milhões de toneladas por ano. As diferenças decorrem de recortes, bases de dados e metodologias distintas. Já o dado de 190 mil toneladas, divulgado pelo governo, não vem acompanhado de uma metodologia pública. O Brasil, de fato, ainda não dispõe de um dado nacional oficial, atualizado e regularmente monitorado.
Mas é incorreta a premissa de que, sem um número único aceito por todos, qualquer política pública nasce sem régua. O Brasil também não possui uma taxa oficial e consensual de reciclagem: os números variam conforme a indústria, a Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente, os municípios e as organizações de catadoras e catadores. Nem por isso seria razoável suspender políticas de reciclagem, logística reversa ou valorização do trabalho de catadores. Já podemos medir quanto plástico é colocado no mercado, quanto é reutilizado, coletado, efetivamente reciclado, descartado e o tamanho do passivo ambiental. Transformar a ausência de uma estatística oficial em justificativa para a inação é uma inversão metodológica bastante conveniente para quem prefere preservar o status quo.
O senhor escreveu, em junho de 2026, que o oceano não pode ficar à deriva em ano eleitoral. Na prática, o mar move voto no Brasil? O que o senhor considera exigível de um candidato à Presidência nessa agenda, em compromisso verificável e não em declaração de intenção?
Apesar de mais de 110 milhões de brasileiros viverem próximos ao litoral e de milhões de pessoas dependerem do mar como fonte de trabalho, renda e subsistência, historicamente, no Brasil, o meio ambiente, de modo geral, e o oceano, mais especificamente, não são temas de relevante interesse eleitoral. Os efeitos desse descaso são cada vez mais sentidos por toda a sociedade, por exemplo, com o aumento dos impactos negativos das mudanças climáticas, que têm escala para afetar a já baixa resiliência das cidades costeiras a eventos extremos. Portanto, o desafio é fazer com que o debate eleitoral torne mais evidentes as conexões entre a proteção dos oceanos com o cotidiano de milhões de pessoas: com o custo dos pescados, com a geração de emprego e renda, com a erosão costeira, com a especulação imobiliária, com a qualidade da água das praias, com o custo dos serviços públicos, e até mesmo com o oxigênio que respiramos.
De um candidato à Presidência, é preciso exigir compromissos que possam ser identificados no programa de governo e, depois, no Plano Plurianual e nos orçamentos anuais. Um exemplo concreto é assegurar recursos, cronograma e responsabilidades institucionais para implementar a Estratégia Nacional Oceano sem Plástico. Outro é garantir que as áreas marinhas protegidas tenham efetividade, com planos de manejo, equipes, fiscalização, monitoramento e orçamento, porque criar áreas apenas no papel não protege o oceano.
Também é necessário assumir a implantação de um sistema contínuo de monitoramento da pesca, com dados sobre desembarques, avaliações regulares dos estoques, transparência e participação das comunidades pesqueiras na gestão. Metas, prazos, orçamento, órgãos responsáveis e prestação pública de contas são os elementos que distinguem um compromisso de uma declaração de intenção que tangencia, no máximo, o conceito genérico de PIB do Mar ou Economia Azul. É isso que devemos cobrar de quem pretende governar um país com quase 8 mil quilômetros de costa.
O Projeto de Lei 2524/2022 está parado há mais de dois anos no Senado, à espera do parecer do senador Otto Alencar, da Bahia. A Oceana o nomeia publicamente. Existe diálogo aberto com o gabinete dele? E qual é o bloqueio real: pressão do setor produtivo, desinteresse pela pauta, ou algum problema no próprio texto do projeto que o senhor reconheceria?
O diálogo com o gabinete do senador Otto Alencar existe e permanece aberto. A Oceana e as organizações que compõem a campanha Pare o Tsunami de Plástico apresentaram contribuições técnicas, reuniram-se diversas vezes com sua equipe, com o governo e com representantes do setor nos últimos anos. O fato objetivo, porém, é que, desde 5 de março de 2024, o senador ocupa a relatoria e não apresentou ainda o parecer. Nomeá-lo publicamente não significa personalizar o debate, mas reconhecer a responsabilidade institucional de quem detém a relatoria da matéria.
A pressão dos setores petroquímico e plástico contra quaisquer medidas de redução, transição ou substituição é pública e recorrente, mas não cabe à Oceana atribuir, sem provas, uma motivação pessoal ao senador. Também não há evidência de que o texto tenha algum defeito incontornável e inegociável. Ele foi construído a partir de diálogo com diversos representantes da sociedade civil, inclusive dos movimentos de catadores e catadoras de materiais recicláveis, já foi amplamente debatido no Congresso através de diversas audiências públicas, já recebeu parecer favorável e foi aprovado na Comissão de Assuntos Sociais do Senado Federal. Evidentemente, todo projeto pode ser aperfeiçoado. Se o relator identifica problemas, sua função institucional é apresentá-los num relatório e abrir o debate. O silêncio por mais de dois anos não é uma posição técnica, é uma posição política e omissa.
O senhor sustenta que a reciclagem não é o elixir e que é preciso reduzir a produção. Do outro lado, catadoras e catadores vivem do volume que passa por suas mãos, e a indústria de transformação emprega centenas de milhares de pessoas. Como o senhor responde à acusação de que reduzir produção significa eliminar renda de quem está na base? Onde está a transição justa dentro da proposta da Oceana, em desenho concreto?
Essa acusação reproduz uma narrativa recorrente da indústria: tratar qualquer redução dirigida a produtos descartáveis como ameaça a centenas de milhares de empregos e à renda dos catadores, como se toda a indústria de transformação estivesse em risco e todo plástico descartado tivesse valor econômico. Não é verdade. Os segmentos alcançados pelas medidas de redução e substituição gradual representam apenas cerca de 6,8% da produção de plásticos transformados. Trata-se de reduzir itens específicos, como copos, canudos, talheres e outros descartáveis que não têm valor comercial e viram rejeito e custo nas cooperativas. Uma pesquisa do Instituto Pólis encontrou plásticos em 33% dos rejeitos analisados; uma pesquisa do Instituto Direito Coletivo e da Universidade Federal Fluminense, realizada em 20 cooperativas, estimou que 45% do plástico triado se torna rejeito, e calculou que cada catador perde cerca de 16 horas por mês separando materiais que não geram renda nenhuma. Essa categoria de descartáveis não só não sustenta catadores e catadoras, como transfere a eles e às prefeituras custos que deveriam ser assumidos pela indústria. Invocar os catadores para preservar um modelo que lhes transfere toneladas de rejeitos, trabalho não remunerado e custos de destinação não é justiça social nem transição justa, é uma forma de manter esses custos longe de quem lucra com a produção desenfreada de algo que, no fim, é lixo.
Uma transição justa deve combinar a redução gradual dos itens problemáticos com aumento da oferta e fomento de produtos e materiais alternativos, aumento de conteúdo reciclado obrigatório, demanda estável por materiais reciclados de fato, logística reversa financiada pelos produtores, remuneração pelos serviços de coleta e triagem e contratação prioritária das cooperativas. O PL 2524/2022 já prevê metas de reuso e conteúdo reciclado para embalagens plásticas, prioridade para as organizações de catadores, e a inclusão desses profissionais no Programa Federal de Pagamento por Serviços Ambientais. A isso devem se somar crédito, qualificação profissional e proteção aos trabalhadores dos segmentos afetados.
A Oceana chamou o desfecho de Genebra de fracasso do multilateralismo. Passados quase quatro anos do mandato de 2022, o processo segue sem texto acordado e sem data para retomada substantiva. A essa altura, o tratado ainda é a estratégia certa, ou a sociedade civil deveria redirecionar energia para legislação doméstica, litígio e pressão sobre grandes compradores de embalagem?
O Tratado Global Contra a Poluição por Plástico continua necessário, mas não qualquer tratado. O fracasso de Genebra não pode ser explicado sem considerar dois problemas estruturais do processo de negociação: o conflito de interesses e a regra do consenso. Pelo menos 234 lobistas das indústrias química e de combustíveis fósseis se registraram para participar da rodada, incluindo representantes incorporados a delegações nacionais. Quando um setor cujo modelo de negócio depende da expansão da produção participa da definição das regras destinadas a limitá-la, o conflito é evidente. Somado à prática do consenso, isso permitiu que uma minoria bloqueasse a maioria dos países dispostos a avançar.
A Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco oferece uma lição importante. Ela reconheceu o conflito fundamental entre a proteção da saúde e os interesses comerciais da indústria do tabaco e determinou que as políticas públicas fossem protegidas dessa interferência. A indústria passou a ser tratada como objeto da regulação, não como coautora das regras, e assim a negociação naquele tratado avançou. O Tratado do Plástico precisa de salvaguardas semelhantes e deve cumprir o mandato aprovado pela ONU, que é acabar com a poluição por plástico considerando todo o ciclo de vida do material. Isso exige reduzir a produção, restringir substâncias químicas perigosas, eliminar produtos problemáticos, desnecessários ou evitáveis e ampliar sistemas de reuso, por exemplo. Um acordo limitado à gestão de resíduos pode até receber o nome de tratado, mas não cumprirá o mandato que lhe deu origem e não será suficiente para combater a poluição por plásticos e seus impactos.
Ao mesmo tempo, continuar defendendo o tratado não significa esperar por ele. Um acordo global pode alcançar produção, substâncias químicas, comércio e cadeias transnacionais de forma mais ampla do que uma legislação brasileira, mas a ação doméstica é urgente. Enquanto 141 países já adotaram restrições a produtos plásticos, o Brasil segue sem uma lei nacional. O Congresso acumula, há décadas, centenas de proposições apresentadas por parlamentares de diferentes correntes políticas. Apenas uma delas, o PL 612/2007, reúne quase 160 projetos apensados e está perto de completar 20 anos. A ausência de legislação não decorre de falta de propostas ou de debate; ela é fruto do lobby setorial para impedir que essas propostas se transformem em lei.
A comunicação sobre saúde humana mudou a percepção pública do plástico, e a Oceana usa esse argumento. Acontece que a própria ciência ainda discute método: em janeiro de 2026, a Nature apontou que os níveis ambientais podem ter sido superestimados por falta de padronização. Como uma organização de advocacy trabalha com um dado que ainda está sendo calibrado sem correr o risco de perder credibilidade se a medida for revista para baixo?
Questionamentos metodológicos são parte normal e necessária do processo científico. Uma contestação pode tratar da metodologia utilizada, dos controles de contaminação cruzada, do tamanho das amostragens ou da quantificação dos resultados, sem necessariamente invalidar todas as conclusões do trabalho. Tampouco permite concluir que todo o conjunto de evidências sobre microplásticos produzido até aqui tenha sido refutado.
A ciência não se constrói a partir de um único artigo científico, mas pelo acúmulo, pela comparação e pela reprodução de resultados. Existe um corpo crescente de pesquisas publicadas em revistas científicas com revisão por pares que demonstra a exposição humana e a presença de microplásticos em diferentes tecidos e órgãos vitais. Pesquisadores da Faculdade de Medicina da USP, em trabalhos conduzidos pela equipe da professora Thais Mauad, identificaram partículas e fibras de plástico no tecido pulmonar. Posteriormente, encontraram microplásticos no bulbo olfatório, indicando uma possível rota de entrada dessas partículas no cérebro humano. Esses estudos não afirmam que todos os efeitos clínicos ou relações de causalidade já estejam estabelecidos, mas mostram que existe uma base científica legítima para preocupação e aprofundamento das pesquisas.
Como organização que atua com base na ciência, a Oceana trabalha com as evidências publicadas, reconhece suas limitações e atualiza suas posições quando surgem dados mais robustos. Esse rigor, porém, é o que se espera de todos. Financiamentos e conflitos de interesse devem ser transparentes, especialmente quando pesquisadores ou estudos estão ligados aos setores que serão regulados. A fabricação da dúvida, a seleção conveniente de evidências e o financiamento de pesquisas favoráveis são estratégias conhecidas e amplamente documentadas nos debates sobre tabaco, combustíveis fósseis e contaminação por agrotóxicos.
A indústria química argumenta que o Brasil consome menos plástico per capita do que países desenvolvidos e que o problema brasileiro é gestão de resíduos, não produção. É o contra-argumento central que o senhor enfrenta em toda mesa de debate. Qual é a sua resposta, com dado?
O problema da poluição por plásticos não começa no descarte, começa no design e na produção de itens problemáticos e desnecessários. O Brasil produz cerca de 3 milhões de toneladas de embalagens e itens descartáveis de plástico por ano. Boa parte desses produtos sequer foi desenhada para retornar ao ciclo produtivo, se torna rejeito nas cooperativas e passivo ambiental, cujo custo não é pago por quem defende a gestão dos resíduos como solução.
Segundo dados da Abrema, o país gerou 81,6 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos em 2024. Aplicando a composição de 16,8% de plásticos no resíduo urbano adotada pelo Plano Nacional de Resíduos Sólidos, chegamos a aproximadamente 13,7 milhões de toneladas de resíduos plásticos gerados. Globalmente, apenas 9% de todo o resíduo plástico produzido no mundo foi reciclado. No Brasil, as taxas de reciclagem são divergentes, mas apontam que pelo menos 77,9% dos resíduos plásticos já estão acumulados em aterros, lixões ou dispersos no meio ambiente.
A conta não fecha se investirmos apenas em administrar o descarte, sem enfrentar a causa raiz, que é o volume e as características dos produtos plásticos colocados no mercado. A variedade desses produtos torna a gestão desses materiais bastante complexa. Se as taxas de reciclagem já são baixas para itens plásticos de alto interesse, como o PET, para produtos descartáveis como talheres, sacolas, pratos e copos, sem valor para o mercado de reciclagem, elas são praticamente zero.
Supondo o melhor cenário, em que fosse possível superar todos os desafios inerentes ao processo de gestão dos resíduos nos municípios brasileiros, a reciclagem, sozinha, não será capaz de acompanhar a velocidade e o volume de geração de resíduos plásticos descartáveis. Investimentos e subsídios para a reciclagem e a gestão de resíduos não estão na mesma escala dos investimentos na produção de plásticos. Melhorar a gestão é indispensável, mas não substitui a necessidade de prevenir a geração e o impacto.
É por isso que a própria Política Nacional de Resíduos Sólidos estabelece uma hierarquia: não geração, redução e reutilização vêm antes da reciclagem, do tratamento e da disposição final adequada dos rejeitos. Medidas de restrição a determinados plásticos descartáveis, já adotadas em 141 países, complementam os sistemas de gestão. A proposta da Oceana está justamente alinhada com essa hierarquia: reduzir produtos desnecessários, ampliar sistemas de reuso e fortalecer a reciclagem.
O senhor escreve que falta coragem. Se em 2030 o senhor pudesse verificar um único indicador para dizer que o Brasil mudou de rota, qual seria? E qual resultado, nesse mesmo prazo, a Oceana consideraria uma derrota?
Eu escolheria a aprovação do Projeto de Lei 2524/2022 como o principal marco de mudança de rota. Sua transformação em uma lei efetivamente regulamentada e implementada mostraria que o Brasil decidiu enfrentar a poluição por plásticos de verdade, com coragem e atacando sua causa raiz.
Esse avanço precisa caminhar junto com outras políticas públicas importantes, como a implementação da Estratégia Nacional Oceano sem Plástico, com orçamento, execução e transparência, assim como o cumprimento da logística reversa das embalagens plásticas. Isso inclui alcançar as metas de recuperação e conteúdo reciclado, estabelecer e cumprir as metas de reuso de embalagens retornáveis e assegurar a participação e a remuneração de catadores e catadoras. Não só para a Oceana, mas para o país e para a vida, uma derrota seria chegar em 2030 com os mesmos indicadores de poluição por plástico que temos hoje, ou até piores, e sem políticas efetivas terem sido implementadas.
O PL 2524/2022 segue no Senado aguardando parecer desde março de 2024. A Estratégia Nacional do Oceano sem Plástico tem horizonte em 2030 e teve o primeiro Plano de Ação Federal aprovado em maio de 2026, cobrindo dois anos. As metas de conteúdo reciclado do decreto de logística reversa valem desde janeiro de 2026 para grandes empresas, e o primeiro relatório de cumprimento está previsto para 2027. A retomada das negociações do tratado global permanece sem data.
"Uma derrota seria chegar em 2030 com os mesmos indicadores de poluição por plástico que temos hoje, ou até piores, e sem políticas efetivas terem sido implementadas", diz Ademilson Zamboni.
Este conteúdo integra o especial Economia do Plástico 2026 — Plástico, sociedade e natureza: uma relação que precisa ser reinventada, produzido pelo Neo Mondo para inaugurar a Coleção Neo Mondo, série bimestral dedicada aos grandes sistemas que definem o século.

A cadeia que ninguém quis fechar
Rumo à nova economia do plástico e a um ambiente e uma sociedade saudáveis
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