Especial Plástico, Sociedade e Natureza 2026
Escrito por Neo Mondo | 14 de setembro de 2026
Oceano fez do veleiro Kat uma testemunha de 42 anos da viagem do plástico entre continentes, ilhas e comunidades - Foto: Divulgação/Voz dos Oceanos
POR - HELOISA SCHURMANN* DA VOZ DOS OCEANOS
Um testemunho de 42 anos acompanhando, de dentro do mar, a viagem do plástico pelo mundo
Quando mergulho nas lembranças da minha infância, vejo a pequena Heloisa sentada na Pedra do Arpoador, no Rio de Janeiro, observando os navios desaparecerem no horizonte. Eu não sabia para onde eles iam. Só sentia que queria segui-los. Eu sonhava em descobrir outros mundos e viver aventuras como as dos livros de Júlio Verne. Naquela época, eu dizia que era uma sereia que havia perdido as nadadeiras e ganhado pés.
Nunca imaginei que aqueles pés me levariam até um veleiro e que o horizonte se tornaria minha casa.
Nos anos 1970, Vilfredo e eu ganhamos uma viagem ao Caribe. Nenhum de nós havia velejado. Compramos um passeio e chegamos ao porto duas horas antes, tamanha era a ansiedade. Quando embarcamos, o veleiro começou a andar com o motor ligado, e pensei: “Mas velejar é isso?” Pouco depois, desligaram o motor e as velas subiram. Ainda consigo ouvir o som das ondas batendo no casco e sentir a força do vento empurrando o barco. Foi amor à primeira vista. Naquele dia fizemos um pacto: voltaríamos ao Caribe a bordo do nosso próprio veleiro. E assim nasceu o sonho de dar uma volta ao mundo com a família.
Passamos dez anos nos preparando para um sonho que parecia impossível para quase todos. Em 14 de abril de 1984, partimos de Santa Catarina com nossos três filhos: Pierre, de 15 anos, David, de 10, e Wilhelm, de 7. Éramos cinco sonhadores trocando a terra firme pela vida no mar. Planejamos a viagem para durar dois anos, acabou durando dez.
E continuamos nossa vida no mar. Na Magalhães Global Adventure, entre 1997 e 2000, Kat, nossa filha caçula, tinha apenas 5 anos quando embarcou conosco. A expedição também levou o projeto Educação na Aventura a mais de dois milhões de estudantes. Depois veio a Expedição Oriente, de 2014 a 2016, uma viagem de 812 dias que nos levou novamente ao Pacífico e à Antártica. E, finalmente, a Voz dos Oceanos, de 2021 a 2025, nossa quarta volta ao mundo.
Hoje, depois de 42 anos navegando, quatro circunavegações, mais de 70 países e passagens pelos oceanos Atlântico, Pacífico, Índico e Antártico, me dei conta de que não atravessei apenas mares. Atravessei também um período de profundas mudanças no planeta.
Eu vi o oceano mudar.
Não foi uma transformação repentina. Não houve um dia em que acordássemos e o mar estivesse diferente. A mudança chegou devagar, quase silenciosa, primeiro nos pequenos gestos da vida cotidiana, em lugares muito distantes das grandes cidades.
Nas primeiras viagens, quando ancorávamos perto de pequenas comunidades e aldeias do Pacífico, as pessoas vinham nos receber trazendo peixes, conchas, cocos, frutas e mandioca. Tudo era colocado em cestos e bolsas trançados com folhas e fibras naturais. Eram objetos bonitos, feitos com as próprias mãos e usados muitas vezes. Quando já não serviam, voltavam para a natureza, descartados na terra ou no mar.
A bordo, nós também aprendíamos com aquela forma de viver. Guardávamos no pequeno freezer sobras de alimentos para entregar aos moradores, que os usavam para alimentar porcos e galinhas. Nada era simplesmente jogado fora. Levávamos tecidos, livros e material escolar e trocávamos por frutas, peixes e histórias. Era uma economia de escambo, feita de necessidade, de cuidado e de relações humanas.
Na segunda volta ao mundo, entre 1997 e 2000, na Magalhães Global Adventure, começamos a receber os mesmos produtos dentro de sacolas plásticas. Diante do nosso espanto, os moradores explicavam que os barcos que recolhiam a copra, os peixes e os moluscos também traziam combustível, arroz, farinha, refrigerantes, alimentos processados e outras mercadorias. E, junto com elas, chegaram as sacolas e as embalagens.
Era fácil entender o encantamento. O plástico era leve, barato, resistente e prático. Parecia uma solução perfeita para comunidades isoladas. Aos poucos, porém, os cestos de palha deram lugar às embalagens descartáveis.
O objeto havia mudado, mas o costume continuava o mesmo. Durante gerações, restos naturais tinham sido devolvidos ao ambiente e desapareciam. Quando a mesma coisa começou a ser feita com o plástico, ele não desapareceu. A sacola ficou. A garrafa ficou. O frasco de shampoo ficou. Levados pelas chuvas, pelos rios e pelas correntes, esses objetos começaram uma viagem inesperada pelos oceanos.
Em uma pequena ilha de Fiji, sem eletricidade e com pouco combustível, eu, meus filhos ajudávamos os moradores a recolher a madeira trazida pelo mar. Ela seria usada para acender o fogo e preparar os peixes. Vi uma fogueira soltando uma fumaça muito preta e perguntei se estavam queimando lixo.
“Não, senhora. Estamos fazendo fogo para cozinhar. Agora chega mais plástico do que madeira. O plástico é mais leve e usamos para fazer o fogo.”
Nunca esqueci essa resposta. Para mim, o plástico era poluição. Para aquela família, naquele momento, era o material que o mar havia entregado e que permitia preparar a comida. Ali compreendi que essa história nunca seria apenas ambiental. Ela também era social, econômica e humana.
Em 1998, na nossa segunda volta ao mundo, chegamos à Ilha Henderson, um dos lugares mais isolados e inacessíveis do Pacífico. Não havia cidade nem moradores permanentes. Mesmo assim, encontramos garrafas, boias, embalagens e petrechos de pesca espalhados pela praia. Foi a primeira vez que vimos ninhos de aves entrelaçados com fios coloridos de pesca.
E o primeiro grande choque. Como o nosso lixo havia chegado a um lugar tão distante antes de nós?
Naquele dia entendi que o oceano não separa. O oceano conecta. E foi assim que compreendi a dimensão dessa viagem do plástico, um só oceano, sob nomes diferentes.
À medida que os anos passavam, víamos o plástico aparecer nos costões, nas praias, no meio do oceano e durante os mergulhos. Encontrávamos animais presos em redes fantasmas e, algumas vezes, mortos por elas. O que parecia pontual começou a se repetir.
Até os sinais de aproximação da terra mudaram. Os antigos navegadores sabiam que uma ilha estava próxima quando avistavam aves, folhas, sementes ou galhos flutuando. Durante séculos, eram esses os mensageiros da terra. Hoje, muitas vezes, as primeiras coisas que vemos são garrafas PET e embalagens boiando.
Também vi crescer o trânsito dos grandes navios porta-contêineres. Em 2015, em alguns dos nossos registros de bordo, a média de avistamentos chegava a cerca de 15 navios por dia. Em 2025, no mesmo trecho, aproximava-se de 25. Do convés de um veleiro, aqueles gigantes carregados de milhares de contêineres me faziam pensar no crescimento do consumo mundial.
Em 2015, durante a Expedição Oriente, chegamos a West Fayu, na Micronésia. Era outra ilha desabitada no meio do Pacífico. Encontramos cerca de 150 metros de praia tomados por embalagens e objetos plásticos vindos de muitas partes do mundo.
Decidimos limpar aquele trecho. Éramos poucas pessoas numa das praias mais remotas do planeta. Enchemos mais de dez sacos de cem litros. Lavamos os resíduos, separamos e compactamos tudo a bordo do Kat. Depois levamos o material até um centro de reciclagem em Guam.
Talvez a nossa limpeza tenha parecido pequena diante da imensidão do problema. Mas, para nós, ela teve um significado enorme. Henderson havia sido o alerta. West Fayu, a confirmação. Em 17 anos, aquilo que parecia distante se tornou presença constante.
Essas duas ilhas mudaram o rumo da nossa família. Depois da terceira volta ao mundo, já não conseguíamos falar somente das paisagens extraordinárias que conhecíamos. Precisávamos também contar o que estava acontecendo diante de nós. Em 2018, decidimos criar a Voz dos Oceanos para transformar testemunho em ação.
Não queríamos navegar levando respostas prontas. Queríamos ouvir. Queríamos encontrar cientistas, professores, catadores, estudantes, artistas, comunidades e empreendedores que já estivessem cuidando do oceano e ajudar suas vozes a viajar mais longe.
O próprio veleiro Kat tornou-se uma experiência viva. O veleiro produz energia a partir do sol, do vento e do movimento da água. Possui dessalinizador, tratamento de esgoto com luz ultravioleta, compactadora que reduz em até 80% o volume dos recicláveis, compostagem, pequenas hortas e uma estação onde limpamos, secamos e separamos papel, metal, plástico e vidro. O vidro é triturado até virar areia. Em Nova York, entregamos o vidro de 250 garrafas a um projeto do Instituto de Tecnologia de Nova Jérsei, que estudava sua incorporação, junto com plástico, em materiais de construção.
Viver dessa maneira num veleiro mostrou algo muito concreto: não basta levar o lixo para longe dos olhos. No mar, não existe caminhão que passe no dia seguinte. Tudo aquilo que consumimos permanece conosco até encontrarmos um destino adequado. O barco nos obriga a enxergar todo o ciclo de cada objeto.
Em agosto de 2021, partimos novamente a bordo do Kat. Durante quatro anos e dois meses, navegamos 42.176 milhas náuticas, atravessamos 17 países e passamos por mais de 140 locais. Em todos eles encontramos algum sinal de plástico ou microplástico, confirmando que a viagem do plástico não parou.
E foi muito além das ilhas remotas do Pacífico que testemunhei essa transformação. Ao longo das nossas expedições, encontrei o plástico em todas as suas formas e em todos os tipos de paisagem, das pequenas comunidades às maiores cidades do mundo. E, em cada lugar, ficou claro que a viagem do plástico continua — e que ainda precisamos ouvir o oceano e agir por ele.
No Caribe, depois de dois grandes furacões, em 2023, vi nas Ilhas Virgens Britânicas o outro lado de uma ajuda indispensável: milhares de garrafas de água foram doadas às populações que haviam ficado sem abastecimento, mas, depois da emergência, as ilhas não tinham estrutura nem espaço para recebê-las, e parte delas acabou sendo queimada. Nas Bahamas, encontrei praias de águas transparentes cobertas por resíduos que ninguém conseguia recolher ou processar, acumulados entre a vegetação e os manguezais, ameaçando não apenas a vida marinha, mas também cabras e outros animais terrestres.
Nas Ilhas Galápagos, acompanhei a pressão crescente do turismo sobre um território limitado. Colocaram número de visitantes controlado. Mas não existe gestão de resíduos.

Na Polinésia Francesa, visitei projetos de catadores e separadores que trabalhavam sobre uma enorme montanha de lixo, sabendo que restavam poucos anos de espaço disponível para continuar recebendo os resíduos. No Maine, no norte dos Estados Unidos, encontramos praias marcadas por embalagens de alimentos e por redes e petrechos de pesca da lagosta abandonadas, a chamada pesca fantasma. Em Nova York, vimos passar atrás do veleiro Kat imensas balsas carregadas de contêineres de lixo, transportados para aterros em outros estados, enquanto conhecíamos projetos de compostagem que tentavam mudar aquela realidade.
Na Expedição Oriente, entre 2014 e 2016, a China, o Mar da China, o Japão e outras regiões da Ásia e do Oceano Índico já nos mostravam que o problema não conhecia fronteiras.
E também vi tudo isso no Brasil. Navegando pelo rio Pará, durante a cheia, passávamos ao nosso lado ilhas flutuantes de vegetação, mas também verdadeiras ilhas de plástico. Em Afuá, construída sobre palafitas, compreendi novamente o desafio de uma comunidade cercada por água e sem espaço ou estrutura para destinar o próprio lixo. Nos rios, praias e manguezais brasileiros, vi sacolas, garrafas e embalagens presas às raízes, como se o plástico tivesse passado a fazer parte da paisagem.
Portanto, quando falo do oceano que vi mudar, não falo apenas de Henderson, West Fayu ou da Indonésia. Falo de uma convivência com o plástico que atravessei durante décadas, no Pacífico, no Atlântico, no Índico, no Caribe, na Ásia, nos Estados Unidos e dentro do nosso próprio Brasil. Vi esse desafio/problema nas ilhas e nas metrópoles, boiando no mar, descendo pelos rios, queimando em fogueiras, enterrado em montanhas de lixo, preso aos manguezais e aos corais no fundo do mar.
E, em alguns desses mesmos lugares, vi também pessoas tentando separar, reaproveitar, pesquisar e encontrar uma saída, mesmo quando o espaço e o tempo pareciam estar se esgotando.
Mas foi na Indonésia, em 2025, que senti essa realidade de um modo que jamais esquecerei.
Conhecer Raja Ampat era um sonho e está entre os maiores tesouros de biodiversidade marinha do planeta. Debaixo d’água, eu me sentia dentro de um aquário sem paredes. Tartarugas passavam sobre os corais, e os peixes surgiam em tantas formas e cores que os olhos não sabiam onde pousar. Era o oceano em festa, inteiro, exuberante, respirando diante de nós.
De repente, a corrente mudou, e, com ela, a paisagem revelou outra face do oceano. E, com ela, mudou também a minha percepção sobre o que o oceano ainda me mostrava.
Começaram a chegar garrafas PET, sacolas, embalagens, frascos de shampoo e de amaciante. O plástico batia em nossos braços, nas máscaras e no rosto. Eu , Wilhelm e Erika tentamos continuar o mergulho, mas tivemos que sair da água. Pela primeira vez, não apenas vi a poluição. Fui literalmente atingida por ela. Posso dizer que levei tapas da poluição!
Saímos dessa ilha e seguimos então em direção a uma cidade onde faríamos abastecimento. Pouco depois, encontramos duas baleias, mãe e filha. Foi uma daquelas cenas que fazem o coração esquecer todo o resto. Em cerca de vinte minutos, passamos da emoção daquele encontro para uma faixa de resíduos tão densa que o barco precisou reduzir a velocidade e parar. Ficamos ilhados no meio de uma faixa de quilômetros plásticos. o cheiro era horrível. No meio do lixo, havia aves e ratos mortos. Quase vomitei. Esse mesmo pedaço de oceano, vimos a grandeza da vida e o peso das nossas escolhas.
Ter vivido essas memórias muda a forma de navegar. Hoje, quando uma ilha remota surge no horizonte, uma parte de mim ainda torce para encontrar o paraíso preservado. Outra parte já se prepara para o que talvez esteja na praia.
Meu relato não nasceu num laboratório nem num relatório. Eu vivi essa transformação. Vi a palha ser substituída pela sacola. Vi o plástico chegar como símbolo de modernidade e terminar queimado numa fogueira para cozinhar. Vi objetos isolados transformarem-se em montanhas. Vi resíduos produzidos num continente aparecerem numa ilha onde ninguém vivia. Durante quatro décadas, acompanhei a trajetória do plástico enquanto realizava minha própria viagem pelo mundo.
Mas a ciência nos ajudou a enxergar o que os olhos não conseguem ver. Em 2024, a primeira expedição científica da Voz dos Oceanos, conduzida por uma tripulação exclusivamente feminina, percorreu 14 estados costeiros brasileiros entre maio e julho. A bióloga marinha Marília Nagata, a oceanógrafa Katharina Grisotti, a bióloga marinha Jessica Lopes e a fotógrafa e documentarista Thamys Trindade coletaram mais de 890 moluscos, entre ostras, mexilhões e sururus, comercializados e consumidos ao longo da costa.
Nas análises realizadas em parceria com a Cátedra UNESCO para a Sustentabilidade do Oceano, pesquisadores da USP encontraram microplásticos em animais de todas as localidades pesquisadas. Cerca de 70% dos exemplares continham essas partículas. Era uma pesquisa sobre o oceano, mas também sobre segurança alimentar. Aquilo que havíamos encontrado nas praias agora aparecia nos organismos que chegavam à nossa mesa.
Ao mesmo tempo, os 42 anos no mar não me deram apenas memórias de perda. Deram-me também encontros que me inspiram a continuar nessa missão de defender os oceanos na voz dos oceanos.
Na Ilha Grande, vi redes-fantasmas retiradas do mar transformarem-se em bolsas, bonés e sandálias, e em trabalho e renda nas mãos do projeto Marulho Eco. Na Rocinha, conheci jovens da Na Laje Designs que transformam tampinhas plásticas em skates. Na Costa Rica, acompanhei uma tecnologia que incorpora resíduos plásticos a blocos e materiais de construção. Em Fiji, vi mulheres restaurando manguezais. Em outros lugares, conheci jovens cultivando corais em berçários e comunidades recuperando praias que pareciam perdidas.
Não vejo essas experiências como uma fórmula simples para resolver uma crise tão grande. Vejo como provas de que as pessoas não estão apenas esperando. Cada solução nasceu de um lugar, de uma necessidade e de alguém que decidiu começar com o que tinha nas mãos.
Em escolas, vivi talvez algumas das cenas mais esperançosas. Crianças que chegavam para ouvir nossas histórias voltavam para casa e perguntavam aos pais por que usavam tantos itens descartáveis. Algumas criavam hortas, faziam compostagem e organizavam mutirões. Elas não falavam de sustentabilidade como algo difícil. Falavam como quem havia entendido que cuidar do planeta era cuidar do lugar onde brincavam e do mar onde queriam nadar.
Por isso, não quero encerrar este relato com uma lista de soluções. Não tenho uma resposta única. Tenho cenas. Tenho vozes. Tenho a lembrança de uma praia desabitada que limpamos com as próprias mãos. Tenho o vidro de 250 garrafas deixando de ocupar espaço no barco para entrar numa pesquisa. Tenho mulheres cruzando a costa brasileira em busca de partículas invisíveis. Tenho crianças mudando seus hábitos em suas casas. Tenho comunidades que, mesmo recebendo o lixo trazido pelas correntes, continuam cuidando de suas ilhas.
Também tenho o oceano.
Aos 80 anos, continuo me sentindo aquela sereia que perdeu as nadadeiras e ganhou pés. Só que agora carrego a responsabilidade de contar o que esses olhos viram. Vi um oceano generoso, forte e cheio de vida. Vi também um oceano doente. E aprendi que as duas coisas podem existir ao mesmo tempo.
O oceano fala. Fala no silêncio, nas correntes, na força do vento e nas noites em que a bioluminescência transforma a água num universo azul brilhante. Fala quando uma baleia surge ao lado do barco. Fala quando uma tartaruga volta a uma praia recuperada. E fala também quando uma garrafa PET é o primeiro sinal de que a terra está próxima.
Depois de 42 anos seguindo horizontes, não consigo olhar para o mar apenas como paisagem. Ele é memória, casa, alimento, clima, trabalho, mistério e vida. É também um espelho que nos devolve aquilo que escolhemos colocar no mundo.
O que vi me preocupa, mas não me roubou o encantamento.
O mar ainda pulsa. Ainda resiste. Ainda nos dá uma chance.
E talvez seja essa a história mais importante que posso contar.
*Heloísa Schürmann é velejadora, escritora e educadora, uma das líderes do Instituto Voz dos Oceanos e integrante da Família Schurmann, primeira família brasileira a dar a volta ao mundo em um veleiro.
Este conteúdo integra o especial Economia do Plástico 2026 — Plástico, sociedade e natureza: uma relação que precisa ser reinventada, produzido pelo Neo Mondo para inaugurar a Coleção Neo Mondo, série bimestral dedicada aos grandes sistemas que definem o século.

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