Especial Plástico, Sociedade e Natureza 2026

especial

Plástico, sociedade e natureza 2026.

O plástico já está dentro de nós

Escrito por Neo Mondo | 14 de setembro de 2026

Compartilhe:

Plástico já foi encontrado no cérebro, no sangue, na placenta e nos pulmões, mas a ciência ainda investiga o que essa presença faz ao organismo - Imagem gerada por IA - Ilustrativa/Neo Mondo

POR - REDAÇÃO NEO MONDO

Partículas foram encontradas no cérebro, na placenta, no sangue e nos pulmões. A ciência já consegue mostrar a exposição, mas ainda disputa como medir a dose e o que ela faz ao organismo

Em setembro de 2024, pesquisadores da Universidade de São Paulo identificaram 16 partículas e fibras de polímeros sintéticos nos bulbos olfatórios de oito entre 15 pessoas submetidas a autópsia na capital paulista. O material não estava no intestino, onde poderia seguir até a eliminação. Estava numa estrutura cerebral situada logo acima do nariz. O polipropileno, usado em embalagens, tecidos e objetos de uso diário, respondeu por 43,8% dos fragmentos encontrados. O menor media 5,5 micrômetros.

O trabalho, publicado na JAMA Network Open, abriu uma passagem concreta entre a poluição urbana e a anatomia humana. Os autores usaram microscopia por infravermelho, controles de contaminação e análises no Laboratório Nacional de Luz Síncrotron. A hipótese é que partículas inaladas atravessem a região olfatória por conexões nervosas que ligam a cavidade nasal ao cérebro. O estudo não demonstrou que esse caminho ocorreu em cada pessoa. Também não relacionou os fragmentos a demência, perda cognitiva ou qualquer diagnóstico. Mostrou algo anterior: uma barreira considerada protetora não tornou o cérebro inacessível.

Microplásticos são geralmente descritos como partículas menores que cinco milímetros. Nanoplásticos ocupam a fração abaixo de um micrômetro em parte das classificações, embora ainda não exista uma fronteira adotada por todos os laboratórios. A diferença de escala muda a biologia e muda a medição. Fragmentos maiores tendem a ficar retidos nas vias respiratórias ou no trato digestivo. Os menores têm maior possibilidade de cruzar membranas, circular e alcançar tecidos. São também os mais difíceis de distinguir da matéria orgânica que compõe o próprio corpo.

A equipe da Faculdade de Medicina da USP já havia encontrado 33 partículas e quatro fibras em 13 de 20 amostras de pulmão obtidas em autópsias. O estudo, publicado em 2021 no Journal of Hazardous Materials, identificou sobretudo polietileno e polipropileno; todas as partículas mediam menos de 5,5 micrômetros. Os dois trabalhos brasileiros formam uma sequência. Primeiro, confirmaram que o ar carrega plástico até o pulmão. Depois, localizaram fragmentos no bulbo olfatório. A pesquisa saiu do ambiente e entrou no trajeto da respiração.

Essa rota recebe menos atenção pública que a comida. Dentro de casas, escritórios e veículos, tecidos sintéticos, carpetes, estofados, tintas, utensílios e poeira liberam fibras e fragmentos. A ventilação, a limpeza, o desgaste dos materiais e o tamanho das partículas alteram a dose respirada. Parte fica no muco e pode ser expelida ou engolida. Outra parte alcança regiões profundas do pulmão. Não há, porém, um contador clínico capaz de dizer quanto cada pessoa inalou, reteve ou eliminou durante a vida.

Pela alimentação, a entrada começa antes do prato. Plástico fragmentado circula na água, deposita-se no solo, chega a organismos aquáticos e também pode se desprender durante processamento, embalagem, armazenamento e preparo. Sal, leite, bebidas, pescados, mel e outros produtos já produziram resultados positivos em estudos. A comparação entre alimentos continua frágil porque os grupos usam filtros, faixas de tamanho e técnicas diferentes. Uma amostra com milhares de partículas muito pequenas não equivale necessariamente a outra que contou apenas fragmentos visíveis ao microscópio.

O salto técnico mais conhecido ocorreu em 2024. Naixin Qian e colegas aplicaram microscopia de espalhamento Raman estimulado a três marcas de água engarrafada vendidas nos Estados Unidos. Encontraram, em média, cerca de 240 mil partículas plásticas por litro; aproximadamente 90% estavam na escala nanométrica. O estudo, publicado na Proceedings of the National Academy of Sciences, ampliou a janela de detecção em relação a métodos anteriores. Não estabeleceu uma média para todas as marcas, países ou lotes. Mostrou que grande parte da exposição pode estar abaixo do limite que os levantamentos antigos conseguiam enxergar.

Ver mais partículas não significa ter uma medida pronta de risco. A dose depende de número, massa, tamanho, forma, polímero, substâncias adicionadas, envelhecimento e superfície. Uma fibra longa se comporta de maneira diferente de uma esfera. Um fragmento desgastado pode carregar compostos incorporados na fabricação ou adsorvidos no ambiente. Contar unidades sem caracterizá-las apaga essas diferenças. Medir apenas a massa pode esconder milhões de nanopartículas leves. A toxicologia ainda tenta construir uma unidade que conecte exposição, absorção e resposta biológica.

O sangue parece oferecer essa conexão. Em 2022, Heather Leslie e colegas relataram polímeros em amostras de 17 entre 22 doadores saudáveis, numa pesquisa da Vrije Universiteit Amsterdam publicada na Environment International. PET, polietileno e polímeros de estireno apareceram entre os materiais detectados. A pequena amostra não permitia calcular prevalência populacional. O método estimou massa de polímero após aquecimento e análise química; não fotografou cada fragmento circulante. Ainda assim, o achado sustentou a possibilidade de transporte interno e levou a pergunta para além da ingestão: quanto tempo as partículas permanecem no sangue e para onde seguem?

A placenta tornou a questão mais sensível. Em 2021, Antonio Ragusa e coautores encontraram 12 microfragmentos em quatro de seis placentas analisadas por microespectroscopia Raman. Três anos depois, Marcus Garcia e colegas relataram polímeros nas 62 placentas examinadas por pirólise associada a cromatografia gasosa e espectrometria de massas. As concentrações variaram de 6,5 a 790 microgramas por grama de tecido, com predominância do polietileno. A placenta existe por poucos meses e regula trocas entre a gestante e o feto. Detectar material nela não prova transferência para o bebê, alteração fetal ou doença materna. Também não permite tratar a gestação como experimento toxicológico. Indica que a exposição alcança um órgão temporário cuja função depende de trocas finamente controladas.

Em 2025, outro grupo levou a discussão ao cérebro em escala maior. Alexander Nihart, Matthew Campen e colaboradores compararam amostras de cérebro, fígado e rim de pessoas mortas em 2016 e 2024. Relataram maior concentração de polímeros no cérebro, predomínio de polietileno e valores mais altos nas amostras de 2024. Tecidos de pessoas com diagnóstico de demência apresentaram concentrações ainda maiores. O artigo da Nature Medicine não demonstrou que plástico provoca demência. A doença pode alterar barreiras, circulação ou eliminação e favorecer o acúmulo. A associação também pode refletir outros fatores não medidos.

Meses depois, químicos analíticos contestaram partes desse resultado. Fazel Monikh e colegas advertiram que a pirólise pode confundir produtos gerados por gorduras do tecido cerebral com sinais atribuídos ao polietileno. Questionaram ainda a digestão das amostras e os controles usados. Os autores do estudo responderam que combinaram três técnicas e reconheceram as incertezas da quantificação de nanoplásticos. A divergência não é periférica. Tecidos humanos são ricos em moléculas que podem interferir na leitura; hospitais, laboratórios, roupas e recipientes também contêm plástico. Quanto menor o alvo, maior a chance de contaminação ou identificação equivocada.

Uma avaliação publicada em 2026 por Taylor Lane e pesquisadores da Universidade de Wageningen aplicou critérios de garantia de qualidade a 133 conjuntos de dados de 101 estudos sobre órgãos, tecidos e fluidos humanos. Nenhum conjunto cumpriu todos os critérios considerados necessários pelos autores. Isso não apaga cada detecção. Revela que o campo avançou mais rápido que seus protocolos comuns. Resultados obtidos por espectroscopia, microscopia e pirólise não podem ser empilhados como se medissem o mesmo objeto da mesma maneira.

A distinção vale para os possíveis danos. Experimentos com células e animais descrevem inflamação, estresse oxidativo, alterações imunes e efeitos sobre tecidos após exposição a certas partículas. Muitas vezes, porém, usam esferas novas, polímeros únicos e doses superiores às conhecidas na vida cotidiana. O corpo humano encontra misturas envelhecidas, formas irregulares e exposições repetidas. Traduzir um efeito observado numa placa de laboratório para o risco de uma população exige conhecer a dose real, a absorção, a permanência e as diferenças entre indivíduos.

O estudo clínico mais forte até agora não encerra essa lacuna. Em 2024, Raffaele Marfella e colaboradores analisaram placas retiradas das carótidas de 257 pacientes. Encontraram polietileno em 58,4% e PVC em 12,1%. Durante acompanhamento médio de 33,7 meses, o grupo com polímeros detectados apresentou maior ocorrência combinada de infarto, acidente vascular cerebral ou morte por qualquer causa. Publicada no New England Journal of Medicine, a pesquisa observou uma associação. Não distribuiu exposição de forma aleatória, não excluiu toda interferência e não provou causalidade. Seu peso está em conectar uma medida em tecido humano a um desfecho clínico, ainda que a direção da relação permaneça aberta.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) revisou, em 2022, a exposição por alimentos, água e ar e concluiu que os dados disponíveis ainda não permitiam uma avaliação robusta do risco humano. A agência pediu métodos padronizados, estudos com partículas representativas e informações sobre absorção e eliminação. A autoridade sanitária norte-americana mantém posição semelhante para alimentos: a presença detectada, por si só, não demonstra que os níveis encontrados causem dano. Essas formulações não equivalem a uma declaração de segurança. Registram que a ciência ainda não definiu uma dose tolerável nem uma relação causal aplicável à população.

Também não existe exame médico validado para medir a “carga de microplástico” de uma pessoa, tratamento aprovado para removê-la ou base clínica para produtos vendidos como desintoxicantes. A prevenção razoável evita promessas absolutas: não aquecer comida em recipientes plásticos desgastados, reduzir água engarrafada quando a água da rede for segura, preferir recipientes duráveis e ventilar ambientes podem diminuir algumas fontes. Nenhuma dessas escolhas elimina uma exposição que nasce também de pneus, fibras têxteis, tintas, poeira urbana, cadeias alimentares e resíduos fragmentados.

O conhecimento disponível sustenta duas frases ao mesmo tempo. Partículas plásticas chegam ao corpo humano. A dimensão dessa presença e suas consequências ainda não estão estabelecidas com a precisão exigida pela medicina. A contribuição brasileira ajuda a marcar essa fronteira: no estudo do bulbo olfatório, a equipe encontrou 16 partículas em oito pessoas, identificou cada polímero por espectroscopia e não detectou material sintético nos filtros de controle. É um resultado pequeno em número e grande em localização. Não diagnostica uma doença. Define onde a próxima investigação precisa começar.

Este conteúdo integra o especial Economia do Plástico 2026 — Plástico, sociedade e natureza: uma relação que precisa ser reinventada, produzido pelo Neo Mondo para inaugurar a Coleção Neo Mondo, série bimestral dedicada aos grandes sistemas que definem o século.

régua de patrocínio, remete a matéria O plástico já está dentro de nós

Compartilhe:


Artigos anteriores:

A cadeia que ninguém quis fechar

Rumo à nova economia do plástico e a um ambiente e uma sociedade saudáveis

Índice + A cadeia que moldou o mundo + Vozes deste Especial


Artigos relacionados