Especial Plástico, Sociedade e Natureza 2026
Escrito por Neo Mondo | 14 de setembro de 2026
Plástico encontra nas mãos dos catadores a rota de retorno que o sistema brasileiro ainda não consegue garantir - Imagem gerada por IA - Ilustrativa/Neo Mondo
POR - REDAÇÃO NEO MONDO
Da produção ao pós-consumo, o percurso de consumo, logística, coleta, reciclagem e destinação que decide o destino final do material
Uma embalagem de plástico nasce numa planta de polimerização e pode morrer de quatro formas diferentes. Pode virar aterro sanitário, com impermeabilização de base e sistema de drenagem de lixiviado. Pode virar lixão a céu aberto, sem nenhuma dessas proteções. Pode ser recolhida por um catador autônomo e reentrar na cadeia produtiva como matéria-prima. Ou pode simplesmente não ser coletada, ficando pelo caminho entre o consumo e qualquer destino. No Brasil, em 2024, essas quatro mortes se distribuíram de um jeito que revela mais sobre o país do que qualquer discurso sobre sustentabilidade.
O Brasil gerou 81,6 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos naquele ano, o equivalente a 384 quilos por habitante, segundo o Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2025, publicado pela ABREMA em dezembro. Desse total, 93,7% foi coletado, uma fatia que sobe para 98,9% no Sudeste e cai para 83,7% no Norte. A diferença entre as duas taxas equivale a milhões de toneladas de resíduo que, na região amazônica, jamais chegam a um caminhão de coleta, seja porque a rota não existe, seja porque a casa fica longe demais de qualquer rota.
Do material coletado, uma fração pequena segue para reciclagem mecânica: 7,1 milhões de toneladas, ou 8,7% de tudo que o país gerou. Essa fatia se divide em duas origens que o Panorama trata separadamente, e a proporção entre elas é o dado mais revelador do capítulo. A coleta via serviços públicos, feita por centrais de triagem municipais, respondeu por 4,8 milhões de toneladas enviadas à triagem, das quais pouco mais da metade, 52%, foi de fato recuperada. O restante virou rejeito. Já a coleta informal, feita por mais de 700 mil catadores autônomos sem vínculo com cooperativa ou associação, recolheu 4,6 milhões de toneladas, e o Panorama assume que essencialmente 100% desse volume foi aproveitado, porque catador não carrega para casa material sem valor de revenda. Resultado: quase dois terços de todo o plástico e demais recicláveis secos que chegam à indústria de reciclagem no Brasil passaram primeiro pela mão de um catador autônomo, trabalhando sem carteira assinada, sem estatística oficial de renda e, até poucos anos atrás, sem sequer entrar na conta nacional de reciclagem.
O outro lado do ciclo é mais duro. Do total gerado, 85,5% foi enviado para algum tipo de disposição final, e menos de 60% desse volume foi parar em aterro sanitário de verdade, com engenharia. O restante, mais de 28 milhões de toneladas por ano, foi para lixão, aterro controlado ou vala, sem nenhuma das proteções que evitam a contaminação de solo e lençol freático. No Norte do país, apenas 39% dos resíduos enviados à disposição final tiveram destino ambientalmente adequado. Uma revisão científica publicada em 2026 na periódico especializado em modelagem de saúde ambiental, com dados globais de 2016 a 2040, calculou que o conjunto de emissões associadas ao ciclo de vida do plástico, da extração de petróleo à queima a céu aberto, já soma 83 milhões de anos de vida perdidos ajustados por incapacidade em todo o planeta. O estudo aponta que reduzir a produção primária de plástico, combinada com melhoria na coleta e no descarte, aumento de reciclagem e substituição por materiais alternativos, cortaria essa carga de saúde em 43% até 2040. Mesmo assim, os pesquisadores projetam que o total de danos à saúde continuará crescendo ano após ano, porque a base de produção já é alta demais para qualquer correção pontual reverter a tendência.
O plástico também atravessa fronteiras depois de descartado, e nem sempre para o destino que promete. Um estudo publicado em 2024 na Nature Communications, analisando o comércio internacional de resíduos plásticos entre 2013 e 2022, constatou que pelo menos 63% do resíduo importado pelos vinte e dois maiores países importadores precisaria ser efetivamente reciclado para que a operação fosse economicamente viável. A taxa média real de reciclagem doméstica desses países, porém, ficou em 23%. A conclusão dos autores é desconfortável: o volume de plástico reciclado que resulta do comércio internacional de resíduos entre países ricos e países pobres provavelmente foi subestimado, o que sugere que uma fração relevante desse material nunca chega a virar matéria-prima nova, mesmo depois de cruzar oceanos rotulado como reciclável.
O Brasil ganhou, em outubro de 2025, um instrumento que tenta atacar exatamente essa fase intermediária do ciclo, entre o consumo e a reciclagem. O Decreto 12.688, chamado informalmente de Decreto do Plástico, instituiu o décimo quarto sistema de logística reversa em operação no país, dedicado especificamente a embalagens plásticas. Até então, o Brasil já operava treze sistemas desse tipo, cobrindo desde agrotóxicos até pneus e lâmpadas fluorescentes, cada um com entidade gestora, meta anual e histórico próprio de desempenho. O sistema de embalagens de vidro, por exemplo, recuperou 597 mil toneladas em 2024 e superou com folga a meta federal de conteúdo reciclado. O de latas de alumínio mantém taxa de reciclagem acima de 97% há anos, com ciclo completo de aproximadamente sessenta dias entre a venda e o retorno ao consumo. O sistema de embalagens em geral, que inclui plástico misturado a papel, vidro e metal, recuperou pouco mais de um milhão de toneladas em 2024, das quais 20% eram plásticas, um volume que representa menos de 1% de todo o plástico presente nos resíduos urbanos do país.
Diante desse pano de fundo, medir o real aproveitamento do resíduo brasileiro exige olhar além da reciclagem mecânica tradicional. O Panorama 2025 passou a contabilizar, pela primeira vez de forma sistemática, o que chama de reciclagem bio-energética: compostagem, biogás capturado em aterro, combustível derivado de resíduos usado como substituto de carvão em fornos de cimenteira. Somando essas rotas à reciclagem mecânica de secos, o índice nacional de aproveitamento de resíduos sobe de 8,7% para 20,4% do total gerado. É uma métrica mais generosa, e tecnicamente correta segundo a Política Nacional de Resíduos Sólidos, mas ela não resolve o problema específico do plástico: a fração seca que vai para coprocessamento em forno de cimenteira sai do ciclo de materiais de forma definitiva, virando energia térmica em vez de nova resina. O material queima uma vez e desaparece, o que é preferível ao lixão, mas não é economia circular no sentido em que a indústria petroquímica usa o termo.
Este conteúdo integra o especial Economia do Plástico 2026 — Plástico, sociedade e natureza: uma relação que precisa ser reinventada, produzido pelo Neo Mondo para inaugurar a Coleção Neo Mondo, série bimestral dedicada aos grandes sistemas que definem o século.

A cadeia que ninguém quis fechar
Rumo à nova economia do plástico e a um ambiente e uma sociedade saudáveis
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