Especial Plástico, Sociedade e Natureza 2026

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Plástico, sociedade e natureza 2026.

O plástico que não chegou ao oceano ficou no solo

Escrito por Neo Mondo | 14 de setembro de 2026

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Plástico amplia a produtividade no campo, mas sua baixa coleta transfere ao solo, à biodiversidade e à saúde o custo do descarte - Foto: © FAO/Cristina Aldehuel

POR - REDAÇÃO NEO MONDO

Filmes agrícolas, tubos de irrigação, estufas, fertilizantes revestidos, lodo de esgoto e água contaminada transformam a terra em um reservatório de fragmentos que quase nenhum sistema de produção mede

No fim de uma safra, o filme negro estendido sobre o canteiro precisa ser retirado. Ele conservou umidade, conteve plantas invasoras, protegeu o cultivo e ajudou a regular a temperatura da terra. Depois de meses de sol, chuva, máquinas e pisoteio, já não sai inteiro. Rasga nas bordas, prende-se aos torrões e deixa pequenas lâminas entre as raízes. O agricultor recolhe o que consegue ver. O restante começa outra vida no solo.

A imagem corrige um vício do debate público. A poluição plástica costuma ser narrada como uma viagem até o mar. O resíduo escapa das cidades, atravessa rios, alcança praias e se fragmenta no oceano. Essa rota existe e tornou visível uma crise planetária. Mas nem todo plástico se move. Uma parte permanece onde foi aplicada, depositada ou incorporada. Em áreas agrícolas, a terra pode ser destino, meio de transporte e fonte de uma contaminação que acompanha safras sucessivas.

Em 2019, as cadeias agropecuárias usaram 12,5 milhões de toneladas de produtos plásticos na produção vegetal e animal. Outras 37,3 milhões de toneladas foram empregadas em embalagens de alimentos. A estimativa da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, a FAO, inclui bandejas de mudas, tubos de irrigação, filmes para estufas e cobertura do solo, redes, sacos de ração e estruturas usadas na pesca e na aquicultura. A agência calcula que lavouras e criação responderam por cerca de 10 milhões de toneladas daquele primeiro grupo; pesca e aquicultura, por 2,1 milhões; silvicultura, por 200 mil. Os dados estão reunidos no panorama da (FAO sobre plásticos na agricultura).

Esse volume não nasceu de um capricho. O plástico alterou a produção de alimentos. Filmes de cobertura reduzem evaporação e competição com ervas espontâneas. Tubos levam água com precisão. Estufas prolongam estações de cultivo e protegem plantas. Silos-bolsa e embalagens diminuem perdas. Redes controlam pragas. Revestimentos podem modular a liberação de sementes, fertilizantes e defensivos. Em regiões secas ou frias, retirar esses recursos sem substitutos poderia elevar o consumo de água, aumentar o uso de insumos e reduzir a produtividade.

A mesma eficiência cria uma dependência material. A FAO projeta que a procura por filmes para estufas, cobertura do solo e silagem cresça 50% entre 2018 e 2030, de 6,1 milhões para 9,5 milhões de toneladas. Filmes agrícolas representam perto da metade, em massa, dos plásticos usados diretamente na produção. Quanto mais finos, baratos e expostos, mais difícil se torna removê-los por completo. Terra, umidade e restos vegetais aderem ao material, aumentam o custo do transporte e reduzem o interesse da reciclagem. Parte é enterrada, levada a aterros ou queimada no próprio campo, conforme descreve a (FAO ao analisar o ciclo do plástico agrícola).

O filme visível é apenas uma das entradas. Fragmentos chegam ao solo por lodo de esgoto usado como condicionador, composto orgânico contaminado, água de irrigação, esterco, deposição atmosférica e desgaste de pneus. Cordas, telas, embalagens, tubulações e equipamentos se deterioram durante o uso. Certos produtos agrícolas contêm polímeros em revestimentos ou formulações líquidas e são concebidos para se dispersar. A revisão publicada na *Nature Sustainability* sobre o uso mais sustentável de plásticos na agricultura distingue, assim, materiais estruturais potencialmente recolhíveis de aplicações que se espalham no ambiente e já não podem ser recuperadas da mesma forma. O artigo está disponível na (Nature).

Ao se fragmentarem, esses materiais formam microplásticos, partículas menores que cinco milímetros, e podem continuar até a escala nanométrica. O solo não é um recipiente inerte. É uma arquitetura de minerais, matéria orgânica, água, ar, raízes, fungos, bactérias e pequenos animais. Alterar sua porosidade, sua agregação ou a circulação de água pode interferir em processos que sustentam a fertilidade. Mas os resultados não são uniformes. Tipo de polímero, forma da partícula, concentração, idade, clima e composição da terra mudam a resposta. Uma fibra não se comporta como uma esfera; um fragmento recém-produzido não equivale a outro envelhecido por anos no campo.

Essa variação exige cautela. Experimentos registram mudanças na retenção de água, na atividade microbiana, no crescimento de plantas e na dinâmica de nutrientes. Nem todo ensaio reproduz concentrações observadas fora do laboratório, e nem toda alteração medida se converte em perda agrícola. Até a hipótese de que microplásticos transportem outros contaminantes depende das condições. Um estudo em solos agrícolas concluiu que micro e nanoplásticos pouco ampliaram a mobilidade dos compostos avaliados naquele experimento, contrapondo-se à ideia de que as partículas funcionariam sempre como veículos eficientes. O trabalho foi publicado na (Communications Earth & Environment).

O que já se pode afirmar é que a exposição tem múltiplas rotas. Uma análise de 2024 reuniu registros de solos agrícolas com concentrações que chegaram a aproximadamente duas mil partículas por quilo em alguns locais e examinou como resíduos plásticos podem alcançar polinizadores e organismos de controle biológico. Abelhas entram em contato com partículas no ar, na água, nas flores e em materiais usados nas colmeias. Predadores e parasitoides podem ingeri-las diretamente ou por meio das presas. A literatura ainda é recente, mas amplia a pergunta: a poluição do solo não afeta somente a planta cultivada; ela encontra as relações ecológicas das quais a lavoura depende. A síntese foi publicada na (Nature Communications).

A possibilidade de partículas entrarem nas plantas recebeu uma peça nova em 2026. Pesquisadores trabalharam com taro e milho para observar se ferimentos nas raízes abririam uma passagem. Raízes intactas e ferimentos superficiais resistiram à penetração. Quando o corte alcançou tecidos mais internos, partículas de poliestireno de um e cinco micrômetros conseguiram entrar e foram detectadas em partes das plantas sob as condições do ensaio. O estudo, publicado na [*Nature Communications*](https://www.nature.com/articles/s41467-026-70273-x), não demonstra que alimentos comuns estejam carregando a mesma quantidade de partículas. A concentração aplicada, o tipo de plástico e o ferimento controlado precisam ser considerados. Ele mostra um mecanismo plausível: a barreira da raiz pode falhar quando danos profundos abrem acesso ao sistema vascular.

Ferimentos não são estranhos à agricultura. Transplante, ataque de insetos, nematoides, atrito com partículas de solo e manejo mecânico podem lesar raízes. Ainda assim, converter uma observação experimental em estimativa de exposição alimentar requer estudos de campo, métodos comparáveis e medições em diferentes culturas. A ciência precisa separar quatro perguntas: quanto plástico existe no solo, quanto permanece disponível, quanto entra nos organismos e quanto produz efeito biológico. Misturá-las gera alarme sem resposta. Ignorá-las prolonga uma lacuna de informação.

No Brasil, essa agenda toca uma contradição produtiva. O país domina agricultura tropical, plantio direto, irrigação, genética, controle biológico e monitoramento por satélite. A mesma sofisticação ainda precisa alcançar a contabilidade dos materiais usados dentro da porteira. Quantos filmes são colocados a cada safra? Quanto é retirado? Qual parcela encontra coleta e reciclagem? Quanto se rompe e permanece no campo? Sem respostas padronizadas, eficiência agronômica e custo imediato ocupam a planilha, enquanto a herança material fica fora dela.

O primeiro movimento é medir. Métodos de coleta, preparação e identificação ainda variam, o que dificulta comparar propriedades e regiões. Um inventário útil precisa distinguir partículas provenientes do uso agrícola daquelas trazidas pelo ar, pela água, pelo composto ou pelo lodo. Também precisa acompanhar o material antes de sua fragmentação. Registrar a entrada e a saída de filmes, tubos, telas e embalagens pode produzir informação mais rápida para a gestão do que esperar que tudo se converta em partículas microscópicas.

O segundo movimento começa no desenho. Filmes mais resistentes e recuperáveis podem custar mais na compra, mas reduzir perdas durante a retirada. Sistemas de depósito, compra garantida e responsabilidade pós-consumo podem dar valor ao resíduo sujo e disperso. Rotas regionais de coleta encurtam distâncias entre propriedades e recicladores. Alternativas sem plástico fazem sentido quando entregam a função agronômica e não transferem danos para outra etapa. Em aplicações nas quais a remoção é inviável, materiais biodegradáveis precisam provar degradação completa nas condições reais do solo, não apenas em instalações industriais controladas.

“Biodegradável” tampouco deve funcionar como salvo-conduto. Temperatura, umidade, oxigênio e atividade microbiana governam a decomposição. Um produto pode cumprir um padrão em compostagem e persistir no campo. Pode fragmentar antes de mineralizar. Pode carregar aditivos cuja trajetória precisa ser examinada separadamente. Substituir um polímero sem estudar o sistema agrícola inteiro apenas troca o nome inscrito no resíduo.

O terceiro movimento é impedir novas entradas evitáveis. Critérios para lodo, composto e água de reúso precisam incorporar partículas plásticas à medida que métodos confiáveis se consolidem. Embalagens e equipamentos devem ser recolhidos por cadeias capazes de operar longe dos centros urbanos. Produtores necessitam de orientação técnica, pontos de entrega e incentivos econômicos. A responsabilidade não pode terminar na venda do rolo nem recair apenas sobre quem tenta retirar do chão um material concebido para ser barato e descartável.

O solo trabalha em outra escala de tempo. Uma safra termina em meses; a formação de poucos centímetros de terra fértil pode atravessar gerações. Partículas pequenas demais para uma coleta mecânica podem permanecer, deslocar-se com a erosão, alcançar águas subterrâneas ou ser transportadas para rios. O fato de o resíduo não aparecer numa praia não significa que deixou de existir. Significa que entrou num sistema menos visível e mais difícil de reparar.

O plástico agrícola ajudou a produzir mais com menos água, menos espaço e maior controle. Reconhecer essa contribuição não obriga a aceitar sua dispersão como custo inevitável. Ao contrário: quanto mais valiosa é uma tecnologia para a segurança alimentar, maior deve ser a capacidade de acompanhar seu ciclo completo.

O oceano ensinou o mundo a enxergar o plástico depois que ele escapou. A próxima fronteira é aprender a vê-lo antes, ainda inteiro sobre o canteiro, e depois, quando seus fragmentos se confundem com a terra. A economia do plástico também começa e termina no campo. A diferença é que, ali, o que não foi recolhido permanece junto das raízes da próxima colheita.

Este conteúdo integra o especial Economia do Plástico 2026 — Plástico, sociedade e natureza: uma relação que precisa ser reinventada, produzido pelo Neo Mondo para inaugurar a Coleção Neo Mondo, série bimestral dedicada aos grandes sistemas que definem o século.

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