Especial Plástico, Sociedade e Natureza 2026

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Plástico, sociedade e natureza 2026.

O valor do Azul

Escrito por Neo Mondo | 14 de setembro de 2026

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Valor começa no oceano vivo, infraestrutura natural que regula o clima, protege a costa e sustenta a economia azul - Foto: Ilustrativa/Freepik

Por - Luiz Antônio Pazos Moraes* e Nabil Moura Kadri

O oceano parece infinito. Não é. Sua dimensão alimentou, durante muito tempo, a percepção de que sua capacidade de fornecer recursos, absorver impactos e sustentar atividades humanas também seria ilimitada. Hoje, mudanças climáticas, perda de biodiversidade, sobre-exploração de recursos e diferentes formas de poluição pressionam um sistema natural essencial à vida e à economia.

Por isso, é importante compreender o oceano também como infraestrutura biofísica: um conjunto de ecossistemas, processos e funções naturais que sustenta a vida e oferece serviços essenciais à sociedade e à economia, como regulação do clima, proteção costeira, produção de alimentos, armazenamento de carbono, biodiversidade, lazer e turismo.

O ODS 14, a Década da Ciência Oceânica e as Conferências das Nações Unidas sobre o Oceano expressam o reconhecimento da interdependência entre clima, biodiversidade, poluição e desenvolvimento.

Essa visão também orienta uma atuação crescente do BNDES. O Banco possui longa história de apoio a atividades relacionadas ao mar, à infraestrutura e à conservação ambiental. Mais recentemente, o BNDES Azul passou a conferir maior intencionalidade e integração a essa agenda, reunindo conservação e recuperação de ecossistemas, conhecimento e planejamento do espaço oceânico e desenvolvimento de atividades econômicas sustentáveis.

Luiz Antônio Pazos Moraes - Foto: Divulgação

A iniciativa já mobilizou mais de R$ 300 milhões em recursos não reembolsáveis, sendo R$ 190,2 milhões do BNDES e R$ 110 milhões de parceiros. Soma-se a isso a vertente economia azul no BNDES Garagem e outras possibilidades de financiamento para resiliência e adaptação de cidades e apoio a micro e pequenos empreendedores com recursos do Fundo do Clima.

Um exemplo de ação da iniciativa BNDES Azul  é o Planejamento Espacial Marinho (PEM). Conhecer o espaço marinho, seus usos, usuários, conflitos, potencialidades e atributos ambientais qualifica decisões públicas e privadas. O BNDES destinou R$ 32,2 milhões aos planejamentos das regiões Norte, Sul e Sudeste.

A mesma lógica orienta o apoio aos manguezais e recifes de coral. O Banco destinou R$ 24 milhões, de um total de R$ 47,8 milhões, a oito projetos de conservação e recuperação de manguezais, e R$ 88 milhões, de um total de R$ 176 milhões, a 12 projetos relacionados aos ambientes coralíneos brasileiros. Manguezais armazenam carbono, são berçários de espécies e protegem a costa; recifes sustentam biodiversidade, pesca, turismo e proteção costeira. Conservá-los significa preservar infraestrutura biofísica da qual dependem comunidades e atividades econômicas.

A iniciativa BNDES Biodiversidade: Ilhas do Futuro, Ninhos Protegidos amplia essa perspectiva. Com investimento total de R$ 92 milhões, sendo R$ 46 milhões do BNDES, apoia a recuperação ambiental de cinco complexos insulares e a proteção de aves marinhas ameaçadas, endêmicas e migratórias, além de buscar compreender e quantificar sua contribuição para os serviços ecossistêmicos.

É nesse encontro entre ecossistemas, biodiversidade e serviços ecossistêmicos que o plástico passa a ser também uma questão para a economia azul. A poluição plástica adiciona pressão a manguezais, recifes e ilhas e interage diretamente com a fauna. Aves marinhas podem ingerir fragmentos, sofrer emalhamento ou incorporar plástico aos ninhos, com impactos sobre alimentação, saúde e sobrevivência.

Proteger esses ecossistemas e espécies enquanto resíduos continuam chegando ao oceano seria enfrentar apenas parte do problema. O mar começa na cidade.

Resíduos descartados inadequadamente percorrem drenagens, córregos e rios até alcançar estuários, manguezais, praias e o oceano. Enfrentar a poluição marinha exige olhar para antes da linha da costa: educação, saneamento e sistemas eficientes de gestão de resíduos sólidos, coleta, destinação, logística reversa e circularidade.

Financiamento e políticas públicas precisam caminhar juntos. Não basta disponibilizar crédito para reciclagem se os sinais econômicos tornam o material reciclado menos competitivo que a matéria-prima virgem. Instrumentos tributários, regulatórios e financeiros devem contribuir para reconhecer benefícios ambientais e evitar que externalidades negativas sejam transferidas à sociedade e aos ecossistemas.

Para um banco de desenvolvimento, portanto, cabe uma pergunta: como direcionar capital para evitar que o plástico chegue ao oceano?

Crédito é parte da resposta. Recursos não reembolsáveis, garantias, compartilhamento de riscos, inovação, estruturação de projetos e articulação entre recursos públicos e privados também podem contribuir. A escolha depende do problema, do impacto pretendido e das políticas públicas que orientam a atuação.

Nabil Moura Kadri - Foto: Divulgação

O enfrentamento da poluição plástica exige conhecimento e construção coletiva, em diálogo com universidades, poder público, empresas e sociedade, para identificar como o BNDES pode contribuir com instrumentos e capacidade de mobilização.

Não existe economia azul sem um ecossistema azul saudável. Financiar o azul significa direcionar capital também para aquilo que, mesmo começando em terra, reduz as pressões sobre o oceano.

*Luiz Antônio Pazos Moraes - Doutorando em Estudos Marítimos na Escola de Guerra Naval, mestre em Administração Pública, empregado do BNDES desde 2003 e atualmente lotado na Área de Meio Ambiente.

*Nabil Moura Kadri - Mestre em Administração Pública pela FGV, empregado do BNDES desde 2008 e atualmente ocupa a Superintendência da Área de Meio Ambiente do BNDES. Com mais de 18 anos de experiência em desenho e implementação de políticas públicas e finanças sustentáveis é atualmente Superintendente da Área de Meio Ambiente do BNDES, responsável pelo Fundo Amazônia, Fundo Clima, agenda de Biodiversidade, Florestas Nativas e Oceanos.

Este conteúdo integra o especial Economia do Plástico 2026 — Plástico, sociedade e natureza: uma relação que precisa ser reinventada, produzido pelo Neo Mondo para inaugurar a Coleção Neo Mondo, série bimestral dedicada aos grandes sistemas que definem o século.

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