Especial Plástico, Sociedade e Natureza 2026

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Plástico, sociedade e natureza 2026.

“Sempre subestimamos”, diz a cientista que mede microplástico há mais de vinte anos

Escrito por Neo Mondo | 14 de setembro de 2026

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Subestimamos os danos porque grande parte deles ocorre fora do tempo, do espaço e do alcance de cada pesquisa, afirma Mônica Ferreira da Costa - Foto: Divulgação

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

Professora da UFPE defende que toda pesquisa sobre poluição marinha tende a subestimar o dano, porque o que fica fora do recorte do estudo simplesmente permanece invisível, e recusa proteger a limitação da produção de plástico de qualquer troca política

Fernando de Noronha fica a mais de 500 quilômetros da costa brasileira. Não há indústria plástica na ilha, não há bacia hidrográfica despejando resíduo urbano, não há aterro. Há microplástico na areia. Pesquisadores documentaram as partículas nas praias do arquipélago e descobriram algo ainda mais incômodo: a quantidade varia de forma acentuada em prazos curtos, às vezes entre uma maré e outra. Uma coleta feita numa terça-feira pode contar uma história diferente da coleta feita no sábado, no mesmo trecho de praia.

Esse detalhe metodológico carrega uma consequência grande. Boa parte do que se publica sobre microplástico no mundo se apoia em amostragens pontuais, feitas com protocolos que variam de laboratório para laboratório. Em janeiro de 2026, a Nature publicou que os níveis ambientais de microplásticos podem ter sido superestimados justamente por essa falta de padronização. Mônica Ferreira da Costa diz o contrário, e com argumento: os estudos tendem a subestimar, porque a escala do problema é grande demais e o tempo de pesquisa, sempre curto demais. As duas afirmações podem coexistir. É o que acontece quando a ciência tenta medir algo que se fragmenta, viaja e desaparece da vista antes de parar de existir.

Enquanto a discussão metodológica avança devagar, o mapa do problema se expande rápido. Em julho de 2026, pesquisadores coreanos encontraram microplásticos em caramujos e mexilhões que vivem em fontes hidrotermais a mais de dois mil metros de profundidade, no Pacífico sudoeste e no Índico. Sedimentos do Pacífico a até sete mil metros mostram contaminação em todos os pontos amostrados, com 94,8% das partículas na forma de fibras, principalmente poliéster e raiom. Fibras têxteis, não embalagens. O Brasil, que acaba de regular conteúdo reciclado em embalagens plásticas, tem no estuário de Santos um trecho de rio apontado por pesquisadores do Ipen como possivelmente o mais poluído por microplástico já medido no mundo.

Mônica Ferreira da Costa é professora do Departamento de Oceanografia da UFPE e acumula uma das trajetórias mais longas do país no tema, de Noronha ao estuário do Goiana, de zoantídeos a peixes, da caracterização das partículas à discussão internacional sobre como padronizar a coleta. Integra a rede do INPO e assinou, com colegas, o trabalho que faz a pergunta que a área ainda não respondeu: como definir procedimentos padrão para amostrar micro e nanoplásticos nos diferentes compartimentos ambientais. Nas respostas a seguir, ela examina o que se sabe, o que se mede mal e o que a política pública brasileira está deixando de fora.

Não existe consenso científico sobre o que é um microplástico. As definições variam em tamanho, em método de contagem, em critério de identificação do polímero. A senhora trabalha nesse território há décadas. Que consequências práticas essa indefinição produz, na comparação entre estudos e na formulação de norma? E por que uma comunidade científica madura convive tanto tempo com uma definição frouxa?

Creio que a principal consequência do atraso em se ter uma definição sobre o intervalo de tamanho mínimo e máximo de um microplástico pode ser no campo legal: a dificuldade de enquadramento de um dano detectado e comprovado, e a subsequente punição do poluidor e exigência de compensação.

A comunidade tem trabalhado para uma definição que tenha sentido ao mesmo tempo legal e técnico. Pode não haver consenso absoluto sobre o intervalo de tamanho dos microplásticos, mas sempre existe a possibilidade de se emitir pareceres convergentes a respeito das consequências, dos danos, para a conservação da biodiversidade e dos ecossistemas.

A cautela pode ter a ver com a necessidade de fechar um intervalo de tamanho de consenso que, se por um lado resolve a definição, por outro não engessa as possibilidades legais de enquadramento. Ainda, parte do problema está no fato de estarmos trabalhando com uma questão que se desenvolve contínua e rapidamente. A cada dia novas informações chegam ao cenário dos microplásticos no oceano, e seria interessante que o maior número possível delas fosse considerado, já que, depois de uma política pública ser oficialmente emitida, ela levará tempo para poder ser revista. Enquanto isso, mais danos ocorrem.

A definição de poluição marinha que orienta esse debate legal vem da Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar: introdução, pelo homem, direta ou indiretamente, de substâncias ou energia no ambiente marinho, incluindo estuários, que resulte ou possa resultar em efeitos deletérios como dano a recursos vivos e à vida marinha, riscos à saúde humana, obstáculo às atividades marinhas, incluindo pesca e outros usos legítimos do mar, e prejuízo à qualidade de uso da água do mar.

Em janeiro de 2026, a Nature publicou que os níveis ambientais de microplásticos podem ter sido superestimados por falta de padronização metodológica. A senhora sustenta o oposto: que os estudos subestimam, porque a escala é grande e o tempo de pesquisa é curto. Quem está medindo errado, e em que direção? A senhora assinou um trabalho que pergunta como definir procedimentos padrão de amostragem. Onde está o obstáculo real, na técnica ou no financiamento de longo prazo?

De uma forma geral, acho que todo trabalho sobre poluição marinha tem a tendência de subestimar os danos, pois muitos deles ficam sem investigação. Quando realizamos pesquisa científica, a questão é delineada de forma muito objetiva para que possa ser testada. Assim, danos que incidem fora da escala de tempo, espaço, nível trófico ou contexto social da proposta inicial da pesquisa permanecem desconhecidos e, apesar de poderem ser objeto de pesquisa subsequente, até que isso aconteça permanecem no plano da discussão como possibilidades.

As praias de Fernando de Noronha têm microplástico no sedimento, e a variabilidade espaço-temporal de curto prazo é acentuada. Uma ilha a mais de 500 quilômetros da costa, sem indústria e sem aterro, acumula partículas que vieram de outro lugar. O que a senhora consegue reconstruir sobre origem e rota a partir dessas amostras? E o que essa variabilidade de curto prazo significa para os programas de monitoramento que coletam uma vez por trimestre?

Suspeitamos que os microplásticos na areia das praias em Fernando de Noronha possam ter origens diversas, e não sabemos as proporções entre essas fontes locais e marinhas. Não são apenas as fontes que variam amplamente, mas também as condições de deposição, pois as praias da ilha têm características geomorfológicas bem diversas, como sedimento, inclinação e grau de exposição a ondas e correntes.

Eu encaro o monitoramento de prazo mais curto como sendo os tijolos que vão construir os cenários, no plural, pois eles podem e devem mudar, de médio e longo prazos. Esses monitoramentos são necessários, desde que consistentes, tanto na estratégia amostral quanto na execução. Sem eles, nunca saberemos se existe um padrão ou se a ocorrência de microplásticos nessas praias é aleatória.

Sedimentos do Pacífico profundo mostram 94,8% das partículas na forma de fibras, sobretudo poliéster e raiom. Em julho de 2026, pesquisadores encontraram microplástico em fauna de fontes hidrotermais a mais de dois mil metros. O ambiente diz têxtil. A regulação brasileira, com o Decreto 12.688, diz embalagem. Existe um desencontro entre o que a política pública mira e o que a ciência encontra? E o Brasil tem dado próprio de fibras têxteis na sua costa, ou está importando essa leitura de estudos de fora?

Não creio que exista divergência. Penso que existe um quebra-cabeça com muitas peças ainda faltando serem encaixadas. Por isso não vemos direito a cena que está em desenvolvimento para esses ambientes.

O Brasil tem alguns dados sobre todos os tipos de microplásticos, e eles são muito bons. Não são exaustivos, nem precisam ser, pois os padrões de comportamento observados para esse poluente são transferíveis de um lugar para o outro, sobretudo quando consideramos observações realizadas em locais onde esses microplásticos já sofreram transporte de longa distância e foram selecionados por processos de escala oceanográfica de bacia.

Pesquisadores apontaram que o saneamento precário na Amazônia funciona como porta de entrada de plástico e microplástico no maior sistema fluvial do planeta. No estuário de Santos, o rio dos Bugres pode registrar a maior concentração já medida no mundo. O país discute limpeza de praia e coleta seletiva enquanto o esgoto transporta o material direto para o mar. Se a senhora pudesse redirecionar o investimento público brasileiro contra a poluição plástica marinha, para onde ele iria?

Iria para pesquisa, desenvolvimento e aplicação efetiva de tecnologias e políticas públicas que fomentassem a redução drástica da produção e do consumo, em todas as escalas, do indivíduo ao grande poluidor, incluindo o poder público, de polímeros sintéticos. Mas isso é porque sou uma romântica incurável.

No mundo real em que vivemos, precisamos atacar diversas frentes de poluição marinha ao mesmo tempo. O esgoto doméstico e o aporte urbano não tratados são duas fontes importantes e complexas em sua composição. Infelizmente, nem a lembrança de que esses efluentes não trazem só microplásticos, mas toda uma suíte de outros poluentes químicos e microbiológicos, foi suficiente para causar a comoção social e política que os fizesse prioridade máxima no combate à poluição marinha.

A coleta e o tratamento de esgoto doméstico e de aporte urbano e rural não é uma novidade técnica. Já sabemos como fazer isso, mas continuamos adiando essa decisão.

Um fragmento plástico não para de existir quando some da nossa capacidade de detecção. Ele continua se fragmentando, e as partículas se tornam biologicamente mais ativas justamente quando ficam pequenas demais para os métodos correntes. A senhora estuda persistência e dispersão. O que acontece com o material depois que ele deixa de ser microplástico e vira nanoplástico? Estamos perdendo de vista o problema no momento em que ele fica mais relevante?

Talvez. Mas para mim, todo tamanho de plástico é importante de ser evitado, observado, estudado e tratado. Pois a composição, as condições químicas e as interações com o ambiente dos plásticos grandes é o que determina sua fragmentação e decomposição, e consequentemente os danos que ele é capaz de infligir à biodiversidade e ao ecossistema. Por isso, acho importante voltarmos a pesquisa aos processos de fabricação, armazenamento, uso e exposição ambiental dos plásticos.

Essa toxicidade não está relacionada apenas ao tamanho, mas à história do polímero, que muitas vezes, sim, sai do foco do pesquisador porque é bastante longa e começa distante do oceano.

A senhora já disse que nunca se consegue fazer estudo de longo prazo, e que essa limitação de tempo é adversária permanente da pesquisa. A Estratégia Nacional Oceano sem Plástico, em vigor desde outubro de 2025, obriga o governo a publicar dados oficiais sobre lixo plástico. O que um programa nacional de monitoramento precisaria ter, em desenho, duração e financiamento, para produzir série temporal que sirva de base à decisão? E o que existe hoje que já poderia ser aproveitado?

Todos os resultados de pesquisa que existem hoje devem ser aproveitados. E eles estão disponíveis, mas de forma esparsa. A questão é como reuni-los de forma coerente em ambientes onde possam ser conectados e relacionados de forma segura. Ainda não temos essa capacidade de reunião, armazenamento e processamento desses dados e informações, e nenhum país tem, que eu saiba.

Precisamos começar por priorizar as variáveis que serão harmonizadas para serem reunidas e comparadas ao longo do tempo e do espaço, outra questão importante sendo qual espaço físico. Essas serão as variáveis mais adequadas a serem incluídas em monitoramentos em escala nacional. Esses monitoramentos, uma vez em andamento, podem ser continuamente melhorados em escala, abrangência, número e tipo de variáveis e informações geradas.

Mas isso vai acontecer mais lentamente do que gostaríamos. Tem sido assim com vários outros poluentes monitorados de forma sistemática prevista em lei. Um exemplo é o desenvolvimento histórico do monitoramento da balneabilidade de praias quando consideramos todo o país: ele ainda é desigual, mesmo após décadas de sua previsão por lei, nos idos de 1980. Há outros exemplos, como a qualidade da água em bacias hidrográficas e o desembarque pesqueiro.

As negociações do tratado global travaram em Genebra em torno de uma questão: limitar ou não a produção. Deixando de lado a diplomacia e olhando apenas para a evidência acumulada em campo, a ciência já tem base para sustentar uma decisão dessa magnitude? Ou a senhora diria que ainda medimos pouco, medimos mal e por tempo insuficiente para afirmar isso com a segurança que uma norma internacional exige?

A limitação da produção é urgente e nunca deveria sair de pauta, mesmo que precisemos dar vários outros passos técnicos, diplomáticos, sociais ou de qualquer outra natureza para isso. Se o caminho será longo e sinuoso, que seja. O importante é não pararmos de discutir e avançar com o acordo de soluções política e cientificamente consistentes.

Talvez avanços possam ser ajudados por exemplos práticos em territórios que decidam, independentemente dos parceiros multilaterais, experimentar políticas que demonstrem efetividade continuada no combate à poluição plástica de forma ambiental, econômica e social.

Uma questão importante também é mobilizar a pressão da sociedade, informando e convencendo de que, como está, e com o prosseguimento das tendências atuais, vai ser muito mais difícil continuarmos, se der para continuar.

O trabalho de campo que sustenta essas respostas segue uma rotina modesta: um quadrado de trinta por trinta centímetros posicionado sob a linha da maré alta mais recente, uma camada fina de areia recolhida com espátula de metal, a amostra seca em estufa a sessenta graus por quarenta e oito horas e peneirada em malha de um milímetro. É assim que se constrói, réplica por réplica, o registro da presença do plástico no litoral brasileiro. A Estratégia Nacional Oceano sem Plástico fixa 2030 como horizonte e o primeiro Plano de Ação Federal cobre apenas os primeiros dois anos desse período. O Brasil lança mais de 190 mil toneladas de plástico no mar por ano e ocupa a oitava posição entre os maiores poluidores do mundo.

"A limitação da produção é urgente e nunca deveria sair de pauta", diz Mônica Ferreira da Costa. "Se o caminho será longo e sinuoso, que seja. O importante é não pararmos de discutir e avançar."

Este conteúdo integra o especial Economia do Plástico 2026 — Plástico, sociedade e natureza: uma relação que precisa ser reinventada, produzido pelo Neo Mondo para inaugurar a Coleção Neo Mondo, série bimestral dedicada aos grandes sistemas que definem o século.

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