Especial Plástico, Sociedade e Natureza 2026
Escrito por Neo Mondo | 14 de setembro de 2026
Pulmão humano recebe microplásticos suspensos no ar, partículas que também já foram encontradas no bulbo olfatório - Imagem gerada por IA - Ilustrativa/Neo Mondo
POR - REDAÇÃO NEO MONDO
Uma sequência de estudos conduzida por Luís Fernando Amato-Lourenço, Thais Mauad e pesquisadores da USP encontrou partículas no ar de São Paulo, em tecido pulmonar e no bulbo olfatório. Os achados comprovam a exposição e indicam uma possível porta de entrada para o cérebro, mas ainda não demonstram que os fragmentos tenham causado doenças
Durante uma semana, amostras retiradas do bulbo olfatório de pessoas que haviam vivido em São Paulo foram iluminadas por um feixe de radiação infravermelha no Laboratório Nacional de Luz Síncrotron, em Campinas. O tecido estava congelado e havia sido cortado em lâminas de dez micrômetros. Outra parte fora digerida por enzimas, para que partículas alojadas em regiões mais profundas não escapassem da análise. Diante dos pesquisadores havia uma pergunta que, poucos anos antes, pareceria improvável: fragmentos de plástico suspensos no ar poderiam atravessar o nariz e alcançar uma estrutura do cérebro?
A investigação reuniu especialistas do Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, do Instituto de Química da USP, do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais e da Universidade Livre de Berlim. O engenheiro ambiental Luís Fernando Amato-Lourenço assina o trabalho como primeiro autor. A médica patologista Thais Mauad, professora da FM-USP e pesquisadora dos efeitos da poluição sobre a saúde, participou da concepção, da análise dos dados e da supervisão. O resultado foi publicado em setembro de 2024 na JAMA Network Open: microplásticos foram identificados no bulbo olfatório de oito das 15 pessoas examinadas. Era a continuação de uma linha científica brasileira que já havia encontrado essas partículas no ar da maior metrópole do país e nos pulmões de seus moradores.
O percurso começou pela respiração. Durante décadas, a poluição atmosférica foi estudada principalmente a partir de gases e partículas produzidas pela queima de combustíveis, por processos industriais e pela ressuspensão da poeira. A fragmentação dos objetos plásticos, o desgaste de tecidos sintéticos, embalagens, utensílios e outros produtos acrescentou um componente que os sistemas tradicionais de monitoramento raramente medem. Fibras e fragmentos suficientemente pequenos podem permanecer suspensos, circular entre ambientes internos e externos e ser inalados.
Em 2020, Amato-Lourenço, Mauad e colaboradores publicaram uma revisão científica tratando os microplásticos aerotransportados como uma classe emergente de poluente. No ano seguinte, a equipe apresentou uma evidência material dessa exposição. O grupo analisou tecido pulmonar obtido em autópsias de 20 moradores da cidade de São Paulo, com idades entre 48 e 94 anos. Treze amostras continham material plástico: foram identificadas 33 partículas e quatro fibras. Os fragmentos mediam menos de 5,5 micrômetros; as fibras, entre 8,12 e 16,8 micrômetros. Polietileno e polipropileno, dois dos polímeros de maior produção no mundo, apareceram com maior frequência. O estudo foi publicado no Journal of Hazardous Materials.
O tamanho ajuda a compreender o achado. Um fio de cabelo humano costuma ter dezenas de micrômetros de espessura. As partículas encontradas eram várias vezes menores e haviam permanecido no tecido pulmonar. Isso não demonstrava que provocaram uma enfermidade, mas eliminava uma dúvida anterior: parte do plástico que respiramos não é necessariamente expelida logo depois da inalação. Ela pode alcançar regiões profundas e ficar retida no organismo.
Esse tipo de pesquisa carrega uma dificuldade incomum. Como o plástico está presente nas roupas, nas embalagens, nos equipamentos e no próprio ar, uma amostra pode ser contaminada durante a coleta ou no laboratório. Encontrar um fragmento não basta. É preciso demonstrar que ele já estava no tecido e não caiu ali durante o procedimento. Para reduzir esse risco, a equipe limitou o contato das amostras com polímeros e adotou controles destinados a revelar contaminações externas. A cautela não é detalhe técnico. É a fronteira entre detectar o que estava no corpo e medir o plástico do ambiente de trabalho.
Em 2022, os pesquisadores voltaram ao início da rota e mediram a deposição atmosférica de microplásticos em ambientes internos e externos da capital paulista. As partículas apareceram em todas as amostras. A taxa média de deposição foi de aproximadamente 309 itens por metro quadrado ao dia em ambiente interno e 123 no ambiente externo. Dentro dos edifícios predominavam fibras de poliéster, além de partículas de polietileno e polipropileno. Do lado de fora também foram encontrados poliéster, polietileno e PET. O estudo, publicado na Science of the Total Environment, apresentou a primeira medição desse tipo em uma megacidade latino-americana.
As três pesquisas começaram, então, a formar uma sequência: as partículas estavam no ar; depois, apareceram no pulmão. Faltava compreender até onde poderiam chegar.
O bulbo olfatório está localizado acima da cavidade nasal, na base do cérebro. Ele recebe os sinais produzidos quando moléculas de odor entram no nariz e funciona como uma das primeiras estações do sistema olfatório. Entre a cavidade nasal e o bulbo existe a lâmina cribriforme do osso etmoide, atravessada por pequenas aberturas pelas quais passam fibras nervosas. A anatomia oferece uma passagem possível para materiais externos, embora isso não signifique que toda partícula inalada consiga percorrê-la.
Para investigar essa hipótese, o grupo analisou os bulbos olfatórios de 15 pessoas submetidas a autópsias no Serviço de Verificação de Óbitos da Capital. Todas haviam vivido ao menos cinco anos em São Paulo. Os pesquisadores combinaram duas abordagens. Uma preservou cortes do tecido, permitindo observar onde o material estava localizado. A outra digeriu a matéria biológica e concentrou eventuais partículas em filtros. A composição foi examinada por microespectroscopia de infravermelho, técnica capaz de comparar a assinatura química de cada fragmento com bibliotecas de polímeros.
Foram encontradas 16 partículas e fibras sintéticas em oito pessoas. Três quartos tinham forma de partícula; o restante era composto por fibras. O polipropileno respondeu por 43,8% do material identificado. Também apareceram poliamida, náilon, polietileno, copolímero de etileno e acetato de vinila e outras combinações. As partículas mediam de 5,5 a 26,4 micrômetros. Os controles procedimentais não apresentaram material polimérico, o que reduziu a probabilidade de o resultado ter sido produzido pela contaminação do laboratório.
O trabalho não demonstrou que o plástico tenha viajado obrigatoriamente pelo nariz. Os próprios autores registraram outras possibilidades: as partículas poderiam ter chegado pela circulação sanguínea, atravessado a barreira hematoencefálica ou seguido outra passagem associada ao sistema respiratório. A localização do bulbo, a presença anterior de microplásticos na cavidade nasal e a anatomia da região tornam a via olfatória plausível, não comprovada.
Também não foi possível detectar nanoplásticos, menores do que o limite de resolução do equipamento utilizado. Essa restrição produz um paradoxo: quanto menor a partícula e, portanto, maior sua capacidade potencial de atravessar barreiras biológicas, mais difícil é encontrá-la e caracterizá-la. A ausência de nanoplásticos no resultado não prova que eles não estavam nas amostras. Significa que o método empregado não podia enxergá-los.
A diferença entre encontrar uma partícula e atribuir a ela uma doença precisa permanecer nítida. O estudo foi uma série de casos, com 15 indivíduos, sem grupo desenhado para relacionar níveis de exposição a desfechos clínicos. Não mediu quanto plástico cada pessoa respirou ao longo da vida, por quanto tempo o material permaneceu no tecido ou se desencadeou inflamação, dano neurológico ou qualquer enfermidade. As pesquisas experimentais que apontam estresse oxidativo, alterações imunológicas e neurotoxicidade ajudam a formular hipóteses, mas não substituem evidência clínica em humanos.
Isso não diminui o que foi descoberto. A ciência trabalha por degraus. Primeiro demonstra que a exposição existe. Depois identifica as vias, mede as doses, observa respostas biológicas e, somente então, avalia se há relação causal com doenças. O grupo brasileiro avançou nos dois primeiros degraus: mostrou que respiramos fragmentos plásticos e que parte deles pode permanecer em tecidos humanos situados do pulmão ao sistema nervoso central.
A trajetória também altera a geografia da poluição plástica. Durante muito tempo, a imagem dominante foi a de garrafas, sacolas e redes abandonadas no oceano. Os trabalhos conduzidos a partir da USP mostram outra escala. O plástico também se desprende de objetos cotidianos, circula em quartos, escritórios e ruas, mistura-se à poeira e entra no corpo a cada respiração. A exposição não começa na praia nem termina quando o resíduo desaparece da vista.
Ainda não existem limites regulatórios para microplásticos no ar, protocolos universais para medir a exposição humana ou valores capazes de separar uma dose tolerável de uma dose perigosa. Os estudos usam métodos, tamanhos mínimos de detecção e formas de contabilização diferentes. Isso dificulta comparar cidades, grupos populacionais e órgãos humanos. Também impede transformar rapidamente a descoberta laboratorial em vigilância de saúde pública.
O avanço dependerá de estudos maiores, métodos comparáveis, acompanhamento de pessoas vivas e instrumentos capazes de localizar partículas sem depender exclusivamente de autópsias. Será necessário saber quais atividades e ambientes elevam a exposição, quais polímeros chegam com maior frequência ao organismo, como são eliminados e se determinados grupos enfrentam doses maiores. Trabalhadores têxteis, profissionais expostos a poeiras industriais, moradores de áreas com tráfego intenso e crianças em ambientes internos estão entre as populações que merecem investigação específica, não porque a doença já esteja demonstrada, mas porque as rotas de contato podem ser distintas.
Do ar ao pulmão e do nariz ao bulbo olfatório, a pesquisa de Amato-Lourenço, Mauad e seus colaboradores não encerra a pergunta sobre o que os microplásticos fazem ao corpo. Ela torna impossível continuar formulando essa pergunta como se a exposição fosse distante ou apenas marinha. O plástico que a economia dispersa pelo ambiente já atravessou a fronteira entre o lado de fora e o lado de dentro. A ciência brasileira conseguiu mostrar onde ele chegou. Agora precisa descobrir o que acontece depois.
Este conteúdo integra o especial Economia do Plástico 2026 — Plástico, sociedade e natureza: uma relação que precisa ser reinventada, produzido pelo Neo Mondo para inaugurar a Coleção Neo Mondo, série bimestral dedicada aos grandes sistemas que definem o século.

A cadeia que ninguém quis fechar
Rumo à nova economia do plástico e a um ambiente e uma sociedade saudáveis
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