Especial Plástico, Sociedade e Natureza 2026
Escrito por Neo Mondo | 14 de setembro de 2026
Muito além de vítima da poluição, a tartaruga marinha pode revelar onde o plástico se acumula e se as medidas de prevenção funcionam- Foto: Ilustrativa/Freepik
Por - Camila Domit*, Mariana Lacerda*, Robson Santos* e Renata Nagai*
Uma tartaruga marinha com plástico no trato digestório, uma ave oceânica alimentando seu filhote junto a resíduos, um mamífero marinho emalhado em uma rede abandonada. Essas cenas tornaram visível uma crise que atravessa os ecossistemas. Mais de 1.500 espécies já foram registradas ingerindo plástico, o que evidencia a dimensão global do problema. Os registros também trazem uma história que começa muito antes do plástico chegar ao oceano: a trajetória dos materiais que produzimos, usamos, descartamos, perdemos ou abandonamos no ambiente.
Antes de se tornar resíduo, esse plástico foi matéria-prima, embalagem, utensílio ou petrecho de pesca. Seu caminho até a biodiversidade é definido por decisões relacionadas ao desenho e à produção dos produtos, ao consumo, saneamento, drenagem e gestão de resíduos, além de atividades pesqueiras, e por seu transporte no meio ambiente. Terra, rios, estuários e oceano formam um sistema conectado, e tentar enfrentar a poluição apenas quando o resíduo chega à praia ou aos organismos significa atuar apenas com a consequência final de uma cadeia econômica e social desordenada e geradora de impactos.

Os efeitos sobre a biodiversidade ocorrem em múltiplas escalas. Macroplásticos (com tamanho entre 2,5 e 100 cm) podem causar ingestão, emalhe, obstruções, perfurações e morte; petrechos perdidos ou descartados podem continuar capturando organismos pela “pesca fantasma”. Em 2025, um modelo baseado em mais de 10 mil necropsias mostrou que, para mamíferos marinhos, a ingestão de cerca de 30 itens de macroplástico está associada a 90% de probabilidade de mortalidade dos indivíduos, embora o risco varie com o tipo e o volume de plástico, assim como com o tamanho do corpo do animal. À medida que o plástico se fragmenta, micro (com tamanho menor do que 5 mm) e nanoplásticos (menores que 0,001 mm) ampliam as interações com o ecossistema, mas também com tecidos, células e processos fisiológicos. Superfícies plásticas também podem ser colonizadas por microrganismos, formando a plastisfera e criando interfaces entre poluição, patógenos, genes de resistência antimicrobiana e saúde ambiental.
Os organismos marinhos, entretanto, não representam apenas o compartimento final em que constatamos as consequências da poluição. Quando monitorados de forma sistemática e padronizada, podem integrar uma rede de sentinelas ambientais. Tartarugas marinhas, aves costeiras e oceânicas, cetáceos, lobos marinhos, focas, peixes e até mesmo organismos filtradores evidenciam diferentes vias de exposição, assim como a severidade e a magnitude dos impactos do plástico. Em tartarugas-verdes, um aumento de apenas um item de plástico flexível por metro quadrado de praia foi associado a um aumento superior a 100 vezes no número de itens ingeridos. O monitoramento da biodiversidade pode, portanto, transformar registros de organismos afetados em indicadores capazes de revelar onde a exposição aos plásticos cresce, quais polímeros predominam, em quais áreas o risco se concentra, a vulnerabilidade dos organismos e as consequências para a saúde planetária, e se as medidas de prevenção estão produzindo resultados.

Avançar no uso da biodiversidade como componente do monitoramento da poluição plástica exige ir além do registro de casos de interação, ingestão ou mortalidade, pois requer protocolos de acesso e monitoramento comparáveis e sistematizados, séries temporais, georreferenciamento dos esforços e resultados, caracterização de polímeros, análises químicas e moleculares, modelagem espacial e oceanográfica e integração entre grupos de pesquisa, áreas do conhecimento e bases de dados. Uma revisão global mostrou que ainda são raros os programas de longo prazo capazes de usar a biota como bioindicadora da poluição plástica e que persistem grandes lacunas no Sul Global, fato que integra os grandes desafios da Década da Ciência Oceânica pelo Desenvolvimento Sustentável, seja pela busca por um oceano limpo, saudável e resiliente, seja pelo maior compartilhamento de dados e pela construção colaborativa de conhecimento e de busca de soluções para os impactos observados.
O Brasil precisa estruturar suas estratégias e assumir a liderança neste contexto, pois, diante de sua megabiodiversidade e de sua extensa costa, o país ainda conta com grupos com ampla experiência no monitoramento do lixo na costa e no mar, assim como com programas sistemáticos de monitoramento da biodiversidade. Esse cenário permite que o país desempenhe papel protagonista na mitigação dessa crise planetária, ao avaliar de forma sistêmica as interações entre plástico e biodiversidade, aspectos de Uma Só Saúde (One Health), e ao propor e implementar políticas públicas em prol da qualidade ambinetal e conservação dos ecossistemas. Os Projetos de Monitoramento de Praias já abrangem mais de 3.000 km do litoral e acumulam séries históricas raras em escala global para a avaliação de animais marinhos encalhados e dos impactos que afetam esses organismos. Integrados às análises dos animais encalhados, às suas interações com plástico em múltiplas escalas de tamanho, forma e origem, aos dados oceanográficos, às estimativas de fontes de poluição e às novas tecnologias analíticas, esses programas podem se consolidar como sistemas de inteligência ambiental para avaliar a presença, a quantidade e os efeitos da poluição por plástico sobre a biodiversidade, assim como fonte de dados para monitorar a efetividade de medidas mitigadoras e de combate aos impactos causados aos ecossistemas e à sociedade humana.

A integração da biodiversidade em sistemas de inteligência de avaliação e monitoramento ambiental ganha ainda mais relevância se integrada aos instrumentos como o Plano Nacional de Combate ao Lixo no Mar, a Estratégia Nacional Oceano sem Plástico e a logística reversa de embalagens, assim como pode ser um caminho para o Brasil efetivar ações em direção ao Plano Global da Década do Oceano, e o Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal, o qual estabelece metas explícitas de redução da poluição. Se menos plástico chegar ao ambiente, como poderemos reconhecer os sinais dessa mudança? Possivelmente, na biodiversidade, a qual indicará melhorias para o meio ambiente e a saúde de todos os organismos, incluindo na qualidade de vida das pessoas.
Monitorar organismos e ecossistemas por meio de iniciativas integradas e interdisciplinares permite conectar economia, ganhos sociais, conservação ambiental e serviços ecossistêmicos. Também pode transformar séries históricas das ciências do mar em métricas capazes de apoiar a gestão territorial e orientar ações de prevenção e mitigação. Reciclagem e destinação adequada continuam essenciais, mas não bastam. Reduzir as perdas ambientais exige atuar ao longo de todo o ciclo de vida do plástico, do desenho e da produção ao uso, reúso, descarte e responsabilidade das cadeias.

Nesse processo, monitorar a biodiversidade pode nos revelar onde o problema persiste e se as soluções estão funcionando. Uma nova economia do plástico precisa reduzir desperdícios e ampliar a circularidade, mas também demonstrar que está reduzindo perdas e impactos ambientais. Sistemas de monitoramento e métricas alinhadas aos objetivos das políticas são fundamentais para acompanhar esse progresso. Transformar evidência em conhecimento, este em decisão e, desta forma, delinear a prevenção, pode ser uma das contribuições mais concretas da ciência e do monitoramento da biodiversidade para uma nova economia do plástico. Ao conectar as séries históricas ambientais, políticas públicas nacionais e compromissos internacionais, temos também a oportunidade de fortalecer uma resposta coletiva em direção a um desenvolvimento sustentável e saudável para todos.

*Camila Domit é bióloga e professora da Universidade Federal do Paraná, onde coordena pesquisas sobre megafauna marinha, os impactos que atingem a biodiversidade marinha e seus habitats e estratégias de planejamento e gestão para a conservação. Atua no Laboratório de Ecologia e Conservação da UFPR e integra a Coalizão Paraná pela Década do Oceano.
*Mariana Baptista Lacerda é bióloga e doutora em Zoologia. Atua com biodiversidade marinha e Cultura Oceânica, conectando ciência e sociedade para a conservação do oceano. Pesquisadora do Laboratório de Ecologia e Conservação da UFPR, integra a Coalizão Paraná pela Década do Oceano.
*Robson G. Santos é biólogo e professor associado da Universidade Federal de Alagoas, onde pesquisa como a ação humana, em especial a poluição por plástico, afeta a biodiversidade marinha e os ambientes naturais. Coordena o ECOA Lab, laboratório de Ecologia e Conservação no Antropoceno da UFAL.
*Renata Hanae Nagai é oceanógrafa e pesquisadora da Universidade de São Paulo, onde investiga a poluição por microplásticos e seus efeitos nos ambientes marinhos. Atua no Laboratório de Proxies Marinhos para o Futuro do Oceano, do Instituto Oceanográfico da USP.
Este conteúdo integra o especial Economia do Plástico 2026 — Plástico, sociedade e natureza: uma relação que precisa ser reinventada, produzido pelo Neo Mondo para inaugurar a Coleção Neo Mondo, série bimestral dedicada aos grandes sistemas que definem o século.

A cadeia que ninguém quis fechar
Rumo à nova economia do plástico e a um ambiente e uma sociedade saudáveis
Índice + A cadeia que moldou o mundo + Vozes deste Especial