Especial Plástico, Sociedade e Natureza 2026

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Plástico, sociedade e natureza 2026.

Nanoplásticos: o desafio invisível para a economia circular e o futuro dos oceanos

Escrito por Neo Mondo | 14 de setembro de 2026

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Nanoplásticos permanecem invisíveis na água, mas já se dispersam pelo oceano e alcançam estruturas delicadas dos ecossistemas - Imagem gerada por IA - Ilustrativa/Neo Mondo

POR - SILVIA PEDROSO MELEGARI*

Garrafas, sacolas, embalagens e redes de pesca são as faces mais visíveis da poluição plástica nos oceanos. Entretanto, parte expressiva desse problema não pode ser observada a olho nu. Pela ação da radiação solar, das ondas e do atrito, os resíduos se fragmentam progressivamente, formando microplásticos e, em escala ainda menor, nanoplásticos.

Embora ainda não exista uma definição totalmente harmonizada, muitos estudos consideram nanoplásticos as partículas de plástico entre 1 e 1.000 nanômetros — menores que um micrômetro. Seu tamanho modifica seu comportamento no ambiente: elas possuem uma área superficial por grama muito maior e podem permanecer dispersas na água, interagindo com matéria orgânica e contaminantes, e alcançam estruturas biológicas dificilmente acessíveis às partículas maiores.

Em 2025, um estudo publicado na revista Nature revelou nanoplásticos em diferentes profundidades do Atlântico Norte. A extrapolação das concentrações indicou que aproximadamente 27 milhões de toneladas dessas partículas podem estar presentes na camada de mistura das regiões temperada e subtropical. Embora sujeita a incertezas, a estimativa sugere que parte do chamado “plástico desaparecido” esteja abaixo dos limites de detecção dos levantamentos tradicionais.

Os possíveis impactos desse tipo de plástico também despertam preocupação. Estudos publicados nos últimos anos têm demonstrado que nanoplásticos podem ser absorvidos e distribuídos pelos diversos organismos aquáticos quando expostos à concentrações ambientalmente realistas.

Esses resultados confirmam que os nanoplásticos são biologicamente disponíveis, mas não permitem generalizar seus efeitos. A toxicidade depende da natureza do polímero, tamanho, formato, concentração e tempo de exposição. Muitos experimentos utilizam partículas esféricas produzidas em laboratório, enquanto aquelas encontradas no ambiente são irregulares, degradadas e associadas a outras substâncias. Permanecem lacunas sobre exposições crônicas, transferência nas cadeias alimentares e consequências para os ecossistemas.

A dificuldade de medir e remover partículas nessa escala reforça a prevenção. Mesmo que o descarte inadequado fosse interrompido hoje, os resíduos acumulados continuariam se fragmentando durante décadas. Cada objeto abandonado representa uma fonte potencial de nanoplásticos — uma dívida ambiental que não pode ser solucionada apenas com a limpeza de praias e oceanos.

Silvia Pedroso Melegari - Foto: Divulgação

É nesse ponto que a economia circular se torna essencial. O modelo predominante ainda segue uma lógica linear: extrair matérias-primas, produzir, consumir e descartar. A circularidade busca manter produtos e materiais em uso pelo maior tempo possível, reduzindo a extração de recursos e evitando a geração de resíduos desde a concepção.

Economia circular, entretanto, não é sinônimo de reciclagem. Embalagens que combinam polímeros, pigmentos, adesivos e aditivos são difíceis de reaproveitar, enquanto a contaminação e a degradação reduzem a qualidade do material reciclado. Estudos publicados na Science mostram que nenhuma medida isolada será suficiente: é necessário eliminar produtos desnecessários, reduzir o plástico virgem, ampliar a reutilização, redesenhar embalagens, melhorar a coleta e garantir a reciclagem e a destinação segura dos rejeitos.

Os bioplásticos tampouco são uma solução automática. Um material de origem renovável não é necessariamente biodegradável, e muitos plásticos biodegradáveis exigem condições industriais específicas para decomposição. Sem infraestrutura adequada, também podem permanecer no ambiente e se fragmentar. A circularidade deve priorizar redução, durabilidade e reutilização, integrando a reciclagem a um sistema mais amplo.

O enfrentamento dos nanoplásticos está diretamente relacionado à Década das Nações Unidas da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável (2021–2030), cujo lema propõe “a ciência de que precisamos para o oceano que queremos”. Um de seus desafios é compreender e combater a poluição marinha, aproximando o conhecimento científico das políticas públicas e das decisões econômicas.

Será necessário desenvolver métodos padronizados de monitoramento, identificar fontes e rotas de transporte, avaliar riscos ecológicos e transformar resultados científicos em inovação, regulação e prevenção. Universidades, governos, empresas e comunidades costeiras precisam participar desse processo.

Os nanoplásticos mostram que a poluição não desaparece quando deixa de ser visível. Ela muda de escala, espalha-se pela água e pode alcançar componentes delicados dos ecossistemas. Na Década da Ciência Oceânica, compreender esse universo invisível será decisivo para transformar a economia do plástico e proteger a biodiversidade, os recursos pesqueiros e os serviços oferecidos pelos oceanos.

*Silvia Pedroso Melegari é professora do Centro de Estudos do Mar da Universidade Federal do Paraná (CEM/UFPR), docente permanente e atual coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Sistemas Costeiros e Oceânicos (PPGSISCO). É graduada em Química e mestre e doutora em Engenharia Ambiental pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), com estágios de pós-doutorado na Université du Québec à Montréal, no Canadá, e na Northwestern University, nos Estados Unidos. Atua nas áreas de Química Ambiental e Ecotoxicologia Aquática, com ênfase em qualidade da água e nos efeitos de poluentes emergentes, como fármacos, microplásticos e nanoplásticos, sobre organismos e ecossistemas aquáticos.

Este conteúdo integra o especial Economia do Plástico 2026 — Plástico, sociedade e natureza: uma relação que precisa ser reinventada, produzido pelo Neo Mondo para inaugurar a Coleção Neo Mondo, série bimestral dedicada aos grandes sistemas que definem o século.

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